03/08/2026
A fala de Nise da Silveira recorda uma observação de Jung que continua profundamente atual: quem trabalha com a mente humana precisa conhecer mitologia. Não por erudição, mas porque os mitos falam a linguagem do inconsciente. E antes de compreendermos um sintoma, precisamos compreender o drama humano que ele tenta representar. Freud reconheceu isso com humildade ao afirmar: “Onde quer que eu vá, descubro que um poeta chegou lá antes de mim.” A literatura, a tragédia e os mitos já haviam intuído, muito antes da psicologia, aquilo que a clínica viria a descrever. Muito antes da psicologia existir como ciência, os mitos já narravam aquilo que ainda hoje encontramos no consultório: o medo da perda, o desejo, o luto, a culpa, a repetição, o heroísmo, a tragédia e a possibilidade de transformação. Os cenários mudam. A psique, em muitos aspectos, continua a mesma. Não é por acaso que Freud encontrou, em Édipo Rei, de Sófocles, uma das metáforas fundamentais para compreender a constituição do sujeito, dando origem ao Complexo de Édipo. Da mesma forma, foi no mito de Narciso que buscou a imagem para nomear o narcisismo, mostrando como os mitos oferecem uma linguagem simbólica para compreender a vida psíquica. Jung reconheceu nos mitos a expressão dos arquétipos, imagens universais que atravessam a experiência humana. Nise da Silveira compreendeu profundamente essa perspectiva ao perceber que as imagens produzidas por seus pacientes eram, muitas vezes, pontes para conteúdos psíquicos que as palavras ainda não conseguiam alcançar. Como nos ensinou Lacan, o inconsciente é estruturado como uma linguagem. Nem tudo o que nos constitui pode ser dito diretamente. Muitas vezes, aquilo que não encontra palavras aparece por meio de sonhos, metáforas, fantasias, atos repetitivos e sintomas. Conhecer a mitologia não é somente olhar para o passado. É ampliar a escuta clínica e a capacidade de compreender o presente. Porque, muitas vezes, antes de encontrarmos um diagnóstico, encontramos uma narrativa.