30/09/2021
Vale ler.
Por uma Clínica AntiFascista*
*Inspirado no texto de Michel Foucault Introdução à vida não-fascista: prefácio da edição
americana de O Anti-Édipo de Gilles Deleuze e Félix Guattari.
Para além da paixão pelos grandes autores e suas pomposas teorias, há que se pensar a
Clínica em seu aspecto ético-político em que suas ações estão diretamente conectadas
com os processos de subjetivação e com a sociedade, para além da categorização do
desejo em meros elementos sintomáticos, nosológicos (a partir de uma concepção
tradicional de cura).
Eis que é necessário pensar uma Clínica AntiFascista, não a partir de uma noção
macropolítica do Fascismo de Estado Hi**er ou Mussolini, mas a partir de um
microfascismo que circula no desejo, na imaginação, nos discursos e nas ações e que a
Clínica que, para além das práticas de cuidado e acolhimento, precisa interferir, intervir
em vez de correr que nem um cão cego atrás do próprio rabo em busca de uma coisapsi-
pura, por vezes através da afirmação de um posicionamento Mamãe-Quero-Ser-
Psiquiatria (a julgar pelos seus pedestais, jalecos, purismo e ilusão de neutralidade).
O recorte do Fascismo aqui não pode de forma alguma se dissociar ou se colocar como
preponderante diante de outras formas de opressão tão presentes nos dias atuais, a saber:
Racismo, Machismo, LGBTQIAfobia, Classismo, Gordofobia, Capacitismo,
Psicofobia, Xenofobia, Gerontofobia, entre outros…
Os tópicos abaixo foram torcidos, recortados, colados, modificados e podem ser
encontrados em sua versão original no texto citado no asterisco.
1) Liberem a Clínica de toda forma paranoia unitária e totalizante que busca encontrar
ou re-produzir modelos universais de colonização de subjetividades a partir de uma
tentativa de encontrar um objeto de estudo puro com o intuito de se firmar no hall das
ciências (decerto pelo seu odor de um positivismo clássico). O que a faz por vezes se
perder em uma lógica baseada no Uno (a partir de estruturas, teorias fechadas e
determinadas aprioristicamente), na prisão das nosologias gerais que desconsideram as
singularidades e dos atravessamentos étnico-raciais, sociais, de gênero e sexualidades,
políticos, econômicos, ecológicos, etc.
2) Produzir a multiplicação da ação, o desejo, o pensamento, a subjetivação por
movimentos de ploriferação, multiplicidades, disjunções para além das subdivisões
dicotômicas e maniqueístas (normal-anormal, sanidade-loucura, saúde doença, bem-mal)
que revelam a herança cartesiana da psicologia; e das divisões hierárquicas a partir de
uma escuta que recorta as narrativas, selecionando o que é passível de ser ouvido e o que
é terceirizado, logo, silenciado ou colocado em um hall de (des)importância na clínica,
onde o foco principal são elementos de um psicologismo barato.
3) Liberem a Clínica das velhas categorias do Negativo: a) A Moral: que se fantasia de
intervenções de psi em nome do cuidado (leia-se tutela), cura (leia-se adestramento,
docilização), b) A lei, o limite, a falta, a lacuna que submetem os corpos às relações de
poder a partir da negação, da culpa, do ressentimento em uma negação de si em nome do
outro, do ideal, da positividade tóxica como modelo tão bem quisto ao neoliberalismo
contemporâneo.
4) Preferir a multiplicidade e a diferença (como forças de afirmação da vida em
potência), o fluxo em contraposição das unidades estacionadas (como modo de afirmar
o movimento). Percebendo que o que produz novos possíveis para a vida não é o
sedentarismo das unidades, sistemas, estruturas rígidas, mas o nomadismo do movimento,
do outramento, do devir.
5) Não utilizem de quaisquer teorias para dar a Psicologia um valor de verdade
inquestionável, intocável em seu saber-poder. Utilizem a prática clínica como um
movimento de intensificação do desejo (enquanto construção de realidades), do
pensamento, como multiplicação da ação política de resistência às inúmeras formas de
negação da vida (sobretudo das vidas periféricas).
6) A subjetividade é fruto de relações de atravessamento de vetores de saber e poder,
sendo o sujeito que a Clínica por vezes tenta centrar em suas teorias como um coisa-emsi
a ter suas faces des-veladas, des-cobertas e traduzidas por teorias lentes encapsuladas
e dissociadas da sociedade em todas as suas possibilidades. Ou seja, não há como
compreender o sujeito sem mapear os vetores supra-subjetivos, vindos das relações com
o fora-do-sujeito a partir de linhas de natureza múltiplas.
7) É preciso desindividualizar a Clínica, sua escuta, sua análise e suas intervenções:
a) Na escuta: compreender que toda fala, toda narrativa não existe em si (ou numa pobre
relação entre conteúdo-continente), mas a partir de uma complexa conexão de relações
de saber-poder que se encarnam numa fala que representa uma complexa relação de
vetores dizíveis, visíveis, mas sim em um movimento de criação de si como
dessemelhança, para além da representação,
b) Na análise: compreender que há muito mais do que uma noção meramente calcada em
cérebro, inconsciente intrapsíquico ou funções psíquicas fechadas em si, é preciso
compreender as relações de afetar/ser afetado entre o sujeito e suas conexões sociais,
políticas, familiares, etc., buscando fazer uma análise dos lineamentos que atravessam os
corpos, as corpas.
c) Nas intervenções: não se centrar em uma perspectiva piegas de autoconhecimento ou
de cura como um reencontrar-se, corrigir, mas de uma relação co-engendrada entre
criação e destruição de modos de vida, de relações para além da pele, das quatro paredes
da clínica, do triângulo familiar.
6) Não imaginem que é preciso ser triste para ser analista, mesmo que se analise
elementos complexos e abomináveis. Não acredito numa clínica que não dance, que não
saiba gingar. É necessário apostar na alegria como afetivo micropolítico ativo de
construção de modos de ligar as forças desejantes-sociais de maneira revolucionária,
afinal os poderes funcionam para entristecer os corpos e lhes subtrair a potência de existir.
Se é para a clínica subtrair algo é, justamente, daquilo que funciona para a negação do
outro, as múltiplas formas de opressão.
7) Aos/Às analistas: Não se apaixonem pelo poder!
Esta frase em si já seria suficientemente potente, porém cabe pontuar que não se combate
o fascismo, o racismo, o machismo, a LGBTQIAfobia com ou pelo poder, pois o poder
captura o desejo e (re)produz elementos de opressão (mesmo entre minorias, onde o
oprimido deseja se tornar opressor, como nos disse Freire).
A aposta é em uma Clínica que saiba:
A) Resistir a todas as formas de opressão (em si, no outro, no mundo) posto que é muito
fácil apontar o fascismo dos outros, mas é necessário uma curetagem destes modos de
opressão que existem na postura, na linguagem, nas intervenções clínicas, mas que se
camuflam sob a égide da técnica, da estratégia clínica.
😎 Fazer as subjetividades resistirem a todas as formas de opressão para além destas
lógicas fast food que transformam docilização, adestramento em modus clichê como
inteligência emocional, autocontrole, habilidades sociais.
Em suma, para uma clínica Anti-Fascista: não se apaixonar pelo poder, aprender a resistir
e a fazer-resistir a todas as formas de opressão.