99% de todas as coisas do mundo tem uma explicação natural. Se não houver explicação, é hora de pensar neste 1%.
Grelf -Literatura Fantástica
Literatura Sobrenatural O que é o GRELF
Revista Brasileira de Literatura Fantástica - Ceará
O QUE É O GRELF?
A Literatura Fantástica (LF) constitui, ao mesmo tempo, um dos gêneros mais contraditórios e menos delimitados da literatura moderna. Até hoje não existe uma teoria inteiramente satisfatória, de forma que todas as teorias existentes, quando aplicadas ao texto literário, encontram rapidamente seus limites. Por outro lado, a LF é um dos gêneros mais diversif**ados incluindo, dependendo da perspectiv
21/05/2021
O divino é Fantástico!
26/12/2018
Reapresentação do Grupo de Estudos sobre Literatura Fantástica na II Jornada Gótica do Curso de Letras da Universidade Estadual Vale do Acaraú em Outubro de 2018
2018 - III ENCONTRO CEARENSE DE LITERATURA FANTÁSTICA!
Aguardem!!
06/05/2017
O Sobrenatural existe!!!
A semântica das cores na Literatura Fantástica1
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1 Vicente Jr – Professor adjunto da UVA e Dr. em Literatura, Cultura e Gênero pela UFPB.
Resumo
Este estudo demonstra a utilização das cores na construção de textos da Literatura Fantástica, principalmente da cor verde que passa a representar os temas sobrenaturais na literatura contemporânea, considerando que tradicionalmente eram usados para isso o preto e o vermelho. Tendo como bases a policromia de Luis Vax(1972), os estudos estruturalistas de Tzvetan Todorov(1992) e as simbologias de Manfred Lurker(1997) assinalamos por meio da análise de obras representativas, um novo caminho interpretativo para a literatura fantástica: o uso da cor verde como elemento marcador do texto sobrenatural.
Palavras-chave: Semântica. Verde. Literatura. Fantástico.
Abstract
This study aims to explore how the use of colors construes Fantastic Literature texts, especially the green color that becomes to represent supernatural subjects in contemporary literature, , taking into consideration that the red and black were the traditional colors for this purpose. Based on Tzvetan Todorov’s structuralist studies, Manfred Luker’s symbology and Luis Vax’s polycromy and on the analysis of representative works, we point out a new way to understand the Fantastic Literature: the use of green color as a distinctive feature of supernatural texts.
Key words: Semantics . Green. Literature. Fantastic.
Suponhamos que um pintor entendesse de ligar a uma cabeça humana um pescoço de cavalo, ajuntar membros de toda procedência e cobri-los de p***s variegadas, de sorte que a figura, de mulher formosa em cima, acabasse num hediondo peixe preto; entrados para ver o quadro, meus amigos, vocês conteriam o riso? Creiam-me Pisões, bem parecido com um quadro assim seria um livro onde se fantasiassem formas sem consistência, quais sonhos de enfermo, de maneira que o pé e a cabeça não se combinassem num ser uno. (HORÁCIO, 1997, p. 55).
Pelo que se observa, ao falar de “formas sem consistência” e “sonhos de enfermo”, se relacionarmos a primeira expressão com as incontáveis histórias de fantasmas do século XIX, e a segunda com as inovadoras temáticas do absurdo existentes no século XX, perceberemos que Horácio Quintiliano Flaco1, autor da Epistola ad Pisones, talvez estivesse antes profetizando que retaliando determinadas formas artísticas em que a pintura e a literatura parecem dispor dos mesmos estratagemas para atingir o seu objetivo. No caso da arte, o matiz necessário, a cor exata; no caso da literatura, a sugestão do vocábulo, a palavra em potencial.
É bem verdade que a utilização de palavras semanticamente ricas, a bem da Poética, já existia em toda a literatura mundial, fosse ela grega, latina ou árabe, mas transformar essa atitude em uma prerrogativa estética, demonstrando a consciência e a intencionalidade desse processo, não desconsiderando o cultismo barroco, refulgiu, principalmente, a partir do século XIX, com o romantismo europeu.
