Portanto, é de suma importância pensar nos processos que trouxeram o Cine Descoberta até aqui. O projeto iniciou por meio de um movimento estudantil universitário, em 2017. Em 2018 a ideia ganhou corpo e as atividades passaram a acontecer sistematicamente e em espaços acadêmicos, com divulgação voltada para a comunidade universitária, porém em espaços abertos para todos que se sentissem interessados pelas questões ali abordadas. Também participamos de atividades na escola, tanto em Fortaleza, quanto no interior. No ano de 2019, seguimos atuando nos mesmos espaços, mas a necessidade de sair dos muros da universidade foi crescendo, desse modo, fomos nos organizando para expandir nossas perspectivas, e como resultado, fizemos muitas parcerias e compromissos firmados com gestores, professores e estudantes das escolas públicas de Ensino Médio. Mesmo sendo esse um passo ousado, dado que não tínhamos incentivos financeiros para passagem ou alimentação, nos dispusemos a estar ocupando esses espaços, e essa experiência nos fez perceber como existem diferenças muito pontuais no ambiente secundarista e universitário. A escola é um ambiente formado de muita rotatividade entre o ensinar e o aprender, e por mais que a herança das práticas pedagógicas jesuítas que engessam a visão sobre ensino e aprendizagem ainda sejam reproduzidas no Brasil, a escola é um ambiente de formação humana, e esse caráter natural é perceptível a partir dos olhares de interesse, dos rostos questionadores, dos comentários cheios de perguntas (e respostas). Nada pode impedir a curiosidade humana. Na universidade, muitas vezes, a nossa curiosidade não é tão ampla, o nosso olhar investigativo é direcionado a interesses pontuais, e a partir dessas diferenças notamos que estar nas escolas é uma construção diferente e fascinante, também nos aproxima de nossas práticas docentes e assim colhemos frutos da rotatividade do ensinar e aprender. Em um Cine Descoberta pós-pandemia, pretendemos voltar os olhos para a escola pública e tornar os estudantes secundaristas o nosso público alvo, tomar nota daquilo que aprendemos e nos debruçar sobre o que aprenderemos mais. Isso nos possibilitará expandir as atividades em escolas, transformar o que antes era apenas um encontro, em um minicurso, transformar o que era apenas exibição e discussão, em leitura, produção de material artístico, curadoria de conhecimentos e participação ativa dos estudantes. A necessidade de estar nesses espaços não diz apenas sobre o projeto em si, mas também sobre direitos educacionais garantidos. A lei 11.645 institui a obrigatoriedade do ensino da temática “história e cultura afro-brasileira e indígena” em todas as disciplinas do currículo escolar, e a Lei 13.006 estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, e institui a obrigatoriedade da exibição de filmes de produção nacional nas escolas de educação básica. Estar construindo esses momentos na escola é fazer valer as ações culturais instituídas por lei. Por fim, também objetivamos participar de construções sociais fazendo parcerias com bibliotecas comunitárias, quilombos, aldeias e ocupações, estando sempre abertos a convites para realizar atividades, inclusive em parceria com a universidade e seus projetos de extensão.