08/09/2025
Um pouco de muito
“O cinamomo floresce
Em frente do teu postigo
Cada flor murcha que desce
Morre de sonhar contigo”
Certamente, não é difícil esquecer esses versos que constituem o primeiro quarteto de um soneto famoso e bastante estudado do poeta mineiro, ouropretano e marianense, Alphonsus de Guimaraens, um dos nomes mais representativos da estética simbolista brasileira.
Não por acaso, o poeta J.S. escolheu como título desta obra Cinamomos, clara e perfeita identificação com o mestre do Simbolismo que o inspirou. Afe-
tado, certamente, pela paisagem mineral e montanhosa dos lugares onde viveu — Itabira — Mariana - e, sobretudo, afeiçoado à cultura, à arte e ao apelo religioso responsáveis pela historicidade desses sítios, Sebastião inscreveu esse cenário nas aldravias que criou.
Logo na primeira leitura, identifica-se de imediato um entrecruzar de estéticas literárias dialogando harmoniosamente entre si: nuances do Simbolis-
mo na apreensão de uma certa leveza (níveas/ tuas/mãos/de/eflúvias/sedas!) e emprego de um vocabulário etéreo como “claros lençóis”, “céu aberto”, “luz ful-
gurante”. Do Modernismo, reconhece-se a estrutura composicional mais livre,
versos curtos linguagem direta, características de uma certa vertente dessa estética. Entretanto, é o conteúdo e a forma do Barroco que pulsam nesta criação de J.S.Ferreira.
Praticamente, há de se ressaltar o tom sombrio, soturno dos versos expresso por meio de palavras do campo semântico religioso ligado à ideia do sofrimento e da morte, do eterno conflito corpo/alma; céu/terra; pecado/perdão;
vida/morte entre outros. Vocábulos como “mosteiros”, “capela” “templo”, “catedrais”, “procissões”, “orações”, “calvário”, “ciprestes”, “tumbas” contrastam com “orgias”, “banquetes”, “freira pecadora”, tudo isso alimenta o clima barroco manifesto em toda a obra.
Esta é mais uma mostra da incansável, persistente e admirável dedicação de J.S. à Literatura, haja vista a extensa lista de obras por ele criadas ao longo dos anos.
(Graça Lima)