06/03/2021
Mais um texto para refletir
MULHER! Simplesmente MULHER
“Quando nasci um anjo esbelto, desses que tocam trombeta, anunciou:
Vai carregar bandeira. Cargo muito pesado pra mulher
, esta espécie ainda envergonhada”. (Adélia Prado)
Dia 08 de março comemoramos o Dia Internacional da Mulher, sempre com muitas homenagens e lembranças históricas. Desde 1975, o dia 8 de Março é comemorado pelas Nações Unidas como o Dia Internacional da Mulher, porque lembra a luta concreta das operárias têxteis de uma fábrica em Nova Iorque que foram queimadas vivas ao invadirem a mesma lutando por melhores condições de trabalho em março de 1857. Em 1903 algumas liberais norte-americanas criaram uma associação para ajudar as mulheres trabalhadoras a exigirem melhores condições de trabalho. Ainda em Nova Iorque, no ano de 1908 mais de 14 mil mulheres reivindicavam nas ruas além de melhores condições de trabalho o direito de voto. Seu slogan era: “Pão e Rosas”, onde o pão simbolizava a estabilidade econômica e as rosas uma melhor qualidade de vida. Onde estariam os homens dessas mulheres?
É importante lembrarmos as mulheres anônimas que foram queimadas vivas, das Carlotas Joaquinas, das Joanas D’Arc, das Cleópatras, das mulheres de Alexandre, o Grande, das bruxas da Idade Média, e de várias personagens que pela sua vida e feitos entraram para a história oficial. Quando estudamos estas personagens somos tentados a emitir juízo de valor para suas atitudes e as vimos como heroínas ou grandes vilãs, embora a história nos ensine a não julgar o passado conforme nossos parâmetros de hoje. Tão importante quanto lembrarmos estas personagens da história oficial é lembrarmos as que foram esquecidas. As Joanas, as Carlotas, as Anas, as Marias, enfim simplesmente as mulheres. É para estas mulheres que escrevo hoje.
Quando o fardo pesa e sinto esmorecer, me vem à lembrança estas mulheres que pela sua coragem, otimismo, capacidade, maturidade conquistaram um mundo adverso que só nos impõe um fardo muito pesado. Fardo este que somos convidadas a carregar desde o nascimento, e que carregamos como mães, esposas, amigas, filhas, amantes, irmãs, profissionais, como Mulheres. Quando a solidão traz a insônia sentindo a falta do amor companheiro, lembro das viúvas, das mulheres marcadas pela violência de homens bandidos, das tantas mulheres que assim como eu, criam os filhos sozinhas, cuidam da casa, do trabalho, dos amigos e ainda encontram tempo para não perder a esperança de viver este amor que impulsiona a vida.
Em cada amanhecer ao abrir a janela do meu quarto vejo meninas-mulheres correndo para irem ao colégio, levarem seus filhos para a escola, creche ou até mesmo para outras mulheres os cuidarem, irem para o trabalho seja ele qual for. Todas maquiadas, belas, e de salto alto! É o milagre da Vida que se renova, faça sol, faça chuva, nestas mulheres! Nem a tripla jornada de trabalho, nem o descaso como são tratadas por seus companheiros a impedem de realizar este milagre. São muito raras as mulheres que têm em seus companheiros um apoio que as ajude na missão de fazer um mundo melhor. É tão raro que muitas de nós nem sabemos mais como seria dividir este fardo diário. Apesar desta raridade, já encontramos verdadeiros homens que fazem o papel de pai e mãe, ajudando a renovar o milagre da vida, que sendo homens, agem com alma de mulheres.
Que neste dia 08 de março possamos homenagear todas as mulheres que são nossas contemporâneas, importantes para nós, exemplos de justiça e paz, fracas nas lágrimas e fortes na ação, que sabem agir com a razão sem perder o rumo do coração. Parabéns para nós e para todos aqueles que são capazes de nos olhar para além de algumas horas de prazer! Por falta de palavras, finalizo esta homenagem com a Licença Poética de Adélia Prado:
“Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
Ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— Dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
A mulher é desdobrável. Eu sou”.
Neuza Janke
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