E já que estamos falando de palavras que não são ap***s palavras, mas símbolos, reportamo-nos às cores não por serem realmente o melhor exemplo para o que discutimos neste preâmbulo, mas porque algumas dessas cores (no caso, o preto, o vermelho, o amarelo, o azul e o verde) nos servirão de baliza, durante toda essa discussão, pelo potencial simbólico que apresentam.
Foi ainda na segunda metade do século XIX, dentro do Romantismo, que as temáticas sobrenaturais atingiram seu esplendor, ou seja, desencadeou-se a produção de textos de terror, vampirismo e licantropia, nos quais seres extramundanos invadiam a nossa realidade, instalando na literatura da época a “estética do Medo”, resultante do eterno conflito entre o real e o imaginário.
Textos como O castelo de Otranto (1764), narrativa gótica de Horace Walpole, Le diable amoureux (1772), de Jacques Cazotte, ( início do gênero fantástico ), O manuscrito encontrado em Saragoza (1814), de Jan Potocki, “A queda da casa de Usher”, de Edgar Allan Poe e O homem de areia, de E. T. A. Hoffmann confirmavam a preferência dos leitores por esse tipo de temática, provando que é comum ao homem o encanto pelo desconhecido.
Mas, a que vem tudo isso, se iniciamos falando de cores? Tenhamos calma. A verdade é que durante todo esse tempo de narrativas góticas (O castelo de Otranto) e de narrativas de terror e mistério (Le diable amoureux e “A queda da casa de Usher” ), alçando como grande expoente o nome de Edgar Allan Poe, uma cor mereceu maior destaque: o preto, além de todas as suas variações adjetivas como escuro, obscuro, negro, ébano etc. uma vez que, via de regra, as narrativas desse tempo (pertencentes a um Fantástico Tradicional ) valiam-se desse matiz para criar suas ambientações, de um modo a incutir o sentimento de medo tanto nas personagens quanto no leitor. Talvez por isso, um vampiro em Bram Stoker (1847) não pudesse trajar-se de outra maneira a não ser de preto, envolto em longa e misteriosa capa. A ambientação desses textos era feita sempre com a utilização do preto.
Na cultura popular e nos estudos em geral sobre a sua simbologia, o preto é a cor das trevas, do mundo inferior e subterrâneo. O preto representa “o que nega a luz do dia” tornando-se um símbolo do mal. É a cor de Anúbis, deus dos mortos no Egito; a cor do demônio na crença popular cristã; as vestes negras simbolizam dor e morte; na superstição cotidiana, animais pretos como gato ou bode representam infortúnio. Alguns escritos clericais da Idade Média revelam no preto o desprezo pelo mundo e pela vida.
No entanto, se encararmos o sistema literário, e toda sua fenomenologia, como algo em constante evolução, e isso sempre nos pareceu o mais sensato, atentaremos para o fato de que o medo, além de possuir outras manifestações, também pode servir ao gênero fantástico sob outras formas e, principalmente, com ambientação diversa daquela sedimentada ao longo dos séculos.
Resumindo, o medo, principalmente em literatura, não é suscitado ap***s pela noite. Por conseguinte, o preto, para nós uma marca do fantástico tradicional, poderia dar lugar a outra cor, pois se o diabo for realmente quem diz ser, pode muito bem aparecer ao meio-dia, entre os girassóis, a relação do fantástico com a arte e seus muitos efeitos, como diz Luiz Vax (1972), tratando exatamente do potencial que tanto a arte fantástica quanto a literatura fantástica possuem de atingir a psiqué humana e, consequentemente, revelá-la. E é exatamente o potencial semântico das cores, à luz da ciência ou do senso comum, que vai dar sentido a estas relações.
