20/08/2026
GOETIA SALOMÔNICA TRADICIONAL
A Goetia Salomônica, ou Goécia Salomônica, é a tradição de evocação de espíritos desenvolvida dentro da literatura mágica salomônica e dos grimórios de demonologia ritual.
Ela não surgiu de um único livro. Sua formação foi gradual, atravessando diferentes textos, manuscritos e tradições de magia cerimonial.
A genealogia da Goetia que conhecemos hoje pode ser compreendida através de uma longa cadeia textual:
TESTAMENTO DE SALOMÃO
↓
LIVRE DES ESPERITZ
↓
LIBER OFFICIORUM SPIRITUUM / OFÍCIO DOS ESPÍRITOS
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PSEUDOMONARCHIA DAEMONUM — JOHANN WEYER
↓
DISCOVERIE OF WITCHCRAFT — REGINALD SCOT
↓
LEMEGETON / ARS GOETIA
↓
OCULTISMO CERIMONIAL MODERNO
OS ANTECEDENTES SALOMÔNICOS
O Testamento de Salomão é uma das fontes antigas mais importantes para compreender o imaginário da magia salomônica. O texto apresenta Salomão recebendo autoridade divina para dominar e interrogar espíritos, conhecendo seus nomes, funções e poderes. A tradição manuscrita do Testamento é complexa e sua composição foi formada ao longo de diferentes períodos.
Entretanto, o Testamento de Salomão não deve ser confundido com a Ars Goetia. Ele pertence a uma tradição muito anterior e diferente, que posteriormente contribuiu para o grande imaginário salomônico de domínio sobre os espíritos.
O LIVRE DES ESPERITZ
Uma etapa fundamental aparece no Livre des Esperitz, texto francês medieval datado geralmente entre os séculos XV e XVI.
Ele apresenta uma lista de espíritos com nomes, hierarquias, aparências, funções e número de legiões. Entre seus personagens encontram-se figuras que posteriormente reaparecem na tradição goética, como Poymon/Paymon, Amon, Bune, Furfur, Fenix e outras.
O texto é particularmente importante porque demonstra que o modelo de reis, duques, príncipes, marqueses, condes e outros governantes infernais já existia antes da Pseudomonarchia Daemonum e da Ars Goetia.
O LIBER OFFICIORUM SPIRITUUM
Outra peça fundamental é o Liber Officiorum Spirituum, ou Ofício dos Espíritos.
Esse material preserva uma tradição de classificação dos espíritos que possui forte relação com o Livre des Esperitz. Entre seus elementos aparecem os quatro reis associados às direções:
Oriens — Leste
Paymon — Oeste
Amaymon — Sul
Egine/Egyn — Norte
Essa tradição é particularmente importante para compreender a formação posterior da hierarquia e da organização espacial encontrada em diferentes grimórios.
PSEUDOMONARCHIA DAEMONUM
Em seguida encontramos Johann Weyer e sua célebre Pseudomonarchia Daemonum, publicada como apêndice de De praestigiis daemonum.
Aqui encontramos uma das fontes mais importantes para a posterior formação da Ars Goetia.
Mas existe uma diferença fundamental:
A Pseudomonarchia não possui os mesmos 72 espíritos da Ars Goetia. Ela apresenta 69 demônios, com diferenças de ordem, nomes e características, e não fornece os famosos selos individuais encontrados posteriormente na tradição goética.
Isso demonstra que os 72 espíritos da Ars Goetia não apareceram prontos.
Eles foram resultado de uma tradição textual em desenvolvimento.
DISCOVERIE OF WITCHCRAFT
Outra etapa importante é o Discoverie of Witchcraft, de Reginald Scot, publicado em 1584.
Scot traduziu para o inglês material relacionado à demonologia de Weyer, contribuindo para a circulação dessa tradição no ambiente mágico e demonológico inglês.
Assim, a transmissão não foi simplesmente:
Weyer → Ars Goetia.
Existiram diferentes manuscritos, traduções e adaptações intermediárias.
O LEMEGETON E A ARS GOETIA
É finalmente no Lemegeton, compilação de meados do século XVII, que encontramos a forma conhecida da Ars Goetia como primeiro livro da Clavicula Salomonis Regis ou Lesser Key of Solomon.
