Equilibrosa

Equilibrosa

Compartilhar

Quando nasce uma criança, nasce também uma oportunidade, e isso vale pra mãe, pro pai, pra tia, pra avó...

18/05/2021

Já há algumas semanas o clube aqui perto de casa reabriu, cheio de regras e restrições, e como a área é aberta e praticamente vazia, colocamos isso na nossa rotina quase que diariamente, compromisso de segunda a sexta, mesmo que a vontade no momento não seja muita, mesmo que pareça que estamos bem aqui trancados. Eles topam a esticada nas pernas, nem sempre com entusiasmo, mas sempre numa boa, e depois de bater a bola pra cá e pra lá numa quadra vazia, frequentemente entram numa conexão só deles que não tem outro nome que não seja infância, aquela mais pura e mais simples.  

Mudam de nome, de voz, criam um cenário que eu não sei bem qual é, adotam gestos diferentes, conversam por uma hora inteira, às vezes deitam, se abraçam, correm para um canto, f**am sentados no outro, lutam ferozmente para conquistar alguma coisa e um mundo de coisas acontece ali sem que eu consiga acompanhar. E nem quero exatamente acompanhar, minha alegria neste caso é ver de longe, minha riqueza é saber daquilo tudo que acontece e que não passa por mim. Estão no mundo deles!  

Hoje, quando a noite caiu, eram deuses da mitologia, falavam sobre planetas e terras distantes, talvez fossem pai e filho, não sei bem. Fico imaginando o sem fim de conexões que os cérebros fazem, penso na batida acelerada dos corações cheios de euforia, na roupa suja e pernas suadas que vão voltar pra casa… Será que vão se lembrar disso quando forem adultos? Será que vão saber contar da alegria que era percorrer a quadra de mãos dadas com o irmão, sentindo aquele ar quase frio do fim de mais uma tarde, mesmo que o mundo estivesse duro, muito duro em 2021?  

28/04/2021

Como se eu não estivesse há mais de um ano lutando para me manter equilibrada exatamente ali - naquela linha entre o lugar da mãe que participa e apoia as tarefas escolares (todas realizadas em cima da mesa de jantar) e o da mãe que compreende e respeita a necessidade de a criança desenvolver autonomia e lidar sozinha com os desafios do dia a dia - ele plantou o maior berreiro na hora da atividade.  

Chorou com vontade, câmera ligada e enquadramento perfeito. Pro meu azar, a professora, muito eficiente, tinha os olhos exatamente no quadradinho onde aparecia o rosto em lágrimas, e ela perguntou, e ele não titubeou. Ao invés de se negar a falar, como já andou fazendo, ao invés de relevar, ou de fingir que a internet caiu, ele aceitou a oportunidade de abrir o microfone e disse uma frase só, tão completa que parecia uma flecha: "é a minha mãe, que pensa que a atividade é dela e não me deixa fazer do meu jeito". Que injustiça, meu Deus! Que injustiça!  

Pra minha sorte, a professora foi gentilíssima, disse alguma coisa como "a mamãe deve estar querendo te ajudar", maior sabedoria que ela poderia compartilhar, praticamente um abraço. Cavaria um buraco no chão, mas aí dei mais uns passos pro lado e fui remoer ali no canto.  

Claramente errei em algum ponto, nos desencontramos eu e o menino, mas eu estava tentando ajudar porque conheço meu eleitorado, porque antevi o estresse da régua que não traça assim tão reto, sei que a professora não tem o poder de transpor a tela, e não queria choro, e ainda temos horas pela frente... Estava tentando ajudar porque é só o que eu ando fazendo, pelo menos no turno da tarde (e cá entre nós porque sei o que acontece se eu não tento ajudar).  

Quando estava grávida, imaginava os conflitos do parquinho, os amigos, os passeios no domingo, a correria do almoço, sonhava em levar pra escola, buscar no fim do dia, ouvir tudo o que houve e todos os desafios que precisamos vencer. Eu não pensei em procurar saber o que fazer pra ser a boa mãe da aula online, não achei nos livros nem nos blogs o capítulo x, parágrafo y que explica isso pra gente, não tem nas especif**ações do Google Classroom.

