05/08/2018
Dica de Filme
Bingo - O rei das manhãs é o filme de estréia de Daniel Rezende na direção, conhecido pelas montagens de obras referenciais como Tropa de Elite e Cidade de Deus; já o roteiro é do experiente, Luiz Bolognesi. A cinebiografia que foi um dos destaques do cinema nacional em 2017, traz a história de Arlindo Barreto, um dos mais marcantes intérpretes do palhaço Bozo, na película, Arlindo é Augusto Mendes (Brichta), Bozo vira Bingo. Atraente desde a primeira cena, o filme leva para a tela algo muito além que a história de um homem por trás de uma máscara, leva o retrato de uma época.
E esse é o ponto de partida da narrativa que transporta o público para os anos 1980, a década dos excessos, a partir da programação televisiva, e à medida que as referências temporais vão se concretizando junto ao espectador, o roteiro já começa a explorar o drama que será retratado ao longo da projeção _ De que vale o sucesso sem o reconhecimento? _ Essa apresentação do conflito é feita de forma muito competente, sem didatismos, aproveitando a premissa da atmosfera da época.
É desde o princípio, também, que f**a claro o quão primoroso é o trabalho de Brichta ao encarnar o ator de pornochanchada que se torna palhaço, apresentador de programa infantil. A capacidade de ser vários ao mesmo tempo faz de Augusto um personagem riquíssimo, cheio de nuances, complexidades, o ator, o palhaço, o homem e suas intimidades, principalmente nas relações com a mãe e o filho, que também são os vetores das suas escolhas, atitudes, frustrações durante toda sua existência, frustrações essas que se tornam o fio condutor da narrativa da personagem.
O roteiro ácido, inteligente, a forte crítica à exploração artística, tudo está muito bem conectado a cada novo plano apresentado, que conta com um designer de produção potente que eleva a estética a alcunha de personagem para reverberar as minúcias do roteiro, provocando sensações e reflexões profundas.
Um exemplo claro das escolhas estéticas alinhadas às proposições do roteiro é o processo de decadência do personagem, o impacto da cena que as luzes se apagam, dando não só um tom sombrio a projeção, mas deixando inúmeros pontos de reflexão espalhados nas mentes do público, mostrando o poder do silêncio, como recurso primordial numa obra cinematográf**a. E é essa profundidade que torna o filme grande, nada de superficialidades, roteiro e direção querem ir além.
Sob tal perspectiva, alguns destaques reflexivos podem ser explorados; o que é a devoção à arte, ao palco? Ela existe nesses personagens? Ou se trata da necessidade de holofotes, devoção ao sucesso?
Essas são indagações que não levam a uma resposta fechada, nem poderiam, tudo é complexo, multifacetado demais para minimalismos, mas ponderar sobre essas questões é um exercício importante para entender o filme, seus personagens, mas também entender nossa vida, nossas escolhas, ações e reações. O filme dialoga permanentemente com as profundezas do homem, de todos os homens, mesmo que direcionando toda construção a um personagem específico.
É assim também, ao provocar debater internamente com o público, o sentido do artista e o tempo, o sucesso perdido, a indústria do entretenimento, o comércio regendo a arte, trocando, substituindo, passando para trás quem bem entender, prestando conta a um deus capital.
Nessa mesma concepção é compreendida a morte do artista, quando o filme traz a mãe de Augusto, atriz consagrada, mas esquecida em seus últimos dias de vida, ser resgatada em forma de memória, expondo suas glórias quando já não pode sentir tal reconhecimento. E qual é o impacto do reconhecimento para um artista, que poder tem?
Augusto sentirá esse peso do ser e não poder revelar-se, do não ser e se revelar, o conflito de identidade que lhe consome, a identidade não revelada versus a identidade perdida, e aí então, a capacidade de renascer, recomeçar e se redescobrir em essência, sublimemente explicitado na projeção com os aplausos ao final da última cena.
Com atuações excepcionais, principalmente de Brichta e Leal, além de Madeira e Torre, o filme conta com um trabalho de construção de personagens que aproveita cada cena para explicitar todas as marcas que representam a essência de uma época, mas também as questões humanas, as indagações íntimas, desejos, virtudes e defeitos.
Bingo é um filmaço e merece ser apreciado em seu todo.
AVarela