02/06/2025
"Coloca a correntinha em mim também, pai…"
Essa frase simples me atravessou como um raio.
Pequenina, mas cheia de tudo o que uma criança pode desejar:
Atenção, delicadeza, direção. Presença.
Aquela manhã tinha começado como tantas outras:
— “Vamos, acorda! Rápido, já tá tarde!”
— “Já lavou esse rosto? Vai pentear esse cabelo agora!”
— “Coloca a camisa, menino! Não desse jeito! Assim, ó!”
— “Leva o suco! E presta atenção — não derruba, hein!”
— “Mas já sujou de novo? Por que você sempre faz isso? Eu não aguento mais!”
O menino ficou em silêncio.
De novo.
Não conseguia dizer “pai”.
Não sabia se podia.
Porque toda vez que tentava… levava uma bronca, ou um olhar impaciente.
Ou simplesmente era ignorado.
Na escola, ele f**ava ausente.
O corpo presente, o coração… longe.
Enquanto os outros riam, ele apenas observava.
Se perguntava, no silêncio mais triste de uma criança:
“Por que os outros são felizes… e eu não?”
Mais tarde, com o pouco de coragem que lhe restava, ele falou:
— “Hoje a professora perguntou o que o meu pai faz. Eu… eu não soube o que dizer.”
— “Eu treino cães,” respondeu o pai, seco, olhando o celular.
— “E o que você ensina pra eles?” arriscou o menino, baixinho.
— “A obedecer. A não destruir. A proteger. A guiar quem não pode ver. A salvar. A esperar. A amar… sem pedir nada em troca.”
O menino engoliu em seco.
— “E como você faz isso?”
— “Coloco uma corrente leve. Caminho junto. Falo com calma. Corrijo sem machucar. Dou carinho depois, pra que saibam que não estou bravo. Mas… é um processo. Leva tempo. Paciência.”
Silêncio.
Então, com os olhos marejados, ele sussurrou:
— “Pai… coloca a correntinha em mim também.”
O pai parou. Pela primeira vez, olhou.
— “Me ensina também…
A ser paciente.
A cuidar.
A proteger.
Me corrige, mas… sem gritar.
E depois… me abraça.
Mesmo que eu erre.”
— “Eu prometo aprender. Prometo.
E se um dia você não puder ver,
Se um dia o mundo pesar demais pra você…
Eu quero ser seus olhos.
Só… não me solta.”
Naquele instante, o pai entendeu:
Seu filho não precisava de broncas.
Nem de pressa.
Nem de perfeição.
Precisava de amor com calma.
De presença com doçura.
De alguém que o guiasse com firmeza e ternura —
como ele ensina