02/09/2020
A criança cai, bate a cabeça, rala o joelho, prende o dedo, tem o brinquedo tomado pelo amiguinho, tem o lápis quebrado pelo irmão, chora, reclama, se irrita e o que a gente diz? “Não foi nada!”
Um “não foi nada” daqui, outro “não foi nada de lá” e assim vamos ensinando para a criança que as experiências que ela tem não significam nada, não têm valor. Ela sente sem saber o que está sentindo, sem ter a permissão de sentir, mas sente!
Mas, e o que ela sentiu ao ralar o joelho? Deve ter doído, ardido, deve ter se assustado, talvez ela tenha caído em frente outras pessoas e sentido vergonha, talvez não houvesse ninguém perto e ela se sentiu desamparada. Dá pra sentir uma série de emoções num simples tombo
Mas o que ensinamos? Não foi nada! “Assim vai ficar mais forte”, talvez a gente pense. Aí essa criança vai crescendo sem saber nomear os seus sentimentos, sem conhecer o que se passa com ela, já que ela só sente, mas não sabe explicar. As palavras não foram ferramentas apresentadas para ela
Já ouviu alguém dizer “nossa! Não sei explicar! Eu sinto um nó aqui na garganta, um negócio ruim, um aperto no peito... não sei explicar”? Possivelmente as pessoas que costumam dizer isso ouviram muito lá na infância “isso não é nada”
Por que não dizer: “é mesmo? Você prendeu o dedo na porta? Nossa, isso deve estar doendo muito. Vem aqui, deixa eu ver, deixa eu fazer um carinho, dar um beijo pra sarar...” é impressionante como as crianças param de chorar e se recuperam muito mais rápido quando sentem que são compreendidas e acolhidas
Qual é a nossa dificuldade de acolher, cuidar, validar e nomear? Talvez porque nós mesmos tenhamos ouvido por anos a fio que as nossas dores, sofrimentos ou experiências ruins não eram nada