06/03/2016
O DESAFIO DE ENSINAR UM FILHO A GOSTAR DE SI MESMO.
Ah! Este assunto é tão delicado, pois para “ensinar” um filho a ter amor por si mesmo, primeiramente, precisamos nos perguntar se nós, adultos, sabemos gostar de quem somos. Se optamos pela nossa companhia, um dia após o outro, independente do nosso humor, da nossa beleza e da nossa, imprescindível, feiura.
Muito se fala em amor próprio, MAS, sabemos exercitar este amor?
Não entendo por amor próprio aquele amor em consequência de bons salários, de inteligências prodigiosas, de amizades importantes, de um diploma na mão, de um corpo admirável, de dentes cada dia mais brancos, de ter a casa dos sonhos, de comprar o carro almejado, de ser o amigão de todos, de ir à missa cada domingo, de fazer trabalhos filantrópicos, de pagar as contas em dia, de ser honesto, de ser admirável, de ser “ético” e de ter uma família “integra”.
É como ir somando pontos dentro de nós capazes de nos convencer de alguma coisa: Sou formado, tenho emprego, tenho carro, viajo nas férias, educo meus filhos, pago a empregada em dia, visito aos avós nos finais de semana e pago os impostos. Resultado: socialmente “aprovado”. E daí vai surgindo um gostar de quem somos. Aparentemente, como atendemos às expectativas, incluídos e admirados nos sentimos e tudo vai por bom caminho.
Enfim, somos dirigidos a ter um comportamento mais ou menos assim. Donde concluímos que somos pessoas de confiança, de boa índole, trabalhadoras e de boa família.
Todas essas conquistas e muitas outras, realmente são consequências de admiráveis esforços.
Porém, vejo que tudo isso faz mais parte da cultura de um amor “dirigido” que com a verdade do amor próprio.
A todo o momento esbarramos com um discurso que impera sobre os demais, o discurso estridente da “perfeição”. A sensação que me dá é que tudo podemos mudar, começando pela própria cor da pele. Tudo está sujeito a um passo de mágica e tcham tcham! O sonho está a poucos metros: o cabelo perfeito, o corpo perfeito, as férias perfeitas, o marido perfeito, a esposa perfeita e, claro, os filhos perfeitos já que nascem dentro da verdadeira expectativa por príncipes e princesas.
É sempre assim: “se não gosta podemos mudar por…” Claro! O milagre está em cada “esquina da promessa”.
A promessa é que há solução e o tempo de espera é só o tempo de verif**ação no estoque.
E cada vez mais há faculdades com critérios educativos absolutamente duvidosos, produtos de beleza com alto teor de toxidade, viagens e carros que podem ser pagos em doses homeopáticas, pastilhas que prometem o corpo ideal, enfim, cada vez mais a solução, a euforia, vem de fora.
E, consequentemente, o gostar de si mesmo está condicionado com a nossa capacidade de consumirmos as “ofertas” da autoestima.
Constantemente estão nos dizendo que não somos “perfeitos” que o nosso “estilo” de vida está abaixo da “classif**ação” aceitável e através deste discurso não estamos comprando “soluções”, MAS SIM, mais e mais insatisfação, dependência e, inevitavelmente, falta de amor próprio.
Enfim, a ideologia do “externo” não tem o compromisso com o amor próprio de cada um. Ela é apenas uma euforia viciante, desprovida de misericórdia e de compaixão.
Olho para cada canto e me pergunto: em meio a tanto barulho, exercitamos um amor verdadeiro por nós mesmos? Conhecemos a nossa natureza? Sabemos lidar com o “natural”?
… natural? Natureza?
Sim, vamos olhar para os nossos filhos, vamos contemplar uma criança. Ela, ainda, é toda natural. O seu olhar ainda são partículas do céu e todo o seu conteúdo amor próprio. Nascemos assim em absoluta união com o nosso todo. Nascemos completos dentro da nossa diferença, pois é ela quem nos deixa natural… Enfim, um autêntico filho da natureza.
E é, justamente, esta “diferença” que os “estoques da promessa” querem nos tirar a todo custo e a cada momento.
Mas, não vamos nos colocar naquele lugar favorável, agradável e menos responsável, no papel de vítimas inconsoláveis, pois isso não somos. Estamos consumindo promessas e dialogando promessas dentro de casa. Estamos nos acomodando com o lado fácil da nossa cultura. Reclamamos mas nos acomodamos, afinal “desconstruir” tudo isso parece mais um trabalho engenhoso de querer reinventar o ser humano sem chances de sobrevida. Então, duvidamos de nós mesmos, sempre e uma vez mais. Duvidamos que podemos discordar, que podemos mudar, que podemos querer viver diferente. Ah! Esse tal de diferente dá um “medão”! Mas, nascemos com ele!!!
Comprar uma possível “solução” não é igual que querer encontrar a solução dentro de si mesmo. E acredito que seja esse o caminho em busca de ensinar a um filho a gostar de quem é.
Precisamos dialogar mais com o natural que com o sintético. Precisamos ensinar uma criança a acarinhar a sua diferença e colocar asinhas de borboletas na sua autenticidade. Esse precisa ser o caminho para que possamos desfrutar da nossa própria companhia um dia após o outro com sabedoria.
Primeiro a criança precisa perceber quem ela é, precisa sentir com toda a intensidade. Deixar que as crianças sintam raiva, ira, ciúmes, inveja, egoísmo, insegurança, medos… Tudo isso pertence ao ser humano. Não há nada de errado. O errado é querermos “sufocar” essas emoções na busca insensata de príncipes e princesas. Eles precisam tocar nos seus limites, perceber a sua matéria prima e ir “lapidando” a sua escultura interna.
Ai está o “discurso” do amor próprio, saber acolher a “exuberância” e a “febre” de ser quem é.
Precisamos ensinar uma criança a não se perder dela mesma e que os “estoques da promessa” nos oferecem nada mais que distrações momentâneas, mas não percepções no sentido nutritivo, transformador e apaziguador.
Ainda nos amamos apenas nos dias de glória quando conseguimos ser algo de “príncipes” e “princesas”.
Ainda experimentamos um amor próprio com muitas “condições”.
Se esse é o amor que ainda conhecemos, que experimentamos dentro de nós, como seremos capazes de oferecer e de ensinar outro tipo de amor para um filho?
Texto: Raquel Marcato
Fonte:http://www.mamaesavessas.com/?p=1031