02/05/2019
50 ‘tom’s de Etimologia
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A palavra ‘tomé’, do Grego Antigo, se tornou uma das mais prolíferas no vocabulário técnico médico e científico. Hoje, em português, ela é um elemento de composição muito comum. Perdoe-me pelo trocadilho tosco do título e veja como ‘tomé’ está em muitas palavras que você nem desconfiava.
‘Tomé’ significa ‘corte, separação’, originário do verbo ‘témno’ (cortar dividir). Daí, temos ‘tómos’ que seria um pedaço (cortado) do todo e ‘átomos’ que era algo indivisível, considerando o ‘a-’ como prefixo de negação. Dessas suas palavras, obviamente, temos tomo, que é um volume de uma grande obra, e átomo, que, na época do filósofo grego Demócrito (séc. V a.C.), era considerada a menor partícula do Universo: minúscula, eterna e indivisível. Modernamente, descobrimos que átomo é divisível, mas o nome, por tradição, ficou.
Se um objeto pode ser dividido em duas partes, ele é dicótomo ou dicotômico (‘dikha’: em dois). É daí que vêm as famosas chaves dicotômicas da Taxonomia. Agora, se é dividido em mais partes, é um ‘éntomos’ (cortado em partes). Foi Aristóteles que, no séc. IV, usou essa palavra para denominar os insetos – que, na época, incluíam aracnídeos e miriápodes – em referência ao corpo segmentado. É daí que surgiu Entomologia como nome da área que estuda os insetos.
Outro grande grupo com ‘tom-’ no nome é o das Diatomáceas. O gênero-tipo é o ‘Diatoma’, que significa ‘cortado ao longo’. Em 1824, o naturalista francês Bory de Saint-Vicent achou bacana a alga ‘Bacillaria vulgaris’ parecer ser toda cortada e a passou para ‘Diatoma’ (‘diá’: através).
Corte tem mesmo a ver é com Medicina e foi lá na Grécia Antiga que a Medicina Ocidental se desenvolveu para um lado mais científico em vez do místico. Todo tipo de corte era feito para se salvar alguém ou estudar o corpo humano (vivo ou não). Cortar o corpo passou a ser uma técnica imprescindível para se conhecer o seu funcionamento, chamada de ‘Anatomía’. ‘Aná’ significa ‘de baixo para cima’. É um prefixo que dava a ideia do sentido das incisões.
E os cortes não pararam. Quase tudo que é cortável ganhou um nome apropriado para seu corte. Uma incisão no coração é uma cardiotomia; no pulmão, uma pneumotomia; no crânio, craniotomia. [E por falar em cabeça: o médico português António Egas Moniz ganhou o Prêmio Nobel de Medicina, em 1949, por ter inventado a técnica do lobotomia (corte do lobo cerebral) para tratar esquizofrênicos. Hoje, a lobotomia encontra-se em desuso por causa dos efeitos colaterais severos.]
Um corte na veia para se fazer uma sangria era denominado ‘phlebotomía’ (‘phlebó’: veia, artéria). Esse nome, inclusive, levou o entomólogo alemão Hermann Loew, em 1845, a nomear um gênero de mosquitos como ‘Phlebotomus’, ou seja, ‘o que corta veias’.
Para cortar, há o radical -tomia, mas se é para ‘cortar fora’ então usa-se ‘-ectomia’ (‘ektós’: fora). É por isso que a remoção das amídalas (ou, melhor, das tonsilas palatinas) chama-se amidalectomia e da adenoide é adenoidectomia. A remoção de uma mama é uma mastectomia e a de parte do vaso deferente (hoje, duto deferente) é a vasectomia (usada como método contraceptivo masculino).
Em todo caso, é sempre bom fazer antes uma tomografia, que é um exame radiológico que permite visualizar as estruturas anatômicas em cortes, mas sem cortá-las (rsrs). E cuidado com os excessos: quem é viciado em realizar ou sofrer cirurgias tem o que se chama de Tomomania, a mania por incisões.
Bom, vou cortar meu texto por aqui porque já está bem longo. Quem sabe eu não use um micrótomo...
Sugestão: Sérgio de Paula.
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