04/06/2020
POR UMA GEOGRAFIA ANTIRRACISTA E MULTICULTURAL
Estudar a história do território catarinense é compreender que o Estado de Santa Catarina foi construído na exaltação da ocupação europeia e branca, diretamente relacionada à noção de pureza, civilização, progresso e desenvolvimento. É entender que esse processo invisibilizou a presença e protagonismo dos povos originários e marginalizou grande parte das pessoas não brancas privando-as do ônus da história.
Em Floripa, a face desse processo torna-se evidente quando ele opera na valorização do que tradicionalmente se chama de manezinho (manezinho da Ilha), como uma referência aos descendentes da Ilha dos Açores nascidos aqui. Entretanto, sabemos que o manezinho não tem referência apenas ao local de nascimento, se faz necessário ter os atributos físicos, fenotípicos que remetam ao continente europeu. É importante destacar que não há problema a cidade assumir o “manezinho” como uma das identidades que compõem Florianópolis, o problema é fazer isso face ao apagamento de todas as demais.
Sobre esse aspecto, a formação socioespacial de Floripa, que não é diferente das outras cidades brasileiras, é a população pobre e negra que tem sido historicamente submetida à processos de marginalização e periferização. A destinação de áreas com precariedade de infraestrutura e serviços urbanos como lugar de moradia, mostra nesta lógica, a manifestação mais objetiva e empírica de projetos genocidas inicialmente elaborados por políticas eugênicas, e em seguidas por planos de higienistas de planejamento urbano.
Resultado de uma violência simbólica, material, institucional e psicológica promovida dentro de uma estrutura racializada e ra***ta, essa população enfrenta até os dias atuais, diversas dificuldades de acesso a serviços sociais básicos, e principalmente a privação de direitos, que os tornam seres humanos dignos de uma vida plena em condições ideais.
No contexto da Pandemia da COVID-19 a situação é ainda mais degradante e grave. Se é na periferia que se encontram as pessoas que são os mais afetados pelos efeitos econômicos, o escasso oferecimento de higienização básica é agravado pela falta d’água, e o isolamento social é difícil devido às condições de estrutura e tamanho das habitações. Além disso, em um momento que o Estado deveria ter o devido cuidado com os seus cidadãos e cidadãs, observamos o inverso: o aumento do desemprego, o auxílio emergencial em análise, as contas atrasadas e a fome só mostram a quem o governo atual serve, e não é para população pobre e negra.
O que se mostra é uma ação deliberadamente necropolítica, ou seja, uma política da morte observada através das atitudes antidemocráticas, ra***tas, machistas, conservadoras e fascistas, que
o governo atual vem promovendo. E sob esse aspecto, mesmo no momento em que o mundo direciona a uma luta para um inimigo em comum – o vírus, a opção do Estado brasileiro é a periferia, e ele não respeita isolamento.
Mas o problema não é exclusivamente brasileiro. De um lado, a Pandemia popularizou a hashtag (VidasNegrasImporta), e junto com a imagem do prédio em chamas em Minneapolis, tornou a revolta contra o racismo o sentimento único, possível graças ao mundo homogêneo da globalização. E por isso a revolta é também seletiva, pois aqui, as ruas já estavam em chamas há semanas. Isso acontecesse, por que dentro das favelas, a instituição de segurança do Estado tem o povo negro como alvo principal, e a faz a mira como um inimigo comum, algo que apresenta similaridade com os Estados Unidos. Mas aqui, a polícia também é o instrumento que tem como função apertar o gatilho e reduzir as chacinas na razão de que cada 23 minutos, morre uma pessoa negra no Brasil. A contradição é que enquanto jovens e crianças negras são mortas, o país orgulha-se de ser miscigenado e diverso.