Uma imagem não passa de uma imagem, a sua força de feitiço reside numa combinação de formas e cores. (...) Por outro lado, acontece que a paisagem fantástica se anima com uma espécie de vida animal: esta montanha é um imenso dragão, esta colina deixa entrever um olho de cavalo; uma respiração be***al soergue toda a paisagem. Energias selvagens prestes a desencadear-se para destruir a vida policiada (Vax, 1972, p. 55-57).
O que tencionamos dizer é que o próprio gênero fantástico, fundamentado em Eventos2 sobrenaturais, que tinha o medo como maior prerrogativa, depois de Edgar Allan Poe, ganhou novas feições, talvez novas regras. Essa mudança foi sentida, pois não se encontrava mais nos textos, ao menos com tanta freqüência, a presença de bruxas, sílfides, vampiros e demônios aterrorizantes. O próprio homem passou a ser visto como “um ser extraordinário” em sua complexidade. Alguns críticos como Todorov chegaram a alardear, prematuramente, a “morte do fantástico” uma vez que, depois de A Metamorfose (1915), de Franz Kafka, monstros, castelos, vampiros e outras criaturas noctívagas não se faziam mais tão imponentes na literatura do novo século. Não era a morte de um gênero, mas o surgimento de outro: o Absurdo.
Com um Fantástico “em evolução”, sem castelos e sem vampiros, perdeu-se um pouco a referência da cor preta, ou seja, a ambientação progressiva, ascendente e amedrontadora, começou a diluir-se em meio às novas narrativas.
As janelas dispunham de vitrais coloridos de acordo com o tom dominante da peça. Por exemplo, se o aposento era azul, de azul-vivo eram as janelas. E havia branco, verde, púrpura, laranja, roxo e negro. Este era o sétimo. Totalmente coberto de veludo preto. Teto, paredes, tapete. Somente aí nesta sala a cor das janelas não correspondia à das decorações. Os vitrais eram vermelhos, sangue vivo. ( ... ) Uma visão fantástica. Na sala negra, porém, o efeito do clarão do braseiro caía sobre as cortinas negras, através dos vidros cor de sangue, dando a tudo uma aparência lívida, de morte. Poucos ousavam penetrar ali. (POE, 1960, p.27)
O título desse belíssimo texto de Allan Poe indica, em nossa opinião, os caminhos para uma transição no gênero sobrenatural, pois o que mormente era marcado pelo preto (tomemos como exemplo o romance noir), agora adquire novas tonalidades. Coincidentemente, a cor predominante seria justamente aquela que reforçaria as idéias de dor e morte embutidas no preto, por conseguinte, o vermelho que, por sua associação a idéias como sangue, luxúria e morte, denota que há sempre algum critério na utilização de determinadas cores no texto sobrenatural.
O vermelho é, como o preto, uma das cores que primeiro adquire um sentido simbólico. Associado muitas vezes ao mundo mágico, o vermelho era a cor da terra e do manto colocados em tempos pré-históricos sobre os mortos para garantir-lhes uma vida além-túmulo. Na Europa antiga, amuletos embrulhados em vermelho serviriam para afastar os demônios. O vermelho representa o amor carnal, a paixão, o erotismo, além de personif**ar o sangue, a luta, o perigo e a morte. Na Bíblia, é a cor do pecado e da penitência, a cor da grande meretriz da Babilônia (AP 17,4). Na literatura e na sétima arte, geralmente, o vermelho adorna a capa dos vampiros. E como tudo evolui, uma outra tonalidade estava reservada ao sobrenatural...
Lendo este conto iridescente de Allan Poe, passamos a cogitar avidamente: que cor tem o Fantástico hoje? Qual sua nova feição, sua nova simbologia? A resposta vem de dentro desse mesmo texto e, principalmente, dos textos sobrenaturais contemporâneos. Começamos a observar, principalmente, na atualidade, em pleno século XXI, quando o homem em vez de mais techno tornou-se mais místico, que a maioria dos textos que abordam temáticas sobrenaturais, extramundanas, inconcebíveis, oníricas, surrealistas, paranormais etc. têm valorizado sobremaneira o verde. Vejamos por qual motivo.
