12/09/2021
Antes que a memória desse dia termine, segue pra vocês pessoa feminina das braba…
FOTOGRAFIA DO 11 DE SETEMBRO (Wislawa Szymborska)
Pularam dos andares em chamas –
um, dois, alguns outros,
acima, abaixo.
A fotografia os manteve em vida,
e agora os preserva
acima da terra rumo à terra.
Ainda estão completos,
cada um com seu próprio rosto
e sangue bem guardado.
Há tempo suficiente
para cabelos voarem,
para chaves e moedas
caírem dos bolsos.
Permanecem nos domínios do ar,
na esfera de lugares
que acabam de se abrir.
Só posso fazer duas coisas por eles –
descrever este vôo
e não acrescentar o último verso.
15/08/2021
Meu segredo
Poema de Leodegária de Jesus
Não m’o perguntes não... este segredo
Que me perfuma e me ilumina a vida
Essa historia tão simples, tão querida,
Não posso divulga-la; tenho medo.
Receio que o conheçam, que bem cedo
M’o despedacem, n’alma dolorida;
Deixa essa historia assim desconhecida,
Deixa morrer commigo este segredo.
Profundo, imenso, nobre, imaculado,
Quero traze-lo sempre, assim, velado
Ao mundo vil que temo por demais.
Por Deus não m’o perguntes mais, senhora,
Porque este nome que minh’alma adora,
O meu segredo... eu não direi jamais!
Leodegária foi a primeira mulher poeta (poetiza para alguns) a publicar livro em Goiás – Coroa de Lírios, em 1906.
10/06/2020
Poesia da aniversariante do dia: PAGU
CANAL
Nada mais sou que um canal
Seria verde se fosse o caso
Mas estão mortas todas as esperanças
Sou um canal
Sabem vocês o que é ser um canal?
Apenas um canal?
Evidentemente um canal tem as suas nervuras
As suas nebulosidades
As suas algas
Nereidazinhas verdes, às vezes amarelas
Mas por favor
Não pensem que estou pretendendo falar
Em bandeiras
Isso não
Gosto de bandeiras alastradas ao vento
Bandeiras de navio
As ruas são as mesmas.
O asfalto com os mesmos buracos,
Os inferninhos acesos,
O que está acontecendo?
É verdade que está ventando noroeste,
Há garotos nos bares
Há, não sei mais o que há.
Digamos que seja a lua nova
Que seja esta plantinha voacejando na minha frente.
Lembranças dos meus amigos que morreram
Lembranças de todas as coisas ocorridas
Há coisas no ar...
Digamos que seja a lua nova
Iluminando o canal
Seria verde se fosse o caso
Mas estão mortas todas as esperanças
Sou um canal.
In: A Tribuna, Santos, 27 de novembro de 1960.
[Patrícia Rehder Galvão, conhecida pelo pseudônimo de Pagu, (São João da Boa Vista, 9 de junho de 1910 — Santos, 12 de dezembro de 19622) foi uma escritora, poeta, diretora de teatro, tradutora, desenhista e jornalista brasileira. Teve grande destaque no movimento modernista iniciado em 1922, embora não tivesse participado da Semana de Arte Moderna, tendo na época apenas doze anos de idade. Militante comunista, foi a primeira mulher presa no Brasil por motivações políticas. Fonte (abreviada) wikipedia]