13/01/2026
24 de Junho de 1717 e a Taberna “Goose and Gridiron”
Notas Históricas, Contexto Documental e Referências Bibliográficas
1. O 24 de Junho de 1717 como marco simbólico
O dia 24 de junho de 1717, festividade de São João Batista, é tradicionalmente considerado o marco inaugural da Maçonaria Especulativa moderna. Segundo a narrativa consagrada, quatro lojas maçônicas londrinas — até então independentes — teriam se reunido na taberna “Goose and Gridiron”, deliberado pela criação de uma autoridade central e constituído a Grande Loja de Londres e Westminster, elegendo Anthony Sayer como seu primeiro Grão-Mestre.
Embora esta data seja universalmente celebrada e ritualisticamente reconhecida, é fundamental sublinhar que o seu valor é mais simbólico do que documental. Não subsiste qualquer registro contemporâneo que descreva o evento. As atas das reuniões da Grande Loja apenas começaram a ser redigidas a partir de 1723, o que cria um hiato documental significativo entre o alegado acontecimento e os primeiros registos formais.
Nota Histórica 1
A escolha do dia de São João Batista não é casual. Desde a Idade Média, as corporações de construtores já celebravam São João como padroeiro, tradição herdada e ressignificada pela Maçonaria Especulativa.
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2. As Constituições de Anderson e o problema das fontes
O primeiro texto normativo da Maçonaria moderna, as Constituições de Anderson, publicadas em 1723, não fazem qualquer menção explícita à reunião de 1717. Somente na edição revista de 1738, elaborada por James Anderson, surge a narrativa detalhada da reunião na taberna Goose and Gridiron.
Este fato tem sido amplamente debatido por historiadores maçônicos. Alguns autores defendem que Anderson baseou-se em tradições orais preservadas no seio da Grande Loja; outros sugerem que a narrativa de 1738 serviu sobretudo para legitimar retrospectivamente a autoridade da Grande Loja de Londres, num momento em que esta enfrentava dissidências internas e a concorrência de outras jurisdições maçônicas.
Nota Histórica 2
A ausência da referência em 1723 não invalida necessariamente o evento, mas indica que sua formalização como mito fundador ocorreu gradualmente, à medida que a Maçonaria sentiu necessidade de construir uma narrativa institucional coerente.
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3. St. Paul’s Churchyard e o edifício do “The Mitre”
A taberna Goose and Gridiron situava-se em St. Paul’s Churchyard, uma das áreas mais movimentadas e intelectualmente ativas de Londres nos séculos XVII e XVIII. O edifício de cinco pisos que ali existia fora anteriormente sede da associação musical “The Mitre”, ligada à Worshipful Company of Musicians.
A Londres pré-industrial caracterizava-se por elevados índices de analfabetismo. Por essa razão, casas comerciais, estalagens e tabernas identificavam-se por símbolos pictóricos, e não por nomes escritos. O sinal do The Mitre exibia o brasão da Companhia dos Músicos, cuja iconografia incluía uma lira e um cisne de asas abertas.
Nota Histórica 3
O uso do cisne como símbolo musical remonta à Antiguidade clássica, estando associado a Apolo e à harmonia das esferas, o que reforça a pertinência simbólica do emblema adotado pela Companhia dos Músicos.
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4. Do “Swan and Harp” ao “Goose and Gridiron”
No início do século XVIII, a Worshipful Company of Musicians entrou em declínio, e o edifício passou a abrigar uma taberna. O nome “Goose and Gridiron” permanece objeto de especulação historiográfica.
O escritor e antiquário Walter Thornbury, em Old and New London (1878), sugere que o nome possa ter sido uma paródia popular de “Swan and Harp”, designação recorrente para casas de música. Alternativamente, propõe que se trate de uma interpretação simplificada — quase caricatural — do brasão da Companhia dos Músicos por parte da população menos instruída.
A hipótese humorística de um taberneiro adotando deliberadamente um nome prosaico e irônico não pode ser descartada, sobretudo considerando o espírito satírico característico da cultura urbana londrina da época.
Nota Histórica 4
A palavra gridiron (grelha) possuía, além do sentido literal, conotações simbólicas associadas ao martírio de São Lourenço, frequentemente representado com uma grelha, o que pode ter influenciado o imaginário popular.
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5. Tabernas como espaços proto-institucionais
As tabernas londrinas desempenharam papel fundamental na vida social, política e intelectual do século XVIII. Clubes literários, sociedades científicas e associações filosóficas reuniam-se regularmente nesses espaços, entre elas a Royal Society em seus primórdios.
Nesse contexto, não causa estranheza que lojas maçônicas se reunissem em tabernas. Elas ofereciam privacidade, neutralidade social e acessibilidade, sendo ambientes propícios à convivência fraterna e ao debate de ideias.
Nota Histórica 5
A utilização de tabernas como locais de reunião reflete o caráter não aristocrático da Maçonaria nascente, que buscava integrar homens de diferentes origens sociais sob o ideal de igualdade.
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6. Demolição do edifício e preservação do sinal
O edifício original do Goose and Gridiron foi demolido no final do século XIX, durante as grandes reformas urbanas de Londres motivadas pelo crescimento populacional e pela modernização da cidade.
Entretanto, o sinal da taberna, confeccionado em ferro e madeira pintada, datado do início do século XIX, foi preservado e encontra-se atualmente no Museum of London, constituindo um dos raros vestígios materiais associados ao mito fundador da Maçonaria moderna.
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7. Considerações finais: história, memória e mito fundador
A reunião de 1717, tal como descrita por Anderson, situa-se numa zona liminar entre história factual e construção simbólica. A inexistência de provas contemporâneas não diminui o seu impacto; ao contrário, reforça a sua função enquanto mito fundador, estruturante da identidade maçônica.
A Maçonaria, enquanto tradição iniciática, sempre compreendeu que certos marcos ultrapassam o plano estritamente histórico, assumindo um valor pedagógico, simbólico e unificador. O Goose and Gridiron permanece, assim, menos como um lugar físico e mais como um espaço arquetípico de nascimento institucional, onde a fraternidade se organizou para atravessar os séculos.
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Referências Bibliográficas
• ANDERSON, James. The Constitutions of the Free-Masons. Londres: William Hunter, 1723.
• ANDERSON, James. The New Book of Constitutions of the Antient and Honourable Fraternity of Free and Accepted Masons. Londres, 1738.
• STEVENSON, David. The Origins of Freemasonry: Scotland’s Century, 1590–1710. Cambridge: Cambridge University Press, 1988.
• JACOB, Margaret C. Living the Enlightenment: Freemasonry and Politics in Eighteenth-Century Europe. Oxford: Oxford University Press, 1991.
• THORNBURY, Walter. Old and New London, Vol. I. Londres, 1878.
• HAMILL, John; GILBERT, Robert. Freemasonry: A Celebration of the Craft. Londres: Harvill Press, 1992.
• MUSEUM OF LONDON. Trade Signs of London. Catálogo da coleção permanente.
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Por: Aristides Rubião Alves Meira Filho.