Aqui aparece o conhecido catálogo de 72 espíritos, acompanhado por seus títulos, poderes, número de legiões e selos ou caracteres.
A Ars Goetia não é simplesmente uma cópia da Pseudomonarchia. Existem diferenças importantes entre os dois textos.
A ordem dos espíritos muda.
Alguns nomes mudam.
Algumas classificações mudam.
Algumas descrições são modificadas.
E a Ars Goetia acrescenta a característica que se tornou uma das marcas mais conhecidas da tradição: os selos dos espíritos.
Por isso, a melhor maneira de compreender a Goetia é como uma tradição textual em evolução, e não como um sistema que apareceu completo em um único momento.
OS 72 ESPÍRITOS
Na Ars Goetia, os 72 espíritos são organizados segundo diferentes títulos hierárquicos:
Reis
Duques
Príncipes
Marqueses
Condes
Presidentes
Cavaleiro
Cada espírito possui suas próprias atribuições, número de legiões, descrição e selo.
Na tradição posterior, muitos desses seres passaram a ser interpretados como espíritos caídos, antigos anjos ou entidades que se rebelaram contra a ordem celeste.
Entretanto, é necessário fazer uma distinção:
A Ars Goetia não apresenta uma história uniforme dizendo que todos os 72 foram anjos expulsos do Céu.
Essa interpretação pertence sobretudo à demonologia cristã e ao desenvolvimento posterior da tradição ocultista.
Além disso, alguns nomes possuem possíveis relações com divindades e figuras religiosas anteriores, enquanto outros pertencem à própria tradição demonológica medieval. Portanto, não é historicamente correto afirmar que todos os 72 eram originalmente deuses antigos ou anjos caídos.
A AUTORIDADE DIVINA
A característica central da Goetia Salomônica é a autoridade ritual.
O operador não trabalha simplesmente pela sua vontade pessoal.
A estrutura tradicional coloca o magista dentro de uma ordem superior, utilizando nomes divinos, fórmulas sagradas, nomes angelicais, círculo, triângulo, selo e conjurações.
O espírito é chamado, constrangido a aparecer, interrogado e recebe ordens dentro da estrutura ritual.
Depois da operação, ocorre a despedida ou licença para partir.
Essa estrutura é o que diferencia a evocação goética tradicional de muitas formas modernas de contato com entidades.
GOETIA NÃO É APENAS UMA LISTA DE DEMÔNIOS
Dizer que a Goetia é simplesmente uma “lista dos 72 demônios” é olhar apenas para a superfície.
Por trás dos 72 nomes existe uma tradição muito mais extensa:
demonologia medieval, magia salomônica, nomes divinos, angelologia, hierarquia espiritual, cosmologia, círculos, instrumentos, conjurações e literatura de grimórios.
É justamente essa estrutura que constitui a tradição goética.
Por isso também é necessário separar a Goetia histórica das adaptações modernas.
O Ritual Menor do Pentagrama, por exemplo, tornou-se muito utilizado por praticantes modernos, mas pertence à tradição da Golden Dawn, no final do século XIX, e não à Ars Goetia original.
Assim, utilizá-lo atualmente como preparação ou banimento é uma adaptação moderna, e não uma parte original do Lemegeton.
GOETIA SALOMÔNICA
Portanto, quando falamos em Goetia Salomônica Tradicional, estamos falando de uma tradição que se formou durante séculos:
Testamento de Salomão
→ Livre des Esperitz
→ Liber Officiorum Spirituum
→ Pseudomonarchia Daemonum
→ Discoverie of Witchcraft
→ Lemegeton / Ars Goetia
→ tradições ocultistas posteriores
Não existe um único livro que contenha toda a história da Goetia.
Existe uma cadeia de transmissão.
E é justamente nessa cadeia que podemos observar como os nomes, hierarquias, poderes e selos dos espíritos foram sendo transformados até chegar aos conhecidos 72 espíritos da Ars Goetia.
A Goetia Salomônica tradicional não é simplesmente os 72 selos.
É a tradição histórica que deu origem a eles.
Azi Dahak
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