07/03/2020
Macaé, 07 de março de 2020
O Núcleo de Estudos Afro-brasileiro e Indígena da cidade universitária de Macaé (Neabi Macaé) repudia os atos realizados pela Comissão de Trote do Curso de Engenharia da UFRJ/Macaé nas atividades de recepção de calouros. Na ocasião, uma estudante recém chegada à universidade teve o seu corpo pintado com tinta preta. Além disso, em seu rosto, se observa alguns detalhes em tinta de tonalidade mais clara, de modo que os lábios assumem contornos grossos e os olhos são destacados. A caricatura construída ridiculariza as características fenotípicas da população negra, sendo uma prática violenta amplamente conhecida como blackface e, portanto, inaceitável e criminosa. Tal prática reforça e revisita comportamentos repugnantes de movimentos supremacistas brancos que nos assombraram no passado e que, atualmente, tem encontrado espaço diante do clima de ascensão do fascismo em várias partes do mundo, a exemplo do Brasil.
Uma vez confrontados com as verdades desconfortáveis e diante das repercussões das denúncias dos internautas, nas redes sociais, a comissão de trote da Engenharia/2020 se posicionou, em sua página virtual, pedindo desculpas, porém se recusando a reconhecer o que está óbvio aos olhos: a ocorrência de prática ra***ta que deprecia e reforça estereótipos negros. Não existe justificativa aceitável! E a negação em nada contribui para a resolução do problema, pelo contrário, ajuda a “manter e a legitimar as estruturas violentas de exclusão racial” (KILOMBA, 2019, p.34). O caminho para mudança exige o reconhecimento dessas práticas violentas e a responsabilização exemplar de seus autores. Portanto, é imperiosa a criação de novas configurações de poder e sobretudo, em espaços públicos de produção de conhecimento tal como as universidades.
O Neabi Macaé e a Comissão de Direitos Humanos e Combate a Violência foram convidados pela Direção do Campus UFRJ Macaé para participar do processo institucional que apurará o caso. Reitera-se que mobilizaremos todo nosso capital intelectual e a força de nossa ancestralidade no combate a todas as formas de violações de direitos humanos e a nossa dignidade. Faremos a nossa parte na luta antirra***ta! No entanto, consideramos importante manifestar publicamente que, para nós, "não é suficiente fazermos apenas a oposição ao racismo, pois após a resistência haverá um espaço vazio" (KILOMBA, 2019). Sendo assim, consideramos que é preciso construir um novo caminho, isto é o que Bell Hooks (1990, p. 15) denominou “tornar-se, fazer-se de novo”. Seguiremos insistindo que a nossa Instituição, como um todo, deva se comprometer com a pauta antirra***ta e nos apoiar em ações que viabilizem práticas educativas, sobretudo os estudos das s relações étnico raciais.
Diante do ocorrido, temos recebido vários convites para compor rodas de conversa sobre o tema “racismo”. Apoiaremos a todos os esforços e atenderemos a todas as iniciativas que estiverem em nosso alcance, pois é o nosso compromisso. Porém, nos perguntamos “e quando a poeira baixar?” Aguardaremos o próximo episódio? Nossas decisões do presente devem ser, acima de tudo, duradouras e transformadoras. Por isso, CONCLAMAMOS O CORPO SOCIAL DA UFRJ MACAÉ para o estabelecimento de uma agenda que privilegie a educação antirra***ta, que implique na mudança dos planos institucionais, planos pedagógicos e projetos de ensino. Desejamos que os conteúdos programáticos contemplem outras epistemologias (negras, indígenas), e que, como resultado, possamos ver a transformação das práticas e das relações, produzindo a eliminação de preconceitos e violências de qualquer natureza.
Aproveitamos a oportunidade para mencionar que, desde 2018, no segundo semestre de cada ano letivo, o Neabi Macaé oferece uma disciplina eletiva e integrada (UFF Macaé e UFRJ Macaé) intitulada “Tópicos em Relações Étnico Raciais”. Os frutos desse curso são: a realização de um Colóquio da Consciência Negra e, neste ano, os trabalhos finais integrarão um dossiê temático que compreende o debate do racismo no contexto universitário. Todxs estão convidadxs a participarem/difundirem a disciplina, assim como fazerem do dossiê um material consultivo. Porém, mais do que um convite, aclamamos a chamada de Conceição Evaristo (2007, p.21) Precisamos deixar de “ninar os da Casa Grande, e sim incomodá-los em seus sonos injustos".
Núcleo de Estudos Afro-brasileiro e Indígena da Cidade Universitária de Macaé
Assinam juntamente conosco:
Liga Acadêmica de Saúde Coletiva de Macaé - Lascom
Comissão de Direitos Humanos e Combate à Violência (CDHCV UFRJ)
Diretório Central dos Estudantes da UFF Macaé
Direção da UFF Macaé
Grêmio Estudantil Nelson Mandela
Referências Bibliográficas
KILOMBA, Grada. Memórias da plantação- Episódios de racismo cotidiano. 1ª Ed. Cobogó, 2019.
HOOKS, B. Yearning. Race, Gender and Cultural Politcs. Boston: South End Press, 1990.
EVARISTO, C. Da grafia-desenho de minha mãe um dos lugares de nascimento de minha escrita. In: ALEXANDRE, Marcos Antônio. Representações Performáticas Brasileiras: teorias, práticas e suas interfaces. (org). Belo Horizonte, Mazza Edições, 2007, p 21.