05/06/2020
𝗠𝗮𝗻𝗶𝗳𝗲𝘀𝘁𝗼 𝗣𝘂́𝗯𝗹𝗶𝗰𝗼 𝗱𝗼 𝗚𝗿𝘂𝗽𝗼 𝗜𝗻𝘁𝗲𝗿𝗮𝗴𝗶𝗿 𝗽𝗲𝗹𝗮 𝗘𝗾𝘂𝗶𝗱𝗮𝗱𝗲 𝗥𝗮𝗰𝗶𝗮𝗹
Há duas semanas, João Pedro Mattos Pinto foi baleado e morto durante uma operação policial, em São Gonçalo (RJ). João Pedro era um menino negro, de 14 anos, que brincava com primos e amigos dentro de casa. João Pedro tinha planos e sonhos para o seu futuro, que foram interrompidos de forma violenta por agentes policiais, gerando tristeza, indignação e revolta em sua família e em todos aqueles que acreditam e lutam por uma sociedade mais justa, mais igualitária e mais segura para todos e todas.
Lamentamos e nos indignamos com as mortes de João Pedro, George Floyd e das milhares de pessoas negras que vêm perdendo suas vidas ao longo dos anos, no Brasil e no mundo, por causa do racismo sistemático e estrutural, que atinge proporções pandêmicas. Além dos casos mais explícitos de violência policial, políticas públicas, como as de saúde, educação e moradia, também afetam de forma desigual a vida da população negra. No Brasil, o risco de morte por COVID-19 neste período de pandemia é 62% maior para pessoas negras [1].
O Laboratório Interagir [2], da Universidade Federal do Paraná, pesquisa e atua por meio de práticas para a promoção da convivência em espaços educacionais, para que se tornem cada vez mais seguros, onde todos e todas possam aprender e desenvolver seu potencial pleno. Para que todos e todas tenham o direito de crescer. E para isso, todos e todas precisam viver.
Por ser um fenômeno tão presente em nossa sociedade, a discriminação racial e seus efeitos no contexto educacional têm feito parte de muitas de nossas pesquisas e ações.
Verificamos, por exemplo, que experiências de discriminação no ambiente universitário, embora ainda pouco estudadas no Brasil [3], estão associadas ao comportamento de isolamento e menor ajustamento, ainda que o suporte social de amigos e familiares possa atenuar essa relação [4]. No ensino médio brasileiro, verificamos que a discriminação racial afeta o desempenho acadêmico, tanto em nível individual quanto da escola, mas que o efeito é menor em escolas mais diversas e que adotam mais práticas de educação para a diversidade [5]. E, embora a escola possa ampliar os danos do preconceito, fazendo com que estudantes negros e negras apresentem autoconceito cognitivo significativamente mais baixo que os demais estudantes [6], ela também pode ser um meio para aumentar o acesso à justiça e atenuar os efeitos da discriminação [7], sendo fundamental na formação das opiniões das crianças sobre instituições sociais [8].
Em 2017, colaboramos com a realização da primeira turma do Pré-Pós UFPR – Formação Pré-acadêmica Afirmação na Pós-graduação UFPR –, com o objetivo de contribuir para maior equidade e diversidade no acesso a programas de mestrado e doutorado. No ano seguinte, desenvolvemos o curso de aperfeiçoamento Aprendendo a Conviver [9], visando capacitar educadores para a prevenção da violência, preconceito e discriminação no ambiente escolar, a partir da perspectiva da educação em direitos humanos.
Portanto, assim como tantas outras pessoas que se revoltam com o racismo e toda forma de discriminação, estamos inconformados. E com nossa indignação, reforçamos nosso compromisso com o respeito às diferenças, a convivência e o desenvolvimento pleno de todas as pessoas.
Nas próximas semanas, dentro da proposta do Programa DIGA – que busca promover relações mais saudáveis nas escolas, famílias e comunidades – estaremos disponibilizando planos de ensino voltados à educação para a diversidade. Lançaremos, também, no portal UFPR Aberta [10], o módulo “Bullying, racismo e discriminação racial” do curso Aprendendo a Conviver [10], para aprofundar a reflexão e discussão sobre práticas educacionais antirracistas. Além disso, estamos planejando o desenvolvimento de um projeto para a melhoria da convivência e do clima escolar por meio de dados de avaliação, focando na promoção da equidade racial. A educação para a equidade racial pode contribuir para o acesso à justiça, e atenuar os efeitos devastadores do racismo. Porém, a escola também pode exacerbar esses prejuízos por meio de práticas injustas e desiguais.
