28/03/2026
Ao longo da nossa vida na Terra, é difícil mensurar com precisão o que é o silêncio. Talvez ele nunca tenha sido absoluto. Ainda na barriga de nossas mães, atravessamos um suposto silêncio que logo é rompido pelas primeiras batidas do coração. Desde então, o silêncio passa a existir sempre em relação — como intervalo, como suspensão, como aquilo que antecede ou sucede algo.
Há momentos em que ele se torna mais perceptível: no instante antes de um beijo, nos segundos que antecedem o chute de um pênalti numa final, ou no silêncio que se instala quando perdemos alguém querido. Não como ausência total de som, mas como uma mudança na forma de escutar o mundo.
No dia 28 de março de 2023, ouvimos pela primeira vez o silêncio de Ryuichi Sakamoto. Mas talvez seja importante dizer que não se trata de um silêncio vazio. Há silêncios que vibram, que continuam em ressonância, que se espalham no tempo.
Ryuichi Sakamoto foi um compositor, pianista e artista japonês cuja obra atravessa a música eletrônica, o cinema e a experimentação sonora. Entre as diversas dimensões de seu trabalho, destacam-se as colaborações com Alva Noto, nas quais o piano e a eletrônica se encontram em um campo de precisão e escuta radical.
A partir de séries como Vrioon e Insen, a dupla articula frequências digitais, ruídos mínimos e intervalos de silêncio, criando composições que operam entre estrutura e instabilidade. O som não se impõe, ele emerge — como um desenho no tempo, onde cada gesto é, ao mesmo tempo, cálculo e respiração.
Talvez seja por isso que sua partida não se apresente como um corte, mas como uma continuidade em outra frequência. Um silêncio que não cessa, mas se transforma. Que vibra nos intervalos, que repercute nas escutas mais atentas, que insiste em permanecer. Como se, mesmo agora, ainda fosse possível ouvi-lo — não mais nas notas que toca, mas no espaço que elas continuam abrindo.
As performances e os álbuns realizados por Ryuichi Sakamoto e Alva Noto — como Vrioon, Insen, Revep e Summvs — também atravessam e são referenciais para a convocatória Quando o vazio vibra.