Em primeiro lugar, numa atitude de provocação semiológica, lembramos que esta cor não é essencialmente primária. O verde nasce, na prática do artista, da fusão do azul (cor da imensidão) com o amarelo (cor da riqueza). Até aí, nenhuma novidade, mas se compreendermos que o azul (cor utilizada no surrealismo de Breton e Dali3) por seu potencial onírico, ao somar-se com o amarelo (cor da materialidade) gera uma cor de mescla, ou seja, uma cor que oscila entre a matéria (Real) e a abstração (Irreal), capaz de simbolizar, metaforicamente, todas aquelas coisas, situações, sentimentos ou seres que habitam o suprassensível, o extramundano, o aparentemente inconcebível. O verde, atualmente, é a cor do Fantástico! Tendo origem na fusão do Amarelo com o Azul, o Verde tem gênese propícia ao Fantástico, à Alteridade, à Ambigüidade. Falemos de sua concepção.
Segundo Manfred Lurker (1997)4, o Amarelo representa a materialidade e, basicamente, a riqueza, esta cor por si só é negativa na perspectiva de todos os seres que aspiram à transcendência divina, à pureza e ao desapego mundano. Utilizada por determinados povos para identif**ar os proscritos, os hereges e as prostitutas, o amarelo refere-se ainda ao “mau olhado” e à “inveja”, base da depreciação, e outros aspectos negativos.
O Azul é a cor da constância, da transcendência, do desejo infinito, das profundezas obscuras, simbolizadas pelo Céu e o Mar. Para alguns povos é o Mal e a mentira, a ilusão e o sonho. No Alcorão, o azul simboliza o mal por identif**ar os criminosos. O Azul representa o onírico, o surreal, instando em adornos de deuses, em roupas de santos católicos e até mesmo recobrindo Krishna, que tem a pele interessantemente azul. O azul é a cor da imaterialidade, é a cor do surrealismo.
O Verde, por sua vez, é a cor do “Estar a caminho” segundo os alquimistas, da transição. Na crença popular ocidental o diabo aparece muitas vezes como “O verde”. O verde tem ligação com a morte, pois é uma da cores do estágio de decomposição. Na China, um pedaço de jade ou esmeralda era colocado na boca do morto impedindo-lhe a putrefação. Em certos casos é símbolo de sexualidade, além de referir-se ao sacrifício humano para os astecas.
O Absinto, conhecido popularmente como La Fée Verte ou The Green Fairy, e cientif**amente como artemísia absinthium, a bebida preferida dos artistas do final do século XIX, na verdade uma invenção do médico francês Pierre Ordinaire, em 1792, tinha como primeiro objetivo finalidades medicinais, atuar contra males digestivos, mas guarda um poder alucinógeno bastante conhecido. Ressaltar este teor alucinante é necessário porque a loucura, a alteridade, também é destacada pelo uso do verde, como se pode observar em “O incrível Hulk”, releitura cinematográf**a contemporânea de The Strange case of Dr. Jeckyll and Mr. Hyde (1886), do mestre Robert Louis Stevenson.
Na Química, na Teoria dos 5 Elementos5 (antimônio, arsênio, chumbo, mercúrio e tálio), alguns dos compostos mais letais são encontrados na cor verde como o Tálio e o Arsênio, sendo marcados principalmente por conduzirem à morte depois de longo período de delírios, loucuras, sonhos e outros sintomas que combinam com as diversas temáticas do Fantástico. Nevroses famosas estiveram ligadas a estes cinco elementos como as de Mozart, Henrique VIII e Napoleão Bonaparte.
