Nilza Barbosa: a professora que transformou a dificuldade em oportunidade
Idealizadora do projeto Troca de Livros, criado em 1992 e que mantém hoje duas bibliotecas comunitárias no bairro da Liberdade e na Lapinha, foi responsável também pela criação da ONG Centro Sociocultural Livro é Vida. A entrevista vip desta semana é com um exemplo de superação, a professora Nilza Barbosa. Portal Mais Bahia – Professora Nilza, quando e como começou a ideia do projeto de Troca de Livros? Nilza Barbosa – A palavra dificuldade foi transformada em criatividade e oportunidade. Eu era professora de escola pública e trabalhava com reforço escolar e descobrir que dentro desse reforço sobravam muitos livros e que a escola pública não distribuía livros aos alunos. Então, comecei a fazer a troca dentro do reforço e no ano seguinte levei essa ideia aos poderes públicos e tive certa dificuldade, pois algumas pessoas não acreditavam na proposta, mas diante disso não desistir e comecei a divulgar na comunidade. A receptividade foi muita boa e o projeto cresceu. MB – O projeto Troca de Livros também atua na ‘distribuição de livros’? Fazemos distribuições pontuais em alguns lugares da cidade. Mas no dia a dia, fazemos a troca por um custo menor, porém, os livros muito procurados, mas em números reduzidos nas bibliotecas, nós não vendemos e sim emprestamos. MB – A senhora aceita doações? NB – Com certeza. Podem levar na Rua Lima e Silva nº 14 , Lapinha – Liberdade. Além de livros, quem tiver ‘estantes’ para serem doadas também seria ótimo, pois alguns de nossos livros ficam no chão. MB – Professora, a senhora também mantém uma ONG. Como funciona? NB – O Centro Sociocultural Livro é Vida surgiu através do projeto troca de livro. Eu consegui construir o espaço em cima da minha casa onde funciona uma biblioteca e meu sonho é colocar uma escola de música. Já temos alguns instrumentos, mas precisamos manter e melhorar a estrutura física. MB – A senhora mora até hoje na Liberdade. O bairro é uma paixão pessoal? NB – Eu eduquei meus filhos, eu cresci e venci dentro da Liberdade. Eu tento retribuir e trabalhar pela comunidade que me ajudou. MB – O Brasil precisa de mais bibliotecas? Infelizmente, as cidades constroem muitos empreendimentos de luxo, mas ninguém se preocupa em construir uma biblioteca. MB – Em algumas entrevistas anteriores, a senhora diz que sua casa é um país, pois tem 18 irmãos. A educação sempre foi prioridade na sua família? Hoje em dia, os que estudaram tem uma melhor condição do que os que não estudaram, porém nenhum tem problema social, pois tivemos uma educação ímpar. Minha família sempre foi humilde, mas vivia com dignidade e feliz. O conceito de felicidade não pode se resumir em “ter’. MB – É verdade que a senhora teve 80% do corpo queimado num acidente doméstico em Candeias? Poderia nos contar? NB – Essa queimadura veio para me engrandecer. Eu tinha 5 anos quando aconteceu esse acidente doméstico. Minha mãe foi trabalhar e deixou uma menina tomando conta da gente e no domingo a mãe dessa menina foi buscar o pagamento. Essa senhora, que fumava ca****bo, virou o candeeiro na máquina de álcool para manter a chama do ca****bo, e então aconteceu a explosão. Quando foram apagar o fogo me acharam caída no chão. Fiquei 1 ano e 8 meses na Sagrada Família com minha mãe. MB – A senhora sofreu algum tipo de preconceito na escola por conta das queimaduras? NB – Muito. Meus colegas de escola não queriam sentar do meu lado e a professora não ajudava, pelo contrário até incentivava o preconceito. Mas eu sempre me superava estudando mais e tirando notas altas. MB – E seus filhos, são todos apaixonados por Educação assim como a mãe? Meus filhos sempre estudaram em escolas públicas. Eu tenho filho Tenente da Polícia Militar, Secretaria Executiva, Professor de Matemática, Engenheiro e inclusive, uma filha Cientista que recebeu premio na Holanda por pesquisas na área de nanotecnologia. MB – A senhora poderia deixar uma mensagem para os nossos leitores? NB – Amar o próximo de verdade sem pensar no retorno. A imagem pode conter: 1 pessoa