15/08/2018
PARA NÃO SER UM CRIMINALISTA.
O momento de escolher a profissão talvez seja o maior divisor de águas na vida de alguém. Quando levamos em consideração que a maior parte das nossas vidas será exercendo esse papel, f**a mais fácil ainda compreender essa grandeza.
É bem verdade que existe um abismo diferindo “profissão” de “vocação”, que há uma lacuna entre o “ser” e “exercer”, além de outras questões que permeiam essa discussão. É exatamente por ser um campo vasto, que, no mínimo, mereceria um outro texto para discorre-lo adequadamente. Por isso, deixemos para uma próxima conversa.
Como dizia, a profissão escolhida é fator determinante na vida de alguém, pois, definirá, por exemplo, os locais a serem frequentados, os horários ocupados, as companhias diárias, e, passará a modelar e influenciar os gostos e ideias de cada um.
Conduzindo a conversa para a advocacia criminal, costumo dizer que aqui, o mais importante é refletir sobre os diversos motivos para não escolher essa carreira. Mais especif**amente, se os motivos elencados como negativos pelo senso comum, sob a sua ótica, realmente possuem esse aspecto.
A título informativo, podemos citar a essência contra majoritária do penalista. Nadar contra a correnteza e o seu desgaste constante. A ausência de estabilidade financeira. A confusão popular entre advogado e acusado. A carga psíquica. E até mesmo as perguntas constrangedoras nos momentos de família.
É verdade, certas coisas são indissociáveis do ofício.
A atração inexplicável pelos motivos encarados como negativos pela grande massa, muito provavelmente, já demonstra indícios de pertencimento à classe, uma espécie de contraponto face à normalidade social.
Os decanos costumavam dizer que não se escolhe a advocacia, a advocacia escolhe você. Quando paro e refaço mentalmente meu trajeto até então, reafirmo a veracidade dessa máxima.
O sangue que corre nas veias do criminalista é diferente. Seu coração pulsa numa sensibilidade sem igual, absorvendo as agruras alheias. A sua mente aprende a ver o futuro, aliás, diversos futuros, um para cada decisão. A sua postura tem uma essência divergente, quase que forjada para incomodar.
Com o passar do tempo, a crença, a luta e o sentimento transformam uma profissão num estilo de vida. A advocacia criminal é uma maneira de ver o mundo e percorrê-lo.
É uma metamorfose gradativa, que transmuta o “fazer” no “ser”, quase que um poema. E por falar em poema, já finalizando, e em correlação ao tema, lhes deixo essa pequena reflexão.
“Autopsicografia
O poeta é um fingidor
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que leem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só as que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração. ”
(Fernando Pessoa)
Raphael Corlett da P. Garziera
Advogado Criminalista, Pós Graduando em Ciências Criminais e Associado ao Instituto Brasileiro de Ciências Criminais - IBCCRIM.
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