E o que as pessoas assassinadas estavam fazendo antes de morrer? João Pedro (14 anos) estava cumprindo a quarentena exigida pelo Estado, Rodrigo (26 anos) caminhava carregando um guarda-chuva, Maria Educarda (14 nos) morta quando voltava da escola. Os casos são exemplo da violência constante do Estado, por meio das ações da polícia militar, dentro de uma mesma lógica de racismo estrutural. E isso não é novo! De acordo com dados do IBGE e do Atlas da violência de 2019, 255 mil negros foram assassinados entre 2012 e 2017, o negro tem 2,7 vezes mais chances de ser vítima de assassinato, 75% dos mortos em intervenções policias no Brasil em 2018 eram negros, o número de hominídios de mulheres negras é quase o dobro do que os de mulheres não negras.
E você ainda lembra da Floripa que tem orgulho da cultura europeia? Do final do ano passado até agora, nove jovens foram assassinados pela polícia militar no Morro da Queimada e no Mocotó. Os moradores não tem se mantido em silêncio, e desde maio se reuniram e ocuparam as ruas em frente às entradas do morro com faixas e cartazes para denunciar a violência das forças de segurança do Estado. Isso quer dizer que, enquanto o mundo enfrenta uma pandemia e busca cumprir o isolamento, nas favelas, a quarentena tem sido interrompida pela continuidade da violência policial e da necropolítica. Assim, qualquer política que não coloque a questão racial como pauta central do Estado brasileiro, só irá mascarar esse problema do país.
Diante disso, qual o papel da geografia para mudar essa realidade? Como temos utilizados o conhecimento geográfico para interpretar essa situação e transformar a realidade? Como os/as professore/as juntamente com seus/as estudantes podem direcionar pesquisas para contemplar a resolução dessas questões que ocorrem tão perto de nós? Ou ainda, o que nós podemos fazer para
reverter esse fato? Será que o currículo da geografia realmente contempla o estudo da sociedade brasileira? A geografia pode contribuir para a visibilizar também populações e culturas não brancas? Estudamos a formação socioespacial, a produção do espaço, os processos de territorialização, e temos conhecimento de que nada disso ocorre por acaso! Também definimos que influências e resultados de uma ação pode se evidenciar em múltiplas determinações! Mesmo assim preferimos nos calar? Mesmo assim temos orgulho de dizer que fazemos uma geografia dita crítica? Defendemos uma Geografia tem como um de seus objetivos oferecer à humanidade, o entendimento das dinâmicas e dos processos espaciais auxiliando o desenvolvimento de um raciocínio geográfico em práticas humanas em todas suas dimensões. Sua importância reside nas contribuições que auxilia a direcionar e orientar como os processos de transformação, ocupação e produção da sociedade acontecem espacialmente. Essa geografia pretende contribuir para a formação humana, referenciando os sujeitos acerca de seu lugar no mundo, possibilitando a participação nos processos de construção da sociedade no domínio individual e coletivo.
Em uma sociedade, em que a população é composta majoritariamente de pessoas negras, cabe a essa geografia debater as estruturas espaciais construídas a partir das relações raciais e como as mesmas impactam nossas vivências e nossas espacialidades.
Como uma ciência que serve para os sujeitos se posicionarem no mundo, essa Geografia oferece processos de compreensão das expressões espaciais nas mais diversas escalas, e que por muito tempo foi um dos instrumentos de reprodução e difusão de narrativas únicas, mas que a agora deve assumir uma nova forma de compreensão da realidade e um outro projeto de realidade.
Em um país que se teve sua formação a partir do processo de escravização, da colonialidade e da branquitude, e que depositou todo o ônus do fim desse processo nos próprios sujeitos escravizados observada até hoje na segregação socioespacial, na manutenção da estrutura ra***ta e na inferioridade do negro, uma geografia que combata cientificamente e politicamente essas questões torna-se uma estratégia de construir uma sociedade com cidadãos e cidadãs eminentemente livres e desvendando máscaras sociais.
Se a Geografia é uma disciplina do poder, faz-se necessário utilizá-la como forma de conhecimento e enfrentamento de narrativas hegemônicas, discursos de ódio e práticas classistas, ra***tas, sexistas, homofóbicas, fascistas que possam reaparecer em qualquer lugar, seja em Floripa, no Brasil ou no mundo.
Devemos então nos atentar para que a partir da Geografia possamos desconstruir narrativas dessa ordem e construir uma GEOGRAFIA ANTIRRACISTA E MULTICULTURAL.