24/04/2021

Sabe individualidade? Não, não sabemos mais o que é isso, e não venha nos explicar. Onde há individualidade possível em um apartamento de portas fechadas, e tudo ali dentro: mãe, pai, irmão, escola de um, escola de outro, trabalho de um, trabalho do outro, o encontro com os amigos, o bate-papo, as novas ideias, as velhas ideias, os meus conflitos, os seus conflitos e aquele curso extra que a gente decidiu fazer? Eis a realidade: andam agora grudados.  

Quando dão um tempo (um do outro) é coisa de 10 minutos, 15 no máximo, e tudo se mistura de novo, o que sou eu, quem é você... o que nós queremos mesmo? De vez em quando ensaiam um respiro, um “eu quero f**ar sozinho” que vem forte lá de dentro e atinge em cheio o coração do irmão, mas as emoções são muitas e em pouco tempo se misturam de novo. Às vezes são ambos muito crescidos, capazes de ler juntos coisas complexas, de prepararem sozinhos (ou quase) o café da manhã e dizerem coisas bonitas sobre família, o que já vivemos, o que ainda queremos viver. Outras vezes são dois meninos pequenos, uma bagunça sem fim, queixas sem fim, eu grito, tu gritas, ele grita.... crises existenciais típicas do maternal.  

Brigam um com o outro, e nos últimos meses eu diria que brigam diariamente, usam gritos, uns resmungos meia-boca, ironia, muita implicância, uns chutes, uns tapas, e quando você f**a bravíssima e tristíssima, quando você elabora um discurso de cinco minutos sobre amor de irmão e gasta outros 15 pensando no que ainda falta fazer pra ensinar, veja bem, lá estão eles aos beijos e abraços e juras de amor, e só quem está chateada é você…  

Ontem logo cedo me perguntou o pequetito: “Sabe qual a coisa mais preciosa do mundo?” - contexto zero, chupando uma laranja em uma manhã de ar fresco, céu muito azul. “O quê?”, eu perguntei, sem fazer qualquer aposta, tudo pode ser. “O meu irmão”. Pausa pra eu relevar todo o estresse, toda a correria, toda a chateação, toda a preocupação. Licença pra eu fingir que jamais brigaram, que não se arranham, que não separo brigas. Meu coração derretido. “Por que ele é tão precioso?” “É que quando a gente br**ca, toda parte de mim f**a feliz.”

14/04/2021

A primeira coisa que eu disse durante a sessão foi que "é dura a vida de uma mãe nesta pandemia", e a terapeuta me perguntou "por quê?". Não que ela não suponha a resposta, é claro, está aí uma obviedade já bastante consolidada a esta altura, mas ela me perguntou porque a resposta, dita em voz alta e com as palavras que eu escolher, interessa.  

Ela me perguntou porque a resposta pode ser remédio, pode aliviar o peso, e eu disse que é "porque não tem espaço". Nem físico, nem psicológico, nem novo, nem velho, nem grande, nem pequeno. Estamos todos amontoados, e eu falo muito mais do monte de demandas e desejos guardados dentro da gente do que propriamente de uma aglomeração espacial, embora ela exista.  

Então, veja bem, subtraindo os metros todos que eles precisam usar pra br**car e se desenvolver, tirando as horas todas que eu preciso apoiar, ajudar, ensinar e, depois, trabalhar com vassoura ou computador, não sobra quase nada. Sobra um banho talvez, sobra aquela cadeira que eu pus na varanda, sobra um pensamento muito insistente que às vezes vence a maré e me reconecta com as minhas próprias vontades por cinco ou dez minutos, mas isso é muito pouco. Mal tem espaço para eu digerir as terríveis notícias que me chegam do mundo que deixei atrás daquela porta, mal cabe planejar qualquer coisa ou levantar o olhar pra ver um pouco mais pra frente. A sobrevivência possível agora é se concentrar no presente, no dia de hoje, nas tarefas de hoje, e por pura insistência acreditar que vai passar.  

