19/09/2016
Data Magna dos Gaúchos
Quanto mais estudamos, buscamos e fazemos levantamentos históricos e antropológicos sobre os temas que envolvem o que significa ser gaúcho, mais descobrimos que nada tem a ver com onde nascemos.
Sítios na internet se levantam na tentativa de esclarecer muitos mitos e valores errôneos que, por muito tempo, nos foram apregoados como verdade. Também tem os livros que estão à disposição de todos, mas são raros os que dispendem tempo e interesse para a leitura de seus conteúdos e mesmo diante de tanta informação, cada vez mais, vemos o quanto a ignorância é insistente e com isso, o verdadeiro significado de “ser gaúcho “ vai ficando cada vez mais distante da consciência dos que ‘defendem a bombacha como uma manifestação cultural’ ou um ‘estilo de vida’.
Quisera, logo, pudéssemos ver que finalmente o “Gaúcho” é reconhecido pela devida importância que tem. Mas não! Preferimos pensar o “Gaúcho” como o resultado de uma guerra:
20 de setembro de 1835 foi importante no ponto de vista histórico para a política de uma pequeníssima parte do território donde viveram gaúchos, mas me forço a questionar se esta data é de fato magna para todos os gaúchos. Não quero, com este texto, desvalorizar o que se passou, contudo, convivo a todos a refletirem sobre o que mais nos faz gaúchos.
Teria uma guerra, que se passou num pequeno território, alterados algum aspecto cultural em todos os gaúchos?
Lembremos que o gaúcho viveu no Pampa, e este é muito mais extenso que a região sul do estado do Rio Grande do Sul. Havendo se passado apenas no Rio Grande do Sul, a revolução Farroupilha não fez “ninguém usar mais ou menos uma bombacha” no Uruguai, na Argentina, outras regiões do nosso estado ou ainda outras partes do Brasil que tão veementemente assumem esta cultura.
O que nos faz gaúchos é ou deveria ser, a consciência de que somos resultados de um trabalho de construção de um novo tipo humano, hoje bastante miscigenado e com isso ainda mais importante diante de toda a humanidade.
Que não haja soberba em nosso comportamento, que sejamos simples como um assado improvisado no chão tal qual o índio pampiano ensinou o espanhol, que nossos valores sejam puros como o Caáyguá que virou Chimarrão. Que a prata e outros adornos nos sirvam para mostrar a quem quiser ver em nossas vestes, que somos e temos muito, mas que tudo é fruto de trabalho e descoberta. Que nossos passos sejam firmes como os dos homens e mulheres que sobreviveram para que tenhamos nossa história de evolução, já que revolução nunca foi um ideal dentre os que reverenciavam a terra que lhes provia a vida.
A cada 20 de setembro, mais do que erguer bandeiras, deveríamos – e aqui convido- a pensarmos sobre o quanto queremos ser gaúchos: homens que defender a evolução, o progresso, a vida, a união e respeito entre distintos povos e, sobretudo, a derrubada de fronteiras, muito mais do que a construção delas. Que o Chimarrão ou Mate não seja apenas uma representação de costumes, mas que a cada mate alcançado estejamos de fato, fazendo bem-vindo aquele que o recebe. Que nossos valores sejam muito mais influenciados por uma cultura de construção e trabalho do que por um triste episódio que foi imposto por uma cultura alienígena aos habitantes do extremo norte do Pampa, o que nós reconhecemos como o sul do Rio Grande do Sul.