22/01/2025
Na América Latina, a palavra ‘deserto’ adquire conotações que vão além do geográfico-ambiental. Diversas noções de deserto influenciaram as definições político-ideológicas dos diferentes projetos coloniais e nacionais na região, desempenhando um papel central tanto nas crônicas coloniais quanto nas discussões relacionadas aos processos de consolidação dos Estados-nação. Além das características locais adquiridas por esse fenômeno, em todos os casos certos territórios foram vistos e conceituados como inóspitos e vazios não devido as suas condições ambientais, mas sim a rejeição de seus habitantes a modos de vida baseados na exploração capitalista dos recursos. Esses territórios, hostis a colonização, foram geralmente associados ao sombrio e ao selvagem, assim como a improdutividade e ao atraso. Estigmas que perduram até os dias atuais para justificar iniciativas político-econômicas de mapeamento e conquista territorial em nome da civilização, da razão e do progresso.
17/10/2024
Na América Latina, a palavra ‘deserto’ adquire conotações que vão além do geográfico-ambiental. Diversas noções de deserto influenciaram as definições político-ideológicas dos diferentes projetos coloniais e nacionais na região, desempenhando um papel central tanto nas crônicas coloniais quanto nas discussões relacionadas aos processos de consolidação dos Estados-nação. Além das características locais adquiridas por esse fenômeno, em todos os casos certos territórios foram vistos e conceituados como inóspitos e vazios não devido as suas condições ambientais, mas sim a rejeição de seus habitantes a modos de vida baseados na exploração capitalista dos recursos. Esses territórios, hostis a colonização, foram geralmente associados ao sombrio e ao selvagem, assim como a improdutividade e ao atraso. Estigmas que perduram até os dias atuais para justificar iniciativas político-econômicas de mapeamento e conquista territorial em nome da civilização, da razão e do progresso. O contexto atual, marcado por uma crise política e ecológica generalizada, colocou em destaque a discussão sobre os desertos, mostrando que eles constituem territórios humanos altamente dinâmicos e de grande vitalidade, atravessados por conflitos ideológicos, ontológicos e epistemológicos com os quais diversos atores que os habitam, transitam e/ou os conceituam tem que enfrentar. Este dossiê se propõe a mapear comparativamente essas ‘outras faces' dos territórios que tem sido habitualmente concebidos e/ou construídos como desertos na América Latina, reunindo textos que explorem etnograficamente como e até que ponto as ideias e práticas cotidianas daqueles que habitam esses espaços tensionam a distinção entre a vida e a não vida, o vazio e a abundancia, consideradas uma premissa pouco questionável em outros tipos de teorizações. Interessa-nos refletir de forma conjunta sobre o enredo superpovoado de ritmos, experiencias, ideias e histórias humanas e mais-que-humanas que constituem esses territórios, assim como sobre os efeitos antropológicos de estar, ou ter estado, neles.
14/03/2024
Venha publicar na Aceno!!!
26/02/2024
DOSSIÊ TEMÁTICO: Neoliberalismo e Sofrimento Psíquico (v. 11, n. 27, 2024)
Neste dossiê, partilhamos o pressuposto de que se pode caracterizar o neoliberalismo como um sistema normativo que têm modificado profundamente os modos de subjetivação e desenvolvido uma forma de política específica relativa à produção e à gestão do sofrimento psíquico, na medida em que submete os indivíduos a um regime de concorrência generalizada. Daí por que o presente dossiê pretende discutir essa complexidade que caracteriza a relação entre neoliberalismo e sofrimento psíquico. A escolha de discutir essa complexidade desde essa perspectiva se impôs à proposta como uma maneira de enfatizar o neoliberalismo como produtor e gestor do sofrimento psíquico, uma vez que o neoliberalismo não apenas produz o sofrimento como também o gerencia. Nesse sentido, pode-se também conceber o neoliberalismo, fundamentalmente, como uma forma de vida, a qual implica uma gramática de reconhecimento, assim como uma política voltada para o sofrimento, pois a forma de vida neoliberal não extrai apenas mais produção, como também mais gozo da experiência do sofrimento. Essa forma de vida tem como proposta um tipo de individualização cujo fundamento está no modelo da empresa: deve-se dirigir e avaliar a vida como se fosse uma empresa, o que pressupõe análises de riscos e tomadas de decisões baseadas em cálculos, isto é, uma administração de si. Neste dossiê, também pretendemos assinalar como o gerenciamento da vida subjetiva realizado pelo neoliberalismo envolve ainda uma íntima relação entre neoliberalismo e psiquiatria, no interior da qual a gramática do sofrimento psíquico passou por uma reformulação significativa. Considerando o seu contexto histórico, pode-se dizer que a natureza e a atividade da psiquiatria institucional têm passado por uma importante mudança.