Eu vou escrevendo tudo isso ouvindo os gritos que vêm da sala, que é sala de TV, sala de jantar, sala de aula e meu escritório, todos os dias há muitos meses. Já estamos no meio de mais uma semana, a semana de número 56 ou 57, eu nem vou contar. Eu acabei de fazer mais um aniversário, o segundo sem abraço, e sexta é a vez do meu marido. O pequetito está aprendendo a escrever com letra cursiva, e o irmão de pernas compridas anda entusiasmado com as olimpíadas de matemática da escola. Cabe tudo ali na sala…

26/02/2021

Tenho feito direitinho o que combinei comigo: um dia de cada vez, foco da porta pra dentro, valorizando todas as alegrias que temos ao longo da manhã, depois de tarde, e de noite. Então acordamos todos saudáveis, tomamos café da manhã juntos, br**camos um pouquinho, e depois uns minutos de música, mais br**cadeira, histórias daqui e dali, os abraços e beijinhos e implicâncias de todas as manhãs. Eles vão fazer o dever, eu vou trabalhar um pouco, depois cuidar do almoço, não demora começam as aulas. A escola manda uma pesquisa, uma sondagem só, e faz a pergunta que eu não sei responder, "claro que sim, mas é óbvio que não!" Na hora do recreio comemos torrada juntos, planejamos pizza de noite, vamos viver as alegrias que podemos, respondendo ao medo com um respiro profundo - vou fingindo que só existimos nós, que meu mundo são duas crianças sorridentes e saudáveis.

Lá pelas tantas eu escorrego, uma olhadinha de leve, bem rapidinha na tela do computador, e me lembro que está tudo destroçado, nunca morreu tanta gente, nunca fomos tão desrespeitados, não há melhora nenhuma no nosso cenário, não vai mudar ali na semana que vem e nem daqui a uns meses. Estou tentando nem pensar em daqui a uns meses. Tem uma lista crescente de gente que não pode mais seguir a minha estratégia de sobrevivência, não pode se ater às alegrias porque o vírus ameaça todas elas e eu sei disso. Um monte de mães como eu, aliás, de crianças sorridentes e saudáveis como as minhas. De olho esticado pra minha tela, ele me pergunta o que foi, eu me divido entre a verdade e o disfarce, porque não posso mentir, mas não é peso razoável pra uma criança de seis anos. Ele volta pra tela dele, a professora está falando alguma coisa sobre o meio ambiente, e o que ele quer mesmo é rabiscar alienígenas no pedaço de papel. Sem saber se eu respondi direto à pergunta, corto um papelzinho e escrevo um verso de uma música que ele conhece. Ele sorri, escreve alguma coisa rápida no outro lado do papel e me devolve por debaixo da mesa, um bilhetinho escondido da professora. Eu continuo acreditando que vai passar, nem sei bem porque…

03/02/2021

Eu ia postar uma foto do dia, tinha algumas ideias na cabeça, mas hoje cedo, enquanto arrumávamos estojos e apontávamos lápis, ele fez esse autorretrato e me mostrou. “Sou eu, mãe, na minha volta às aulas.” Tem um menino, um fone, um computador, e um monte de gente dentro da tela. É isso aí, então. Um autorretrato que, estivéssemos nós dormindo ao longo de 2020, seria chocante, surpreendente ou absurdo, mas 2020 foi real, nos manteve mais acordados do que nunca (embora com um horizonte curtíssimo), e então não nos causa alarde mais. Fevereiro de 2021, primeiro dia do 4° ano de um, primeiro dia do 2° ano de outro, e é assim que é. Se estão sobrevivendo? Parece que sim… Se estão se desenvolvendo, aprendendo? Eles, particularmente, sim, porque tem gente suando deste e do outro lado da tela pra que isso aconteça, mas não é assim pra todo mundo. Os abismos vão se abrindo mais e mais, os riscos e as consequências - sejam físicas, emocionais, intelectuais -, vão f**ando cada vez mais gritantes, cada vez mais reais, mas nós não temos data, não temos previsão, porque lá fora é o caos. Eu, muito desanimada que estava, andei dizendo que não ia nem preocupar com material, com coisa nova, “escreve onde tem e pronto”, mas caí na real na semana passada e fomos customizar nosso entusiasmo, desenhar capas de caderno, colorir o ano que está começando. A gente queria muito mais que isso, mas eles estão de braços abertos, como sempre e apesar de tudo, e a mim só resta abraçar. Feliz ano novo, velha nova escola!

