16/12/2018
QUERIDA LARISSA,
Passaram-se 10 meses. Contudo, lembro-me, ainda, como se fosse ontem, o dia em que tudo começou.
Era mais um dia desses bem quentes em Espinosa. Eu estava dentro de uma agência bancária, resolvendo assuntos dessa vida chamada "adulta", quando o meu celular tocou: era a sua mãe.
Ao atender, do outro lado uma voz me perguntou se eu era a "Talita, professora particular" e se eu tinha vagas para o ano letivo de 2018. Após a minha resposta afirmativa, combinamos uma conversa pessoalmente, para nos conhecermos: mãe/aluna/professora e efetivar a inscrição para inicio das aulas.
Pessoalmente, a conversa perdurou. Eu e a sua mãe trocamos várias informações enquanto você observava tudo em silêncio e com os olhos fitos em mim.
Neste primeiro momento, que faço questão de ter com todos os pais e alunos que procuram pelo meu serviço, é possível conhecer muito sobre a personalidade do aluno, as palavras (ou a ausência delas) podem dizer muitas coisas. Perceba: eu disse "podem". Pois bem, não foi o seu caso!
Em silêncio você entrou, em silêncio você saiu. Confesso que fiquei grilada porque nunca antes a minha "maleta de experiências" tinha me frustrado assim.
Pois!
Você foi embora e me flagrei questionando se todo aquele silêncio era timidez, introspecção ou indisposição em retomar os estudos.
Veio então o inicio das aulas e, pouco a pouco, pude conhecer e compreender sobre você como aluna e como pré-adolescente.
Não foi um processo fácil. Durante todo esse tempo, muitas lágrimas rolaram (principalmente dos seus olhos). Não foi uma, não foram duas, tampouco três as vezes que você, no meio da aula, pediu para ir ao banheiro e lá permaneceu, chorando, até que eu ligasse para os seus pais lhe buscarem. E os dias em que você chegava aos prantos, acompanhada pela sua mãe, querendo voltar?
Hoje, lembrar de todos esses episódios podem nos arrancar belas risadas, mas só os lápis e cadernos, se tivessem voz, seriam capazes de dizer quão difícil foi testemunhar tudo isso.
Você chorava toda vez que eu a cobrava e eu dizia que jamais cobraria de você o que eu soubesse que não seria capaz de fazer. Se eu estava cobrando é porque tinha certeza que você possuía ferramentas o suficiente para conseguir.
Trabalhar esse ideal com você, bem como fazê-la enxergar suas qualidades e potencialidades, foi bem desafiador. A missão era mostrar-lhe que onde abundava a preguiça, a dedicação tinha poder para superabundar. E foi justamente o que aconteceu!
De mansinho, a sua evolução começou a florir. O seu equilíbrio emocional foi uma das primeiras evoluções. Você começou a esboçar mais domínio e maturidade face aos desafios naturais da vida de estudante, parou de chorar ao tentar fugir de um desafio, e passou a enfrentá-lo. Em seguida, passou a ser mais responsável com as tarefas, trabalhos e preparações para as semanas de provas. Logo, as notas no boletim já não eram mais as mesmas: tínhamos muito o que trabalhar para melhorá-las, mas quando comparado ao que era, a sua evolução era digna de orgulho!
Na foto, fiz questão de registrar o dia que passamos 7 horas seguidas fazendo vários de seus trabalhos (que só deveriam ser entregues a 3 semanas), após termos aproveitado que eu não tinha nenhum compromisso naquela noite.
Foram 7 horas que você passou empenhada, fazendo trabalho, confeccionando cartaz, estudando para prova e apresentações avaliativas. E o mais curioso: foram 7 horas sem reclamar que estava cansada ou que queria ir embora. Pelo contrário, neste dia, eu precisei 'convidá-la a ir embora' (risos).
Viu só como você evoluiu?
Eu sempre soube que você seria capaz. Aliás, sigo convicta que é capaz de evoluir ainda mais!
Quero que você se orgulhe de seus avanços diários e não os compare com os de ninguém.
Encerraremos o ano letivo essa semana, mas não quero que você se contente por passar de ano, apenas. Quero que entenda o desfecho dessa jornada como algo que poderia ter sido ainda melhor e por isso, no próximo ano fará o que deixou a desejar aqui.
Portanto, querida, se hoje você e seus amigos têm uma professora completamente fora do padrão, saiba que é porque estou envolvida até o último fio de cabelo para fazer com que a escola em que vocês estudam, ao contrário de tantas outras, não veja o ENEM como o futuro e sim vocês como cidadãos. Luto por uma After School em que os melhores alunos não sejam aqueles que acumulam mais informações e sim os que aprendem a gerá-las, luto por uma After School em que os melhores alunos não sejam aqueles que se adaptam à escola e sim aqueles que fazem a escola se reinventar para melhor servi-los.
Sonho por uma escola em que os alunos não são ensinados e sim aprendam. E que todos percebam essa enorme diferença.
Você tem percebido. Por isso, sinto tanto orgulho de você!
Continue buscando ser a melhor versão daquela que você foi ontem.
Eu acredito em você!