Na Bíblia, (Ap 4,3), temos uma referência ao verde-esmeralda como simbologia apocalíptica. E ainda temos divindades como Osíris, Oxossi, Ratna e Uto, todos com alguma ligação com o verde e com o mal em si. O basilisco6, por exemplo, monstro mitológico estudado por Borges (1967), tem plumagem amarelada e olhos verdes que matam. O verde é extraordinário!
Muitas poderiam ser as cores do fantástico, e algumas até que lhe são bem propícias como o vermelho, que representa o sangue no vampirismo, ou o lilás, cor da espiritualidade para alguns. No entanto, a que nos parece mais recorrente, e que melhor se encaixa na poética fantástica (por sua origem mesclada de azul e amarelo) é o verde, sem dúvida, tanto que são incontáveis os textos que apresentam elementos favoráveis ao uso dessa cor como árvores seculares, veredas misteriosas, sereias, olhos etc.
Numa leitura mais atenta podemos perceber que, mesmo no momento do texto de ambientação noir, de penumbra constante, encontramos alguns exemplos nos quais o verde, cor sabidamente mística para os antigos, embora timidamente, já era utilizada. Em Hoffman, por exemplo, encontramos a descrição do terrível “homem de areia” que tinha seu teor amedrontador destacado, pelas cores, como segue:
No entanto, a mais hedionda das figuras não me teria assustado tanto quanto o tal Copellius. Imagina um homem alto, de ombros largos, com uma cabeça exatamente grande, cara amarelada, quase ocre, sobrancelhas cerdosas e grisalhas, sob as quais brilham olhos penetrantes, verdes como os de um gato, e com um nariz comprido, que lhe cai por cima do lábio superior. Sua boca torta geralmente se contorce em um sorriso maligno, então aparecem duas manchas vermelhas em suas bochechas, e um estranho sibilar lhe sai por entre os dentes cerrados (CALVINO, 2004, p.250)
Lygia Fagundes Telles, autora de textos de mistério e, às vezes, fantásticos, nos brinda em sua obra com “Emanuel” e “Antes do baile verde”, dois contos interessantíssimos sobre a psiqué humana. Vejamos um fragmento deste primeiro.
Ninguém está acreditando em mim, ninguém acredita nisso, que tenho um amante e que esse amante tem olhos verdes, um mercedes branco e que se chama Emanuel... ( ... ) ás vezes, ele se deita na almofada e f**a horas e horas imóvel, ouvindo, os olhos verdes brilhando tanto... (TELLES, 1981 p.13)
No texto de Lygia, do qual extraímos um fragmento duplo, o mistério e a ambiguidade predominam porque uma das mais importantes razões internas da narrativa é a possibilidade de Emanuel, o misterioso namorado, ter ligações com o gato de olhar esverdeado da protagonista ou ser ele mesmo o próprio gato, pois os olhos verdes de ambos, no campo do sobrenatural, acentuam essa possibilidade.
Nem tudo que é verde é sobrenatural, mas o sobrenatural, atualmente, tem ligações com o verde. A afirmação pode soar leviana, mas um estudo, mesmo superficial, a respeito dessa cor e de sua ocorrência na literatura fantástica brasileira ou universal, igualmente no cinema e nas artes plásticas, comprovará a utilização dessa tonalidade em textos que apresentam temáticas ou eventos extramundanos.
Nosso estudo acaba por demarcar, e cremos que pela primeira vez, a estreita relação dessa cor com o gênero fantástico, em sua perspectiva mais contemporânea, aquela em que a escuridão e as criaturas notívagas não são mais necessárias para a construção do texto fantástico no qual se inserem o medo e a hesitação todoroviana.
O mais interessante é que esse procedimento afigura-se quase como um postulado, pois muitos o seguem de forma “escolástica”, mesmo que nem todos tenham a devida consciência da cor que escolhem para esse projeto na busca pelo efeito fantástico. Alguns títulos atuais como Os verdes abutres da colina, de José Alcides Pinto; A caminho de poço verde, de Rubens de Figueiredo, por exemplo, revelam este procedimento.