Neste momento marcado pela intensificação de desafios e riscos para a população negra, todos nós que trabalhamos na área da educação precisamos pensar sobre nossas atitudes, nossas práticas, nosso ensino e nossas pesquisas: afinal, estamos contribuindo para as mudanças que a nossa sociedade precisa?
𝘎𝘳𝘶𝘱𝘰 𝘐𝘯𝘵𝘦𝘳𝘢𝘨𝘪𝘳
Subscrevem este manifesto:
𝘋𝘢𝘪𝘢𝘯𝘦 𝘚. 𝘝𝘢𝘴𝘤𝘰𝘯𝘴𝘦𝘭𝘰𝘴
𝘑𝘰𝘯𝘢𝘵𝘩𝘢𝘯 𝘉. 𝘚𝘢𝘯𝘵𝘰 (𝘜𝘯𝘪𝘷𝘦𝘳𝘴𝘪𝘵𝘺 𝘰𝘧 𝘕𝘦𝘣𝘳𝘢𝘴𝘬𝘢 𝘢𝘵 𝘖𝘮𝘢𝘩𝘢, 𝘌𝘜𝘈)
𝘑𝘰𝘴𝘢𝘧𝘢́ 𝘔. 𝘥𝘢 𝘊𝘶𝘯𝘩𝘢
𝘒𝘦𝘯𝘥𝘳𝘢 𝘛𝘩𝘰𝘮𝘢𝘴 (𝘜𝘯𝘪𝘷𝘦𝘳𝘴𝘪𝘵𝘺 𝘰𝘧 𝘐𝘯𝘥𝘪𝘢𝘯𝘢𝘱𝘰𝘭𝘪𝘴, 𝘌𝘜𝘈)
𝘓𝘰𝘳𝘪𝘢𝘯𝘦 𝘛𝘳𝘰𝘮𝘣𝘪𝘯𝘪 𝘍𝘳𝘪𝘤𝘬
𝘚𝘢𝘳𝘢𝘩 𝘈𝘭𝘪𝘯𝘦 𝘙𝘰𝘻𝘢
𝘝𝘪𝘵𝘰𝘳 𝘈𝘵𝘴𝘶𝘴𝘩𝘪 𝘕𝘰𝘻𝘢𝘬𝘪 𝘠𝘢𝘯𝘰
𝘔𝘪𝘤𝘩𝘢𝘦𝘭 𝘈𝘭𝘪𝘴𝘴𝘰𝘯 𝘊𝘳𝘶𝘻 𝘥𝘦 𝘍𝘳𝘦𝘪𝘵𝘢𝘴
𝘓𝘪𝘯𝘪𝘦 𝘔𝘢𝘤𝘩𝘢𝘥𝘰
𝘉𝘪𝘢𝘯𝘤𝘢 𝘕𝘪𝘤𝘻 𝘙𝘪𝘤𝘤𝘪
𝘊𝘪𝘯𝘵𝘪𝘢 𝘎. 𝘔. 𝘥𝘦 𝘊𝘢𝘳𝘷𝘢𝘭𝘩𝘰
𝘔𝘢𝘵𝘩𝘦𝘶𝘴 𝘥𝘰 𝘕𝘢𝘴𝘤𝘪𝘮𝘦𝘯𝘵𝘰 𝘉𝘢𝘵𝘪𝘴𝘵𝘢
𝘑𝘢𝘯𝘢𝘺𝘯𝘢 𝘈. 𝘥𝘰 𝘕𝘢𝘴𝘤𝘪𝘮𝘦𝘯𝘵𝘰 𝘥𝘢 𝘛𝘳𝘪𝘯𝘥𝘢𝘥𝘦
𝘏𝘦𝘭𝘭𝘦𝘯 𝘛𝘴𝘶𝘳𝘶𝘥𝘢 𝘈𝘮𝘢𝘳𝘢𝘭
𝘈𝘯𝘢 𝘊𝘳𝘪𝘴𝘵𝘪𝘯𝘢 𝘉𝘪𝘵𝘵𝘦𝘯𝘤𝘰𝘶𝘳𝘵
𝘙𝘦𝘯𝘢𝘵𝘢 𝘊𝘳𝘪𝘴𝘵𝘪𝘯𝘢 𝘥𝘰𝘴 𝘙𝘦𝘪𝘴
𝘌𝘭𝘪𝘴𝘪𝘢𝘯𝘦 𝘙𝘰̈𝘱𝘦𝘳 𝘗𝘦𝘴𝘤𝘪𝘯𝘪
𝘌𝘺𝘴𝘩𝘪𝘭𝘢 𝘎𝘪𝘰𝘷𝘢𝘯𝘯𝘢 𝘙𝘰̈𝘱𝘦𝘳 𝘗𝘦𝘴𝘤𝘪𝘯𝘪
𝘍𝘳𝘢𝘯𝘤𝘪𝘯𝘦 𝘗𝘰𝘳𝘧𝘪𝘳𝘪𝘰 𝘖𝘳𝘵𝘪𝘻
𝘕𝘢𝘵𝘩𝘢́𝘭𝘪𝘢 𝘚𝘢𝘷𝘪𝘰𝘯𝘦 𝘔𝘢𝘤𝘩𝘢𝘥𝘰
𝘎𝘪𝘰𝘷𝘢𝘯𝘯𝘢 𝘊𝘰𝘳𝘥𝘦𝘪𝘳𝘰 𝘚𝘢𝘭𝘵𝘰𝘳𝘪
--
[1] http://www.isc.ufba.br/em-sao-paulo-risco-de-morte-de-negros-por-covid-19-e-62-maior-em-relacao-aos-brancos/
https://saude.estadao.com.br/noticias/geral,em-sp-risco-de-morte-de-negros-por-covid-19-e-62-maior-em-relacao-aos-brancos,70003291431
https://www1.folha.uol.com.br/colunas/thiago-amparo/2020/04/por-que-a-covid-19-e-tao-letal-entre-os-negros.shtml
Goes, E. F., Ramos, D. de O., & Ferreira, A. J. F. (2020). Desigualdades raciais em saúde e a pandemia da Covid-19. Trabalho, Educação e Saúde, 18(3), e00278110. https://doi.org/10.1590/1981-7746-sol00278
[2] https://sembullying.com/interagir/
