06/03/2026
Pedro velho
Pedro Velho era nome e destino. Um tropeiro de longa estrada, daqueles que conheciam os segredos do sertão como ninguém. Diziam que sua alma era feita de poeira e que seu coração batia no compasso dos cascos dos muares. Ao seu lado, sempre seguiam Ozório, Seu Dario e um violeiro cujo nome ninguém lembrava, mas cuja música ecoava pelas trilhas como prece antiga.
A tropa avançava devagar, carregando mantimentos, sonhos e histórias. E Pedro Velho, guiado mais pelo instinto do que pelo mapa, levava seus companheiros aonde o destino ordenava. Assim chegaram à fazenda Capão Alto, uma propriedade esquecida pelo tempo, com um velho casarão de janelas cerradas e mistérios trancafiados.
Os tropeiros pediram pouso, e o caseiro, um homem de olhos fundos e palavras medidas, assentiu com um aceno. Mas advertiu: "Aqui o tempo não passa como lá fora. Cuidado com o que escutam na noite, senhores."
Naquela madrugada, o violeiro, que nunca temia alma ou assombração, dedilhou um ponteado melancólico. De repente, um vento frio varreu o alpendre e as velas tremeram. A sombra de um homem apareceu na soleira. Não era ninguém que eles conhecessem, mas trazia nos olhos o cansaço de quem já havia tropeado demais.
Pedro Velho levantou-se devagar e encarou a aparição. Não precisou perguntar quem era. O homem, com voz arrastada, apenas disse: "Ainda sigo tropeando na solidão."
No dia seguinte, Pedro Velho acordou moço. Seu rosto, antes sulcado de anos de estrada, brilhava como o de um jovem tropeiro. Os outros o fitavam, incrédulos. O violeiro apenas sorriu e dedilhou sua viola, entoando um verso antigo sobre o tempo e o destino.
E, assim, a tropa partiu novamente, deixando para trás o casarão e sua cercania de escuridão. Mas todos sabiam: o tempo ali, de alguma forma, ainda tropeava entre assombros e lembranças.
Claudio Avanso