Para a ementa completa do dossiê consulte o site da ACENO.
PRAZO FINAL DE SUBMISSÃO: 30 de maio de 2024
16/04/2023
A Aceno – Revista de Antropologia do Centro-Oeste (ISSN: 2358-5587– Qualis A2), publicação eletrônica semestral de caráter público, ligada ao Programa de Pós-Graduação em Antropologia da Universidade Federal de Mato Grosso, convida membros da comunidade acadêmica e pesquisadores a submeterem artigos ao dossiê temático Feitiços e Encantamentos do Contemporâneo, a ser publicado em sua edição de número 24 (v. 10, 2023), conforme proposta abaixo:
O feitiço é uma questão crucial para a realização da crítica da cultura por um viés materialista. Assumindo o lugar da coisa viva e pensante, os feitiços e as fantasmagorias assombraram e mobilizaram exercícios críticos, como aquele formulado por um curioso pensador alemão que partia do feitiço que sustenta uma religião sem possibilidade de expiação - o capitalismo - em busca da magia que assenta morada na linguagem. Neste dossiê convidamos pesquisadores/as a, em 2023, recolocar as inquietações formuladas por Benjamin - e por muitos outros, por muitas outras - é urgente. Sob a promessa da conectividade ilimitada, as redes sociais enfeitiçaram as subjetividades com fake news e teorias conspiratórias que parecem encurralar nossa experiência histórica nos becos do neofascismo vitaminado pelos algoritmos, radicalizando o sentido de uma condução coercitiva da vida social.
O propósito do presente dossiê é abrir uma fenda para a apresentação de pesquisas que coloquem em análise dinâmicas contemporâneas sob o signo do feitiço e do encantamento: trabalhos que tomem o desafio de analisar: 1. as ambivalências das redes: potência e disrupção, solidariedade, amizade, redes sociais; 2. a feitiçaria fascista e os encantamentos; 3. A relações ético-estéticas na coprodução de resistências, coemergências, insurgências; 4. Subjetividades resistentes, monstras, disruptivas, desviantes, contracoloniais, desobedientes, parentescos raros. Assim, convidamos os/as diversos/as pesquisadores/as da psicologia, ciências sociais, antropologia, saúde coletiva, dentre outros/as/es na coprodução deste dossiê.
PRAZO FINAL DE SUBMISSÃO: 30 de maio de 2023
Link na bio.
27/12/2021
Os Iny Karajá são um povo indígena habitante das margens do rio Araguaia, cujas mulheres são detentoras do modo de fazer das bonecas de cerâmica denominadas ritxoko. Este artigo tem por objetivo apresentar alguns dos primeiros resultados do projeto de pesquisa Presença Karajá: cultura material, tramas e trânsitos coloniais (etapa 1, 2017-2020), e algumas das questões conjunturais e epistemológicas que levaram à realização da Ação de Saúde Indígena Iny/Karajá durante da epidemia de COVID-19.
27/12/2021
Evidencia-se a existência da fronteira entre as noções do normal/anormal quando estas são pautadas por diferentes parâmetros e de forma isolada. Os dados técnicos científicos do corpo se tornaram imprecisos à observação/olhar dos pais e familiares; existiram diferentes soluções para a situação: de um lado o controle tecnológico mediado por exames, aparelhos e equipamentos – que fomentam o diagnóstico e prognóstico, com alto poder preditivo (LÖWY, 2017); de outro se arruma, se ajeita, se espera, se aceita – que provê meios naturais e imponderáveis. No entanto, para os saberes há certos limites, inclusive para o saber biomédico (intermediado pela tecnologia), nele não existem garantias e há casos, como o descrito abaixo, em que a realização de exames como ultrassonografias no período pré-natal se esbarraram nessas fronteiras, não identificando na gestação quaisquer alterações fetais.
