29/09/2020
**QUANDO O HUMOR NÃO TEM GRAÇA!**
Nosso papel enquanto educadores é possibilitar que as crianças ampliem seus conhecimentos e possam fazer a leitura crítica de diferentes textos e, consequentemente, do mundo.
Entre os diferentes gêneros textuais, a charge atrai leitores por transmitir de forma rápida múltiplas informações. O gênero discursivo charge apresenta fatos e acontecimentos, muitas vezes políticos, trazendo de forma humorística críticas e observações sobre um determinado contexto, bem como expressa concepções de mundo e de sociedade conforme uma determinada perspectiva social. A charge mobiliza a interpretação e a argumentação subjetiva do aluno, por isso, é importante que este trabalho seja mediado por um/uma professor/a que provoque reflexões críticas.
A partir destes apontamentos, não podemos deixar de expressar nossa indignação perante o material de "reforço" para os 5os anos enviado pela UGE.
Antes de mais nada, por si só, já é um problema enviar material padronizado para reforço - se é necessário um “reforço” na aprendizagem, há que se identificar qual é a dificuldade, não é mesmo?
Quando preparamos qualquer material devemos referenciar de forma que quem lê possa ter acesso ao conteúdo original. No material enviado pela UGE, a referência "jornal 'O Liberal' de março de 2020", não permite encontrarmos o original para avaliar se houve ou não alterações, e também a confiabilidade da fonte utilizada.
Contudo, o maior problema deste material é o conteúdo, a suposta crítica. As três charges apresentadas fazem uma "crítica" tendenciosa ao isolamento social e não permitem reflexões, uma vez que o material é direcionado justamente para aquelas turmas que não possuem professores oficinistas - lembrando que professores da escala rotativa foram demitidos para "economizar gastos" e por isso, essas turmas estão desassistidas.
As duas primeiras charges direcionam os/as estudantes a pensar que o isolamento social está causando o desemprego e prejudicando a economia. Ambas ignoram que antes da pandemia a economia do país estava mal, o desemprego e o número de pessoas na pobreza já estavam aumentando, assim como a fome.
A terceira charge denota um grande desrespeito para com as pessoas idosas. Infelizmente, muitas crianças e adultos perderam pai, mãe, avô e avó para a covid-19. As crianças deveriam ser incentivadas a proteger seus avós do coronavírus, enquanto a charge dá a entender que crianças em casa são um peso que deve ser resolvido pelos idosos, cuja função, ainda segundo a mesma, seria apenas de cuidar dos netos.
Se fosse possível atuar presencialmente, o/a professor/a poderia realizar a mediação junto aos estudantes e, nesse caso, poderia trabalhar as diferentes opiniões sobre as ações dos governos, problematizando os limites do isolamento social e da suspensão das aulas, mas discutindo também a importância de se respeitar os protocolos sanitários como forma de evitar a propagação do vírus e as inúmeras vidas salvas pelas medidas sanitárias e sociais, entre elas a suspensão das aulas. No máximo, a atividade sugeriria um debate no retorno presencial, que não tem data para acontecer, ou seja: o mais provável é que não haja debate algum a partir desse material.
**Quando se ironiza/banaliza a morte, o texto perde qualquer graça que pretendia ter. É por isto que esta "crítica" não é crítica, mas somente uma opinião imposta aos estudantes.**
**É preciso fazer um contraponto a esse tipo de material! Que a UGE se retrate e proponha uma atividade que traga uma reflexão de fato!**
______________________________________________________
Textos dos balões:
Primeira charge:
- Essa pandemia vai prejudicar a economia. Muitas empresas vão demitir...
- Menos esse tal de home office. Tá todo mundo indo trabalhar lá.
Segunda charge:
- As autoridades pediram para todo mundo ficar em casa. Não é pra sair!
- Ara! Quero ver quem vai me impedir! FUI!
VUPT
(FATURA) - Volta já aqui, BOLETO!
Terceira charge:
AULAS SUSPENSAS A PARTIR DE 2ª
- Suspender as aulas tudo bem... Mas não poder deixar as crianças com o avós (sic), é o fim.