26/06/2022
Eu tenho um tio que quando contava uma história ou caso e não lembrava de algum nome, fosse coisa ou pessoa, dizia, dando de ombros e com ar de riso: "aquele/a Jacutinga lá". Acontece que o tio sempre esquecia (e até parecia de propósito), então ouvíamos muito essa palavra da boca dele. Era sua marca! Achávamos engraçado, ríamos com ele porque tudo virava Jacutinga no final das contas. Pra gente, ele tinha inventado esse nome e estava tudo certo, e dizia pra ele próprio se divertir. Até que um dia, do nada, descobrimos a (suposta) "origem" do termo criado por ele.
"Quando minha mãe não tinha o que dar de comer pra gente, ela fazia jacuba. Tomei/comi muita jacuba na minha vida… ba", e aquele olhar, de repente, voltou num tempo, desconhecido pra nós, mas muito vivo na lembrança de meu tio.
Perguntamos: o que é isso, tio?
Ele, com certo ar de satisfação contida, tanto por estar acordando memórias, inclusive de sua mãe, a qual se referia sempre com muito orgulho, quanto em estar nos ensinando algo numa era onde não se descobriria instantaneamente o que é jacuba apenas entrando no Google, tampouco, toda a lição de vida que aquele homem transmitiria com seu olhar e a potência de seu sentimento ao explicar a receita: jacuba era uma mistura de farinha de mandioca, café e leite.
Esse período da vida do meu tio deve ter sido tão forte que ele precisou recriar uma palavra em cima daquela que mais marcaria a história de sua vida:
Jacuba… quando o olhar se perde no tempo.
E Jacutinga (que também aparecia de outras formas, mas sempre começando por "jacu"), a forma que ele encontrou, muito tempo depois, de honrar e poder sorrir lembrando a dor da fome e o sofrimento de uma mãe por não conseguir alimentar seus filhos.
Engraçado que só décadas depois esse dia me impactou. A sensibilidade me fez guardar na memória este e tantos outros momentos com esse tio amado, mas só com a maturidade de hoje tive capacidade de compreender as tão valiosas lições que ele nos passou.
P.s.: ele não morreu, pelo contrário, está bem vivo! Tem 82 anos, é treinador de futebol (e ainda joga). Lá em Alegrete 😊
A propósito, nem sempre precisa esperar a pessoa desencarnar pra honrá-la.