Incrivelmente, são incontáveis os textos que se valem do verde na construção dos eventos sobrenaturais, assim como, nos séculos XVIII e XIX, eram muitas as narrativas que se iniciavam com uma epígrafe bíblica, modismos que precisam ser mais discutidos. Também são muitos os livros de caráter sobrenatural que possuem ilustrações e capa verde, mas, ao que parece, poucos autores e leitores têm ciência do que isso realmente signif**a.
De qualquer forma, o que era ap***s uma praxis, voluntária ou não, da poética do sobrenatural, ganha agora um fundamento, um caráter mais técnico, que levará a uma maior reflexão sobre o próprio ato de escrever, principalmente de escrever textos ligados ao fantástico (contos, romances, filmes, HQs etc.) quando se pode, agora, fazer uso de um marcador de apelo sobrenatural, a cor verde.
Usai o preto, o vermelho, o amarelo, o azul e o verde, principalmente, artistas, ele tem poderes sobrenaturais! E aquele que ousar refutar esta constatação, precisará de muita coragem, pois enfrentará, além de mim e todas as minhas circunstâncias, um exército inteiro que tratará de me defender; criaturas como o Hulk, a Kuka, o Peter Pan, o Duende Verde, o Máscara, todos os ogros da Irlanda e da Hungria, e até mesmo os marcianos que, se existirem, serão insolitamente verdes.
Notas
1 Em sua Epistola ad Pisones Horácio é contra a mistura de gêneros, defende o que chamou “Unidade de tom” e orienta como deve ser o bom texto.
2 A categoria Evento, instituída por nós na poética do Fantástico, representa o momento exato da irrupção do sobrenatural na narrativa, o momento em que o ser de uma outra realidade subverte a legalidade cotidiana com sua presença.
3 No quadro “As tentações de Santo Antão”, na perspectiva de Salvador Dali (1904), o azul do céu, representando o onírico, predomina como afirmação do Inconsciente.
4 Manfred Lurker faz um estudo das mais diversas simbologias dedicando especial atenção às cores.
5 A “Teoria dos 5 elementos” mortais da natureza de John Emsley destaca que os que levam à loucura e à morte têm variação em verde.
6 Jorge Luís Borges, em um estudo catalográfico de monstros que habitam o “imaginário” popular de todo o mundo, ressalta o basilisco como um dos mais recorrentes.
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29/12/2012
O GRELF deseja a todos um Feliz Ano novo!
23/12/2012
O GRELF deseja a todos um Feliz Natal!
22/12/2012
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Que o mundo é Sobrenatural! Por isso as pessoas, boas e más, são Fantásticas!
Que o mundo sobrenatural está cada vez mais perto de nós. O confronto é passado...agora é interdependência.
A melhor aula de redação da minha vida!
Um dia, quando eu era exatamente igual a vocês, ou seja, ninguém; tempo em que eu não sabia por que estudava ou estudava porque era o jeito, precisei mudar de escola. As mudanças nunca me assustaram, mas daquela vez fiquei apreensivo. Era uma escola gigantesca e tradicional. Alguns alunos geniais e muitos nem-tanto. Eu era desses últimos. A escola era velha como o tempo. Os professores iam no mesmo ritmo.
Basta dizer que os grandes expoentes do nosso estado ou haviam estudado lá, ou lá foram professores. Meus pais disseram que dali saíram os grandes nomes da nossa terra... juristas, médicos, escritores e reitores. Logo eu que não pensava ainda em uma profissão, que não sabia nem o que queria da vida, que buscava nas aulas ap***s um pouco mais de diversão, alguns amigos, talvez o primeiro amor...
Mas um dia, entrou na sala, um professor já idoso, estranhamente feliz, de fala estranha - pois falava português corretamente - que em vez de começar a escrever no quadro da esquerda para a direita, e de cima para baixo, como todo mundo esperava, começou da direita para a esquerda, de baixo para cima, com letra firme e apaixonada. Ao final, deixou na lousa um poema de um tal de Olavo Bilac.