29/01/2021

As coisas já estavam complicadas o suficiente quando descobrimos o risco, e passamos então a ter que nos afastar também dentro de casa, uns dos outros, nós das crianças. Eu disse a verdade, porque não daria pra ser de outra forma, e então ficou combinado que a gente usaria máscaras, separaria os banheiros, toalhas, talheres - mantenha distância, faça sua refeição num cantinho. Mais do que isso não é possível. "Até quando, mãe?" Até a gente ter o resultado do teste, e aí a gente vai ver o que fazer. As primeiras horas correram bem, e eu já tinha na cabeça que diminuiria as exigências, pode fazer o que te deixa mais confortável, vamos em frente porque a gente precisa passar por esses dias. Antes que 24 horas inteiras tivessem se completado, ele passou por mim feito um raio, seguiu pelo corredor, entrou no quarto, sentou e chorou. Disse que não aguenta mais, que está "muito difícil ser feliz", e que não quer mais ver filme ou qualquer coisa de antes do vírus porque isso faz lembrar de como era, e aí dói mais ainda. "E eu nem posso te abraçar", e foi nessa hora que chorei junto. É inenarrável o que estamos suportando, o que estamos levando, o que estamos normalizando todos os dias. E eu, que venho me esticando e me contorcendo pra deixar as coisas um pouco mais leves há uns dez meses, não sei mais o que eu posso fazer... Talvez eu possa fazer massagem nos pés! Sentei na frente dele, pedi pra continuar falando porque ele estava triste, e fui apertando aleatoriamente o pé, porque não tenho técnica nenhuma. Queria abraçar todos os pedaços, queria poder jurar que não falta muito, queria poder garantir que vamos sair dessa firmes e fortes, mas nem disso eu posso ter tanta certeza. Disse então que pode reclamar o quanto quiser, e que eu também vou reclamar um pouco mais, pra ver se a gente não deixa agarrar lá dentro essa dor toda. Mas também precisamos renovar outros combinados: nos ouvir, respirar bem fundo, nutrir a alma com boas histórias, beija o seu irmão, e vamos continuar tentando um pouco mais, todos os dias, um a um. ❤ Agora, dias depois, nos abraçamos firme, porque deu negativo, porque estamos resistindo, um dia por vez.

23/10/2020

Tínhamos uma agenda cheia hoje, com reposição de aula da semana passada, encontro online pra rever amigos queridos, tarefas de ontem que f**aram pra hoje, provas na escola, uma divertidíssima sessão de fotos pro dever de casa, e mais aquelas coisas todas de todos os dias. Mas hoje é sexta-feira, e tínhamos a semana inteira nas costas - a semana toda sem botar a cara na rua. Dois meninos, dois quartos, uma varanda. A gente combinou direitinho o que íamos precisar: vamos levantar cedo, fazer o que tem que fazer, “inteligentes, objetivos, de bom-humor”, e fomos cumprindo o combinado ora muito bem, ora muito mal, e às 5h da tarde ninguém aguentava mais. O pequeno não cabia em si de tanta euforia na aula de inglês, mal se fazia entender, justo ele, tão conversador e tão bilíngue... não terminava uma só frase na cabeça, mil assuntos todos juntos, um emaranhado, não ouvia, não abraçava assunto nenhum. O irmão ia muito firme, até que na hora do intervalo rolava pela cama sem muita explicação, puxava o pequeno daqui, amassava dali, é br**cadeira?, é briga? Não param, ninguém me escuta. E então vamos deixar tudo pra trás. Sem repor aula, sem estudar pra prova, meia e tênis, agora, por favor. Tínhamos uma hora de dia claro, talvez, “anda, vamos pra rua, acho que ali naquele cantinho não tem ninguém, põe a máscara, vamos ver”. Não tinha. Tinha uma chuvinha caindo, na medida, e eles correram pra lá e pra cá até perder o fôlego, subiram numas pedras, saltaram uns obstáculos, saíram gritando por aí...

