16/10/2024
CRISTINA GRAEML E A VITÓRIA DO BOLSONARISMO EM CURITIBA
Cristina Graeml é a franca favorita para ganhar a prefeitura de Curitiba em 27 de outubro de 2024. Há indícios de virou um movimento de rejeição a “tudo que está aí”, como o que aconteceu em 2018. Segundo a antropóloga Isabela Kalil, os eleitores que deram a vitória a Bolsonaro alegavam motivos muito diversos, por vezes contraditórios, para votar no candidato da extrema-direita.
Havia uma onda. Ela se forma de tempos em tempos, carrega muita revolta, destampa o verniz de felicidade que aparece nas pesquisas de aprovação de governos. Seja de forma estrutural, porque viver em sociedade produz um mal-estar, a autorrepressão cobra seu preço; seja de forma conjuntural, porque as notícias sobre o congresso, sobre os “políticos tradicionais”, eivados de interesses e corrupção, incomodam muito, há uma insatisfação latente.
A questão é que este incômodo com o estado de coisas não aparece, as pesquisas quantitativas não captam a disposição da população, sobretudo periférica, de afrontar tudo, de quebrar o sistema, incluindo suas estruturas democráticas. Quando o mal estar recaldado explode, vem como ondas como junho de 2013 e a eleição de Bolsonaro, em 2018.
Aconteceu também em Curitiba, uma vez, na eleição de 2000, quando uma onda quase levou Ângelo Vanhoni (PT), um azarão, à prefeitura. Do outro lado, um candidato com pouco carisma, vindo da máquina da prefeitura, ancorado em gestões bem avaliadas, Cássio Taniguchi. Eduardo Pimentel é a nova versão deste personagem.
Este ambiente já tem diagnósticos. Há trackings internos dos partidos que apontam Cristina na frente. O fechamento do primeiro turno, com o candidato incumbente na descendente e a desafiante na ascendente, praticamente empatados, aponta pra este quadro, como foi em 2000. A desafiante abriu vantagem. Pra piorar, é articulada e mente sem ruborizar.
Curitiba, caros e caras, está pra virar um laboratório de bolsonarismo. Em 1955, o candidato integralista Plínio Salgado venceu aqui na eleição para presidente da República (fez 8% no Brasil todo). Em 1958, foi eleito deputado federal pelo Paraná. Bolsonaro ganhou em Curitiba com 64,78% dos votos, ampla margem, em 2022.
É possível reverter o quadro? Difícil, mas sim. Mas é preciso que todas as forças democráticas se engajem pelo candidato do governador Ratinho Jr e do prefeito Rafael Greca, com um vice do PL. Sim, a escolha não é fácil, Eduardo acena para o bolsonarismo, disputa o título de candidato mais à direita. No contexto de Curitiba, não tem outra opção. Mas também tem marcado a diferença na questão do negacionismo científico, por exemplo.
Por fim, derrotar Cristina, hoje, é derrotar o bolsonarismo, algo que sabemos não pertencer o Bolsonaro e que vai mudar de nome dentro de alguns anos. A disputa é longa, perder Curitiba é retroceder algumas casa no tabuleiro da disputa política, na formação dos cidadãos. Imagine as escolas de Curitiba sob a gestão de Cristina; imagine a saúde nas mãos de uma antivax; imagine o transporte público sendo licitado por uma aventureira; imagine como será a relação com a imprensa.
Derrotar a extrema-direita e sua visão de mundo exige esforço, dentre eles não ser purista em política. O sistema oferece escolhas. Temos duas no momento, e elas não são, definitivamente, iguais.
Votar nulo é lavar as mãos, quando o retrocesso político está batendo nas nossas portas.
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