31/01/2023
🙏 conhecimentos da Mestra Ana Primavesi
O húmus e a humificação
A formação de húmus depende inteiramente da atividade da microflora e fauna. Todos os fatores que diminuem a atividade excessiva dos microrganismos favorecem a formação de húmus, mas aqueles que o inibem, impedem também a humificação.
No clima tropical, assistimos a uma mineralização violenta e completa da matéria orgânica, nunca se acumulando húmus, apesar de termos, aqui, principalmente, terras ácidas, onde ocorre mais facilmente essa acumulação de matéria orgânica, do que em terras alcalinas. Somente acima de mil metros de altitude, onde a temperatura é mais baixa, podemos encontrar húmus.
As bactérias decompõem principalmente amidos, proteínas etc. e não atacam a lignina, celulose e hemicelulose. Assim, a prática da calagem, o arejamento do solo pela aração, com temperaturas igualmente altas e com suficiente umidade, contribuem para a aproximação da relação C : N, permitindo a formação de um húmus mais valioso. O mais interessante do húmus é, sem dúvida, o fato de que parasitas e doenças vegetais desaparecerem nas terras onde existir de 3 a 5% de húmus. Em outras palavras: onde há intensa atividade microbiana, as culturas são sadias, isso quer dizer, que não há safras altas nem culturas sadias, sem uma microvida equilibrada.
Muito se discutiu sobre o valor do húmus. Especialmente nos climas tropicais, onde uma rápida mineralização da matéria orgânica inibe sua formação em terras de cultura, o seu valor foi posto em dúvida. Ramann definiu o húmus como sendo um complexo coloidal de composição heterogênea, composto de coloides invariados e de matérias ricas em carbono. Porém, esta definição não satisfaz, porque não diz respeito à ação biológica do húmus que, sem dúvida nenhuma, é muitíssimo mais importante que sua composição química ou física em si.
Muitos tentaram definir o húmus, mas nunca chegaram a um acordo. Somente não chegaram a um acordo porque consideravam o húmus como um fator isolado, desligado do ciclo biológico ao qual pertence.Considerando a origem e o fim do húmus, a sua definição não é difícil.
Húmus é, pois, matéria orgânica sintetizada, enriquecida de N e O2 de difícil decomposição, que constitui a reserva energética da microvida, tamponando, também, eficazmente o solo.
Os benefícios do húmus são:
1. constituir uma reserva de energia para os microrganismos,
2. ser uma fonte de gás carbônico para os vegetais,
3. aumentar, através do ácido húmico, o poder-tampão do solo,
4. contribuir para a fofice do solo,
5. ser o fator mais notável do complexo coloidal.
Para alcançar os efeitos benéficos sobre a estrutura do solo, não é necessário ter húmus, isto é, matéria orgânica conservada. É suficiente existir matéria orgânica. Porém, o húmus possui qualidades que não podem ser substituídas por nenhum outro produto, salvo o estrume bem curtido, que também é húmus.
Distinguimos três componentes no húmus:
1. humina, a fração insolúvel em meio alcalino,
2. ácido húmico, a fração solúvel em meios alcalinos, mas não em ácidos,
3. ácido fúlvico, a fração solúvel em meios alcalinos e ácidos.
Sabemos que os limites entre estas três frações húmicas desaparecem e não há distinção nem definição exata, do ponto de vista químico.O complexo orgânico chamado húmus não é uma substância simples, mas um composto complexo de minerais, oxigênio, hidrogênio, carbono e nitrogênio. A parte carbônica existe em várias formas de açúcares: galactose, glicose, manose, xilose, arabinose, ribose etc. Apesar de se formar também celulose, não contém mais nenhuma parte dessa substância e os poucos polissacarídios que se encontram no húmus, podem provir tanto da celulose quanto de microrganismos mortos.
A composição do húmus é mais ou menos a seguinte:
Carbono 58,3%
Nitrogênio 5,9%
Oxigênio 31,2%
Hidrogênio 4,5%
O restante são minerais, como fósforo, enxofre, cobre, magnésio etc.