[3] Yano, V., & Cunha, J. M. (2018). Discriminação entre estudantes no ensino superior brasileiro: Uma revisão sistemática. In J. M. da Cunha, L. Z. de Oliveira, R. S. Kirchhoff (Org.). Educação e Interseccionalidades (pp. 117–136). Curitiba: NEAB-UFPR.
[4] Roza, S. A. (2018). O suporte social diante da discriminação e da vitimização na adultez emergente [Dissertação de Mestrado, Universidade Federal do Paraná]. https://hdl.handle.net/1884/55659
[5] Cunha, J. M. & Santo, J. B. (2020). School (socie)ties: Individual and School Level Differences in the Association between Ethnic Peer Victimization and Academic Functioning. Submetido para publicação.
[6] Batista, M. N., Cunha, J. M., Ricci, B. N., Vasconselos, D. S., Bittencourt, A. C., & Macedo, A. M. B. (2020). O autoconceito cognitivo de estudantes pretos(as) e pardos(as). Psicologia Argumento, 37(97), 299. https://doi.org/10.7213/psicolargum.37.97.AO01
[7] Thomas, K. J., Santo, J. B., & da Cunha, J. M. (2019). The predictive value of school climate and teacher techniques on students’ just world beliefs: A comprehensive Brazilian sample. Social Psychology of Education, 22(5), 1239–1257. https://doi.org/10.1007/s11218-019-09524-3
[8] Thomas, K. J., & Mucherah, W. M. (2018). Brazilian adolescents’ just world beliefs and its relationships with school fairness, student conduct, and legal authorities. Social Justice Research, 31(1), 41–60. https://doi.org/10.1007/s11211-017-0301-6
[9] https://conviver.sembullying.com/
[10] https://ufpraberta.ufpr.br/
http://sembullying.com/interagir/manifesto/
https://www.youtube.com/watch?v=MlqH2EQR2K8
Manifesto do Grupo Interagir pela equidade racial
https://sembullying.com/interagir/manifesto/