08/07/2026
Kung Fu como manifesto existencial
Em um mundo tão performático, ultrarrápido, raso de convivências orgânicas e, como bem lembrou o sociólogo Zygmunt Bauman (1925-2017), uma sociedade de relações líquidas, perguntamos: como desenvolver uma habilidade que, por excelência, exige cultivo, cuidado e tempo?
Seja o atleta, o esportista, o desportista, aquele que pratica em busca de mais saúde e equilíbrio, enfim, o ser humano contemporâneo, o questionamento é para todos, a saber: por que se dedicar a algo que irá lhe pedir tempo e entrega? Medalhas, troféus, status, likes, ascensão social, dinheiro?
Bom, certamente, cada um desses elementos pode ser legítimo para cada pessoa quando se dedica à prática do Kung Fu. A questão posta não é descredibilizar essas possibilidades. No entanto, quando se remete ao signif**ado mais profundo, talvez a reivindicação peça uma proposta mais reflexiva.
O Kung Fu pede atenção, cuidado, dilatação do espírito e, quando bem praticado, responde de forma consequente para outras pessoas em forma de algumas características fundamentalmente humanas, como respeito, cortesia, lealdade e compaixão e, para que isso se desenvolva, é necessário tempo. Mas não qualquer tempo.
Trata-se de uma dedicação de entrega para além dos “holofotes performáticos”. Aquilo que o filósofo coreano Byung-Chul Han (1959-) denomina prática contemplativa, portanto, o desenvolvimento de uma prática que se justifique em si mesma.
Assim, f**a o convite a partir do que disse outro filósofo, neste caso, Walter Benjamin (1892-1940), quando nos apresenta o signif**ado de experiência. Para ele, experiência é aquilo que nos atravessa, que nos mobiliza por inteiro.
Nesse sentido, desejo aos que praticam Kung Fu que seu treino transcenda para além de uma realidade fantasiosa e rasa, mas que traga toda a sua profundidade e vigor existencial, que, de fato, lhe promovam sentido.