As matérias húmicas são matérias amorfas de consistência coloidal e de composição heterogênea e bem mais complexa do que a matéria orgânica.A lignina é a matéria-prima mais importante na produção de húmus. Ela é decomposta por basidiomicetos que formam, de derivados de fenol, uma zona de oxidação escura em volta do seu micélio. O Azotobacter chroococcum tinge o substrato de preto, na decomposição de ácidos benzoicos, que ele usa como fonte de carbono. Nestas decomposições, os fungos destroem somente a substância básica de celulose, sobrando a lignina como matéria amorfa, marrom e floculada, de consistência húmica. Mas também na decomposição de taninos são produzidos corantes marrons, como igualmente de complexos aromáticos, provenientes da decomposição de proteínas. A matéria húmica da terra é caracterizada pelo seu alto teor em nitrogênio de difícil decomposição.
Húmus é uma perpétua fonte de energia no solo, que satisfaz 90% do consumo dos microrganismos em carbono. Mas sua importância na agricultura é especialmente a sua qualidade de flocular o solo peptizado (partículas sólidas dispersas), formando a tão desejada estrutura fofa da terra, de funcionar como dissolvente, em especial para os quelatos de fósforo insolúveis no solo e de aumentar decisivamente o poder-tampão.
Em clima temperado temos a formação de húmus na terra; porém, no clima tropical, este se forma somente em terras que estão sombreadas o ano inteiro, ou seja, somente nas matas virgens, ou em altitude, com temperaturas baixas. Isso significa que a maioria dos agricultores sob clima tropical tem de encarar o problema do húmus no solo, não como “conserva de CO2” e parte integrante do complexo de adsorção, mas como alimento dos microrganismos do solo, porque o fim último do húmus é, sem dúvida nenhuma, ser alimento dos microsseres de nossos solos.
A produção de flocos (processo químico, seguido pela formação de grumos ou agregados, em processo biológico) de terra é provocada não somente pelo húmus, mas também pelo carbonato de cálcio e pelos fungos, bactérias e actinomicetos. Os fungos pegam, com o seu micélio, pequenas partículas minerais, unindo-as mediante as suas excreções gomosas em agregados maiores (em realidade bactérias celulolíticas “colam” partículas sólidas de terra, floculadas quimicamente, suas excreções gomosas de carboidratos, e a seguir os fungos enlaçam esses agregados para sugar a goma bacteriana, estabilizando os agregados à ação desagregadora da água).
Porém, uma terra verdadeiramente bem tamponada é somente aquela que possui boa porcentagem de húmus.Sabemos que os microrganismos tomam parte tanto na formação quanto na decomposição do húmus. Porém, a decomposição não é somente biológica, mas também de natureza química, como todos os processos de oxidação e de redução. Mas, sem a menor dúvida, a parte biológica é a mais importante. Especialmente os cocos, fungos e bacilos servem-se do húmus como fonte de nitrogênio e gás carbônico. As algas, que têm outras condições de vida, podendo captar a energia da luz solar pela clorofila, sintetizando glicose, não tomam parte na decomposição húmica, que é realizada, porém, por grande quantidade de microanimais, como flagelados, rizópodes, ciliados, rotatórios, moluscos e nematoides. Os mais importantes animais nestes processos são as minhocas, que logo iniciam a mistura da matéria orgânica com o solo, aumentando e até possibilitando a atividade da microflora.
Geralmente, a microfauna não promove somente a mistura da matéria orgânica com o solo, mas também cuida da distribuição da microflora, que carrega em suas tripas, a outros lugares.
Em terras ácidas, que não permitem um normal desenvolvimento da micro e mesofauna, o húmus acumula-se, em razão disso, na superfície do solo de pastos e florestas, sem ser misturado com a fase mineral. Isso provoca a gradativa gleização dos solos, que finalmente, termina na formação de pântanos. Grande parte dos solos do Rio Grande do Sul encontra-se em avançado estado de paludização, justamente por falta de microfauna nos seus solos decadentes, de pastos permanentes que, sem métodos especiais, não podem ser recuperados.
In: A Biocenose do Solo e Deficiências Minerais em Culturas. Ed. Expressão Popular.
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