11/06/2014
VÁ COM MEDO MESMO. E NÃO OLHE PARA TRÁS.
Cristiane Oshima
Já pensou quantas escolhas você faz durante o seu dia? Viver é escolher. Começa ao acordar. Podemos escolher ficar dormindo mais um pouco, mais um montão ou despertar assim que o alarme toca. Depois, escolhemos tomar banho ou escovar os dentes. Escolhemos o que vamos tomar no café da manhã, ou escolhemos sair correndo mesmo.
Algumas escolhas são tão automáticas que nem percebemos que são escolhas de verdade. Aliás, de tanto que nos habituamos a fazer as mesmas escolhas, nem lembramos que existem outras opções. Só que elas existem, sim.
Tem também aqueles que escolhem não escolher nada. É só ficar quieto, esperando o sabor dos acontecimentos. Onde estiver mais cômodo, é pra lá que eu vou. Mas, olha que viver assim ainda é uma escolha.
Escolher muitas vezes é dolorido, porque implica renúncias. Quando você faz uma opção, significa que descartou todas as outras que existiam. Por isso, as escolhas ou são fruto de nossa simples acomodação, já que ninguém se importa de renunciar algo que há muito tempo não tem, ou fruto de uma paixão. Ou quem sabe até o fruto do fim de uma paixão. Apaixonados, seja por alguém, seja por uma causa, não hesitamos em renunciar a tudo que não se relacione a essa paixão. Nada movimenta mais o mundo que uma paixão. Quem não se apaixona é inerte, não muda, não escolhe, porque na realidade nada faz seus olhos brilharem. E por outro lado, nada nos impulsiona mais que o fim de um grande amor, pois quando isso acontece, decidimos mudar traçado de nossa história.
Tenho uma cena de cinema inesquecível na memória. É uma cena do “Cinema Paradiso”, película italiana dos anos 80, que vale a pena ser conferida por quem não conhece e reconferida por quem conhece. O protagonista Salvatore, Toto, então adolescente e após ter sofrido uma desilusão amorosa, resolve partir para a cidade grande, para lutar pela sua outra grande paixão desde a infância, o cinema. Seu grande amigo e Mestre, Giuseppe, já em idade avançada e cego em virtude de um incêndio no cinema onde trabalhava, e com quem Toto aprendeu os rudimentos do cinema, diz: “vá, vá embora e não olhe para trás, não volte nunca mais. ”
Amor mais lindo do mundo. Giuseppe escolheu que não veria mais Toto, porque aquela cidade era pequena demais para ele. E fez Toto escolher o caminho que o levaria a sua paixão, sem culpa, sem remorso. Toto havia acabado de perder seu primeiro amor. Que seguisse então sua vida rumo à outra grande paixão.
Era adolescente quando vi esse filme. E essa cena me marcou muito. Toto vira um grande cineasta, mas nunca mais viu seu mentor e amigo. Aprendi com Giuseppe que embora escolhas doam, elas são necessárias. Pois se Toto tivesse ficado em sua cidade, teria cuidado de seu amigo, mas jamais teria vivido tudo o que viveu. Jamais teria construído tantos sonhos. E que, infelizmente, na vida não é possível se ter tudo. Nem todos.
Aprendi a ter coragem de perder. É claro que muitas vezes a vontade é de ficar onde está, fazendo as mesmas escolhas automáticas. Escolher dá frio na barriga, borboletas no estômago. É o novo. Mas será que viver não é isso, a arte de escolher o desconhecido? Para frente, sem olhar para trás.
Cristiane Oshima
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