23/06/2016
Tratar da violência que atinge as religiões de matriz Africana é, necessariamente, tratar da opressão racial.
A chegada forçada do povo negro em terras brasileiras foi marcada por intensa repressão em todos os aspectos que caracterizavam a sua individualidade como seres humanos, a fim de reitificá-los, bem como aos que compunham a sua identidade coletiva. Desse modo, houve um intenso processo de "demonização", que se deu na estética, na fala, nas roupas, na música, na dança e na expressão mais íntima da subjetividade de um povo: a fé. Claramente, a suposta abolição, promovida pelo Estado eugenista a fim de favorecer seus interesses econômicos, não trabalhou no real sentido de democratizar os espaços e torná-los seguros para a negritude, de modo que todas as violências que cunharam a sociedade ra***ta, citadas a pouco, permaneceram.
Nesse sentido, situa-se a violência religiosa dirigida as religiões de matriz Africana, dentre elas a mais popular, o Candomblé, que trata-se de uma religião trazida de África pelos negros escravizados, como expressão pura da cultura de um povo sequestrado e vilmente torturado e que, historicamente, tem sido perseguida, inclusive pelo Direito Penal que provocou o fechamento de diversos Ilê axés (terreiros), a apreensão de inúmeras peças sagradas e a destruição de outras.
Além do processo objetivo de criminalização, com o aval do Estado, a violência ra***ta também se perpetuou pela associação das divindades e dos símbolos a coisas negativas. Trata-se justamente do que aconteceu com uma figura de vital importância dentro do contexto religioso tratado: Èsù (Exú).
É importante lembrar que o Candomblé trazido ao Brasil não é um só. Ele vem de diferentes cidades africanas, cada uma delas dá origem a um conjunto diferente de liturgias, práticas e, até mesmo, de divindades! É o que chamamos de "Nação", como, por exemplo, as nações de Ketu, Nagô, Jeje e Angola.
Contudo, em todas as nações havia o culto de uma divindade em comum, que é Exú, o que foi notado pelos Cristãos europeus que evangelizavam as tribos africanas. Deste modo perceberam o quão popular o Orixá era e o quão importante se fazia que fosse feito um processo de negativização deste.
Assim, historicamente, se deu o processo de associação do Orixá ao Diabo Cristão, facilitando a conversão daqueles que, na lógica do opressor, estariam distanciados do caminho da luz.
Apesar disso, o conceito de uma entidade que resume em si todo o mal e disputa com um bem superior a conquista de almas é completamente estranho aos fundamentos do Candomblé. A entidade suprema, chamada de Olodumaré, não possui inimigo e nem ser cuja ardilosidade tenha sido responsável por introduzir o mal no mundo. Para tal fé, a maldade tem sido, desde o princípio, obra própria da humanidade. Tal fato está demarcado em um itán (conto), em que Olodumaré designa o mundo (Aiyé) aos cuidados de seres chamados de "Grandes Mães Ancestrais", que, por sua vez, acordam com os humanos, que estes não deveriam praticar o mal, de modo que se praticassem, seriam punidos. No princípio o acordo foi honrado, mas, posteriormente, a maldade foi praticada pela humanidade por livre e espontânea vontade. Em tal momento, as Grandes Mães criaram os chamados "Ajogun" (Àqueles que lutam contra a humanidade), que se materializam na morte, na dor, na perda e na tristeza, como consequência das ações humanas.
Nota-se, portanto, que o mal, não tem nenhuma relação com Exú! Muito pelo contrário! Este também é conhecido por nomes que exaltam sua bondade, como Exú Odàrà (Exú, o maravilhoso, o senhor da alegria).
Esta campanha destina-se a desfazer o mito de que Exú é o Diabo, ou o Demônio. Exú é o movimento, a comunicação, a boca do mundo, o tempo e àquele que leva as mensagens para o Òrun (morada dos Orixás).
Ao senhor Exú, que guarda os corpos, os caminhos e toda palavra, nosso respeito e adoração.
Laroyê Exú, mojubá.