18/10/2020

Ele dormiu mal essa noite, disse que era por conta dos pernilongos, mas eu, que não nasci ontem, sei muito bem: foi por causa dos 9 anos! Foi porque ele vinha esperando essa data há semanas, há meses, apesar de já estar avisado há muito tempo que não ia ter festa, que não dava pra gente receber os amigos, que seríamos nós, nada demais, nada de muito especial. Dormiu mal, sem conseguir embarcar profundamente nos sonhos, porque acordado ele faz um monte de planos de alegria e entusiasmo, porque acordado ele curte muitos e grandes detalhes das aventuras que já viveu, faz projeções, faz perguntas e planeja viver tanta coisa mais, porque de olhos abertos ele acredita que hoje é um grande dia, que nada mais será como antes porque agora ele tem 9 anos. O mesmo menino de sempre, e tão surpreendente esse menino. Por isso ele acordou antes de mim, inventou uma desculpa qualquer pra vir até o meu quarto e ficou quietinho, na dele, pensando nos novos caminhos que estão se abrindo, enquanto eu preparava o café que devia ser surpresa, que a gente, sem combinar, combinou de fingir que é surpresa. Depois dos ovos mexidos, da vela imprvisada numa fatia de bolo e do presente que ele escolheu há dois meses, no quarto ainda escuro, olhando pra mim e pro pai dele, ouvindo o ronco baixinho do irmão que não estava com pressa de participar da festa, me disse que estava com o coração disparado de felicidade. “Por quê?”, eis a pergunta natural. “Porque tudo agora tem cheiro de aniversário, e então eu tenho 9 anos!”

14/10/2020

Era a terceira tentativa do dia, eu de frente pra tela do computador, "preciso terminar isso agora, meu filho, espera", e ao invés de esperar, ele resmunga, gira em torno de mim, pergunta o que não precisa saber, pede o que pode fazer sozinho. Pedi um tempo sozinha, "vai, por favor", e escutei ele criando caso lá do outro lado do sítio, tumultuando aos gritos e ameaças a vida do irmão, que também não colabora sempre, mas que desta vez estava numa boa. Lembrei da ducha, do calor, da sunga guardada no fundo da mala. Lembrei que ele ia dizer não, mas escolhi fazer mesmo assim, e puxei pelos bracinhos pra dentro do quarto, disse que era pra confiar em mim. Ele riu quando percebeu o que era, depois lembrou que queria briga, gritou e disse que não ia "de jeito nenhum". Jogou a sunga pela janela, fez uma careta muito mal feita, e ficou negando repetidas vezes, falando sozinho enquanto eu trocava de roupa, porque não reagi em momento algum. Peguei no colo, um chumbo negando seu destino, e quando chegamos lá fora eu ia direto pra ducha, roupa pra quê?, "espera, deixa eu colocar minha sunga". Vestido e pronto, gritou de entusiasmo no primeiro jato frio, apertou minhas pernas, pulou de alegria e depois que saímos me abraçou geladinho e disse exatamente: "obrigado, mamãe!" Foi boa a ducha, meu filho? "Foi média", ele disse, explicando que estava gelada, "esta é a parte ruim." E qual a parte boa? "A parte boa é que eu fiquei juntinho com você!" Então f**a dito, com todas as letras, pro caso de a gente ainda não ter entendido…

