07/04/2021
UMA ECLESIOLOGIA FALHA
No cristianismo primitivo, estava claro que os templos poderiam ser substituídos pelo “templo maior” que é o próprio mundo.
A conversa de Jesus com a samaritana reflete bem isso a medida em que o Mestre lhe diz que “chegaria um tempo em que não se adoraria naquele monte - referindo-se a Garizim - nem em Jerusalém” (Jo 4,22). E completa: “os adoradores que o Pai procura são aqueles que O adoram em espírito e em verdade” (Jo 4,23). Essa expressão constitui-se como a revelação de uma teologia: para o cristão, o espaço físico de culto não encerra Deus. Não O deixa estático. Não O prende. Ele é onipresente!
Essa mesma perspectiva teológica aparece quando, no momento da morte de Jesus, o véu do Templo se rasga. Nesse sentido, ninguém pode mais, na nova e eterna aliança ser o dono de Deus. Ele é livre! É diante dessa realidade que, em At 7,48, Estevão , o primeiro mártir, afirmou: “Deus não habita em templos construídos por mãos humanas”.
Numa eclesiologia limitada, presa aos monumentos, fixa e rígida, compreende-se Igreja como mera instituição. Talvez, numa Pessoa Jurídica, um CNPJ, que detém bens. Ou ainda, ela passa a ser entendida como sendo apenas o prédio de culto. Ora, isso não é a eclesiologia da revelação divina, bíblica; nem católica, nem protestante. A Igreja é o povo de Deus! Nós somos a Igreja do Senhor.
Assim, o prédio-templo não é a Igreja. Ele é o local onde se reune a Igreja. Prédios são bons e importantes. Mas, em tempos em que eles estão desautorizados de fazerem aglomerações (isso tem um bom motivo), é preciso se resgatar a eclesiologia mais fundamental: Deus habita em qualquer lugar! Nunca se esqueça disso!
E os sacramentos? São muito importantes, claro! Porém a não vivência cotidiana e cultual dos mesmos por ocasião da salvaguarda das vidas humanas, no que tange à sua ministração, não invalida nosso ser de membros da Igreja de Cristo. Todo batizado já é Igreja.
Lutar para manter as igrejas (prédios) abertos num momento tão grave de atentado à vida, como se isso fosse a garantia do ser Igreja, não me parece tão cristão assim.
A vida não pode estar abaixo das reuniões de culto.
Reflita. Não é ideologia. É bom senso