19/08/2016
VIPASSANA
Retiro de 10 dias de silêncio, meditação e intensa observação
Quis esperar um pouco (amanhã completa um mês que fui) para comentar de maneira mais equânime e sem "fogo de palha" essa intensa experiência que tive o privilégio de vivenciar.
Para começar, quero dizer que já havia me inscrito duas vezes antes e na hora H...amarelava...rs dessa ve, senti que era a hora.
Temia o silêncio, f**ar sem fumar (cigarro de palha e pito), f**ar com fome (a última refeição é às 17:00 hs e consiste em duas frutas e um leitinho ou chá), f**ar com sono (acordava as 4hs e dormia às 22:00 hs) achei que poderia pirar...rs
Para minha surpresa nada disso foi a minha questão, adorei f**ar em silêncio, nem lembrei dos "amiguinhos da fumaça", não senti fome nem sono, em compensação...o "monstro" que se apresentou foi...A RAIVA!!!
Tive raiva, irritação de praticamente tudo, a voz do mestre, a tosse das pessoas, o barulho do assento do banquinho de meditação da moça que f**ava em frente a mim, as estaladinhas de articulação do pé da moça ao lado (só descobri que era isso no último dia quando, já sem raiva, resolvi conferir, achava que ela estalava os dedos...rs), a voz monótona (ou equânime?) da professora dizendo> "Um breve intervalo e logo retornaremos", o "Start again' do mestre, até uma moça lá da fila da frente que sequer via seu rosto me irritava com sua "caxiisse"...enfim, quase tudo me enlouquecia, imaginava cenas tenebrosas, falas agressivas...isso sem contar as dores...
No corpo minha raiva se traduziu em intensos calores, pegava fogo, por dentro e por fora. Passei a tomar 3 banhos por dia, bebia água sempre que podia e sentia as labaredas subirem all the time....
Para mim essa foi uma das lições mais importantes, a RAIVA era minha, não dependia de ninguém, não tinha ninguém para culpar, nem nada para reclamar de fato, tudo se desenrolava dentro de mim.
A outra maravilhosa lição foi...AS DORES físicas ou manifestações grosseiras como o mestre chamava. Como terapeuta corporal tentava de "um tudo" para aliviá-las, encaixes, ajustes, respiração e... nada...e o mestre ainda dizia que tudo era impermanência...há que vontade de apertar o pescoço dele ...rs
Três dias respirando numa área restrita, no quarto...mais restrita ainda...e a partir daí...varredura, observando as sensações.
Outro espanto, não sentia nenhuma sensação na cabeça, nos olhos, na boca...que agonia...no resto...dor...a perna esquerda parecia esmagada por um caminhão, a escápula direita tinha uma "faca" permanente enfiada até a orelha...
Aos poucos, sem saída, experimentei a tal da "anicca"- impermanência, fazendo a varredura, procurando não me ater as sensações grosseiras, comecei a perceber a verdade da coisa.
Com lágrimas nos olhos, repetindo o mantra "anicca", fui percorrendo todo o corpo, da cabeça aos pés, dos pés a cabeça, "again", e de repente...cadê a dor que estava aqui? Sumia, assim como vinha. No dia seguinte, voltava e de novo se ia...pude comprovar na carne o que sabia mentalmente: O CORPO NÃO EXISTE! Tudo é impermanente...MESMO!
No penúltimo dia...GLÓRIA! pensei, passou tudo,sem dores, fluxo semi livre, alegria, mta. alegria...
No último dia voltamos a falar (não curti mto. no começo, tinha me adaptado e usufruído bem do silêncio). Distribuição de tarefas, das quais quis fugir e como lição semi final, me coube a mais árdua, a cozinha, que só poderia ser concluída no dia seguinte, quando todos tivessem tomado café... de novo uma nuvenzinha tomou conta de mim...fui dormir com a "enorme" lista de afazeres ao lado da cama, pesando...na minha imaginação.
Acordei as duas da manhã com intensa dor nos dois olhos, com calma fiz a varredura...a dor foi se dissolvendo em minúsculas partículas, o sino tocou, 4:15! O tempo sumiu, duas horas de varredura e para mim parecia que haviam passado 15 min. Corri para a última meditação, com lágrimas de pura gratidão e alegria...
A cozinha? mais de 10 pessoas se ofereceram para ajudar, praticamente não fiz nada, tudo fluiu com rapidez e alegria.
Concluindo, a raiva, a alegria, a dor, o alívio estão em mim, comigo, e nesse mês aprendi a respirar em cada sensação, estou sentando 3 hs por dia sem sentir o peso do tempo, como se fosse encontrar um namorado novo, que mora dentro de mim e que posso acessá-lo, a q.q. momento em q.q. lugar!!!
Profunda gratidão por todo processo que mudou a minha vida!
Os amiguinhos da fumaça...parece que se foram de vez!!!!
Agora. como diz minha querida amiga, é por em prática nas situações punk rock da vida.
Os te**es têm se apresentado na delegacia, no IML, nas "otoridades" congeladas da vida, nos espectros da morte e dos sonhos, no dia a dia...
To varrendo bem...rs