A um poeta
Longe do estéril turbilhão da rua,
Beneditino escreve! No aconchego
Do claustro, na paciência e no sossego,
Trabalha e teima, e lima, e sofre, e sua!
Mas que na forma se disfarce o emprego
Do esforço: e trama viva se construa
De tal modo, que a imagem fique nua
Rica, mas sóbria, como um templo grego
Não se mostre na fábrica o suplicio
Do mestre. E natural, o efeito agrade
Sem lembrar os andaimes do edifício:
Porque a Beleza, gêmea da Verdade
Arte pura, inimiga do artifício,
É a força e a graça na simplicidade.
Gostei tanto daquilo que, mesmo não conhecendo o autor nem sabendo o que iria ser da vida, mais um jovem cheio de dúvidas, surgiu uma bela certeza: seja lá o que eu for, farei o meu trabalho tão bem, e de forma tão apaixonada, que jamais permitirei que as pessoas se cansem do que eu estiver fazendo, pois farei sempre de um jeito novo, nem que seja preciso escrever de trás pra frente.
O tempo passou, eu terminei o Ensino Médio, fiz faculdade de Letras - em outro lugar tradicional – e aprendi milhares de coisas, mas o poema do Bilac eu ainda levei anos para decifrar. Só hoje, como professor de Redação, descobri que não era bem um soneto, mas um conselho, uma receita de como escrever bem. Descobri, também, que a linguagem do passado é um desafio para o presente.
Por isso, depois de entender o poema, que foi a melhor aula de redação da minha vida, desenvolvi para todos os alunos – os geniais e os nem-tanto – uma versão do mesmo texto, desrespeitando a Forma, mas preservando o Conteúdo para que não haja o menor risco de ele não ser entendido.
A um vestibulando
Não escreva no meio da bagunça, da balbúrdia, pois esteriliza a mente e o texto não sai. Não escreva, na sala, vendo televisão! Escolha um lugar reservado, recolhido, seu quarto, pois a mente estará livre e fértil, fazendo o texto fluir, instantâneo e límpido, como água da fonte. Escreva, insista, amasse, jogue a folha, pegue outra, mas não pare. Aprimore o texto, troque palavras, fique com a mão doendo, pois a redação do vestibular não é só inspiração, é transpiração, é trabalho!
Preocupe-se com a gramática, a Forma; equilibre-a com a ideia, a Trama, porque ter genialidade é conduzir muito bem as duas. Que a ideia central que o domina seja tão segura e tão clara que qualquer um possa entendê-la. Que aquilo que você quer dizer seja bem simples, objetivo, sóbrio, sem exagero, mas com as informações necessárias para encantar quem o leu. Pois o texto bem escrito, e cheio de boas ideias, é como um templo, uma construção divina preparada por mortais.
Mas seja bem natural, de um jeito que, quando pronto, fique tão bom, tão bem escrito, e tão limpo que nem de longe demonstre o trabalho que deu para fazê-lo. A redação já existe antes mesmo de ser escrita, mas o rascunho de um bom texto é como o andaime sujo que um dia fez o prédio. Para isso existe a prática. Vamos! Escreva! Tem sangue eterno a asa ritmada. Voará para sempre a asa que sempre voa. Escreverá para sempre aquele que sempre escreve.
Um texto bom é Belo e Verdadeiro. A beleza está na Forma, na Gramática, na coesão. A verdade é Conteúdo, é ideia, é coerência. Texto bom é obra de arte! E a arte é o contrário da enganação. Não escreva só por escrever. O texto é um compromisso. Com a graça, a beleza de como se diz; e com a força, a credibilidade naquilo que é dito. E não há nada mais simples que isso: alguém que quer dizer algo a outro e diz.
Prof. Dr. Vicente Jr.
(Prof. da UVA, do Ari de Sá e da FLF)
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