08/10/2020

Quanta coisa se aprende em um ano? E quanto f**a guardado, dentro da gente, prontinho pra florescer quando tem que ser, na hora que a gente menos espera? Meu menino, aos 6 anos, continua sendo sorridente, e forte, e resmungão, e desafiador, como era quase que desde sempre, mas agora tem pernas muito longas, pesa como 5 ou quase 6 sacos de arroz e não me visita mais de madrugada, a menos que tenha um "sonho muito tipo pesadelo". Ainda quer que eu fique com ele até pegar no sono, mas vai entendendo que nem sempre tem o que quer, então aceita o boa-noite de bom grado, e ao menos tenta dormir sozinho, se sentindo capaz e encorajado quando eu lembro que ele, afinal de contas, já tem 6 anos. Não é mais um pequetito. Há um ano, comemoramos longe daqui o seu quinto aniversário, e ele era só alegria, apesar de tudo ter saído diferente do que ele imaginava. Hoje, de novo, por outros motivos, não tem jeito de ter o festão que ele tanto queria, não foi levando um bolo pra escola, nem vai ter algumas dezenas de pessoas olhando enquanto ele sopra as velinhas, mas ele é só sorrisos desde que saiu da cama cedo (muito cedo, aliás). Ganhou "o melhor video game do mundo", bebeu ainda na cama "o melhor iogurte de todos os tempos", e "almoçou o melhor hambúrguer que existe". Sim, um hambúrguer ao meio dia de uma quinta-feira, meu crime perfeito. Esta semana decidi escrever e colar na parede dele, pra não ter dúvida nenhuma, algumas de suas grandes qualidades (já que infelizmente os defeitos meio que me escapam pela boca, sem querer e sem planejar, bem mais do que eu gostaria) e ele agradeceu um por um, primeira coisa a fazer de manhã: ler, sorrir, e agradecer. Só reclamou porque eu escrevi cartazes em português, uma vacilo aos olhos dele, mas topou me ajudar a traduzir tudinho, e eis mais uma boa oportunidade de conexão. Amanhã é dia de eu colar o último cartaz oficial dos 6 anos, e eu já não consigo escolher as palavras (e olha que nem comecei a pensar na tradução)…

30/09/2020

1h30 da tarde, veio ele me perguntar: preciso mesmo ir? Ir, neste caso, é ir pra cadeira da mesa da sala, abrir o computador e assistir aula. Ir pra escola, modelo 2020. Tenho dito que precisa, porque não estamos de férias, porque ter o que fazer tem feito bem (pra eles e pra mim), porque não tem outra escola e etc, mas ele estava ali em pé na minha frente, com aquela carinha de 5 anos, aquele resmungo de 5 anos, aqueles direitos todos de 5 anos... Eu antecipei a cena, vi tudo: ele resiste, reclama, eu insisto, ele vai sem querer… Vai acabar gostando, mas é tanta energia que a gente precisa, é tanto esforço nosso... E eu com sono, cansada no meio do dia como se fosse alta noite, disse “não, não precisa”. Heim? “Hoje não precisa, vem aqui, vamos sentar no sofá e f**ar abraçadinhos”. Veio, ainda sem saber se era pegadinha, e me trouxe um abraço forte, aquela pelezinha macia que eu tanto amo. Ando sem tempo de sentir a pele dele, embora esteja aqui grudada 24 horas por dia. E eu ia gostosamente embarcando na possibilidade do chamego vespertino, beijinhos e carinhos sem ter fim, quando ele levantou de súbito e disse: “ah, agora eu vou, mãe. Tenho aula de educação física.” E nunca foi tão fácil convencer alguém…

Quer que seu escola/colégio seja a primeira Escola/colégio em Juiz de Fora?

Clique aqui para requerer seu anúncio patrocinado.

Localização

Categoria

Entre em contato com a escola/colégio

Endereço


Juiz De Fora, MG