27/12/2021
Evidencia-se a existência da fronteira entre as noções do normal/anormal quando estas são pautadas por diferentes parâmetros e de forma isolada. Os dados técnicos científicos do corpo se tornaram imprecisos à observação/olhar dos CRUZ, Gênesis Vivianne Soares Ferreira; BARSAGLINI, Reni. O corpo desviante 289 pais e familiares; existiram diferentes soluções para a situação: de um lado o controle tecnológico mediado por exames, aparelhos e equipamentos – que fomentam o diagnóstico e prognóstico, com alto poder preditivo (LÖWY, 2017); de outro se arruma, se ajeita, se espera, se aceita – que provê meios naturais e imponderáveis. No entanto, para os saberes há certos limites, inclusive para o saber biomédico (intermediado pela tecnologia), nele não existem garantias e há casos, como o descrito abaixo, em que a realização de exames como ultrassonografias no período pré-natal se esbarraram nessas fronteiras, não identificando na gestação quaisquer alterações fetais.
27/12/2021
As intervenções do Consultório na Rua e da polícia, ao se constituírem como agentes biopolíticos, mesmo sendo distintas em seus objetivos e práticas, produzem mecanismos de sujeição, pois procuram (re)organizar e gerir a corporalidade da população de rua no universo da Rodô. Esses mecanismos demarcam possibilidades de ser e estar das pessoas em situação de rua nas imediações da antiga rodoviária, podendo ser percebidos como instrumentos regulatórios nos quais esses sujeitos devem agenciar ao fazer uso da localidade. Outro elemento importante e que atuou de maneira significativa nas relações locais foi a cultura callejera. Ela assume um lugar importante nas tramas cotidianas daqueles que estão em situação de rua no contexto da “cracolândia campograndense”, onde o código estruturante que exerce uma coerção e orienta as ações das pessoas em situação de rua é o “respeito”. Este deve ser internalizado e performado pelos sujeitos nas relações com os grupos citados acima. São exemplos disso, as seguintes situações etnografadas: postura de Gerson frente ao comando; necessidade de se formalizar perante á polícia; ação de Jeferson em vigiar e punir aqueles que roubam nas imediações da antiga rodoviária; atuar, tal como Manu, tanto de maneira afável junto aos “parceiros” quanto de maneira viril para com os homens.
27/12/2021
O modo de subjetivação atravessado pelo discurso religioso foi marcante para que Marcos moldasse o seu estilo de vida nos diversos segmentos sociais. Uma dessas marcas foi estabelecer dois mundos paralelos: um mundo familiar, com amigos da Igreja, com disciplina, assujeitamento e programação da vida: “A pessoa deveria crescer, casar, ter filhos... É esse parâmetro que eles têm, né? É o parâmetro da cobrança social que eles têm muito forte, que é o homem crescer, casar com uma mulher e ter filhos”; e um outro mundo, caracterizado por acontecimentos marcados pelo acaso, possibilidades, incertezas, enfrentamentos e construções de estilos de existência e expressão de diversos olhares para as questões emergentes das práticas sociais.
27/12/2021
Quando reflito sobre as (im)possibilidades de pessoas trans exercitarem a espiritualidade daimista, me refiro aos relatos de situações em que essas pessoas são constrangidas e/ou forçadas a integrar um “batalhão” que não condiz com sua identidade de gênero. Deste modo, me ponho a questionar tais (im)possibilidades desse público como praticantes (“fardantes”/”fardados”) ou simpatizantes desta doutrina. Nas igrejas marabaenses, estas “possibilidades” estão pautadas na “passabilidade de gênero” que está relacionado à leitura social que as pessoas fazem dos corpos trans. Corpos trans existem e devem ser respeitados nas suas pluralidades, entretanto, muitas iniciam procedimentos hormonais e utilizam instrumentos que estão para além de parecerem mulheres ou homens “de verdade”. A “passabilidade” é por si um tanto problemática, pois reforça a obrigatoriedade de expressões de gênero binárias.