25/05/2025
O PROBLEMA, DOUTRINAS, SOLUÇÕES
✅ P. 17-18: Até o século XVIII, o tupi era mais falado do que o português em certas regiões do Brasil. Porém, com as políticas do Marquês de Pombal de expulsão dos jesuítas e aportuguesamento do território brasileiro, em 1757 se proibiu o uso da língua geral (idioma derivado do tupi e de outras línguas indígenas com elementos do português), de modo que o português se torna a língua oficial usada no país — seja em escolas, seja nos demais órgãos oficiais de comunicação e administração. Com a vinda de colonos portugueses e a expansão territorial por meio dos bandeirantes e fazendeiros, a língua portuguesa se expandiu ainda mais.
No entanto, diz Gladstone Chaves de Melo (GCM) sobre os brasileiros que adotaram de vez o novo idioma: "Naturalmente não puderam dominar todo o mecanismo e todas as sutilezas deste; antes, aprenderam-no mal, desfigurando-o com uma série de defeitos provenientes dos antigos hábitos linguísticos. Agora, pelo tempo adiante, as gerações sucessivas foram perdendo esses defeitos iniciais...".
Visto ser o Brasil um país miscigenado (branco, preto, índio), os indivíduos negros também se encontravam na mesma condição acima, isto é, o português falado pelos negros foi alterado pelas marcas dos seus anteriores hábitos linguísticos. GCM pontua algo interessante dentro desse cenário de formação do português brasileiro: "... não se pode esquecer o papel... das mucamas e mães-pretas, que criavam e ensinavam a falar os 'sinhozinhos'".
Com o tempo, obviamente apareceram os elementos linguísticos unif**adores: "as ondas linguísticas oriundas da metrópole, o meio mais culto, as escolas, a língua escrita e o contato com pessoas instruídas".
Assim GCM conclui a sua introdução, levantando a questão central do seu livro:
"Pois bem: o português, transplantado, sofreu um rude abalo. Passou por vicissitudes mil, decorrentes das condições históricas, sociais e geográf**as da formação brasileira, sofreu a concorrência do tupi, foi altamente deturpado na boca de índios e mamalucos, e na boca dos pretos, ficou ilhado em muitos pontos do território nacional, que se imunizaram do bafejo civilizador. Mesmo depois que reagiu e se adaptou às novas condições de vida, mesmo depois que foi tonif**ado pelas injeções de sangue novo, as levas de emigrantes lusos que, sucessivas, buscavam a Colônia, mesmo depois que se pôde acastelar na língua escrita, teve de ser usado por um povo que já tinha outra afetividade que não a portuguesa, outro espírito nacional, outra maneira de sentir e interpretar a vida.
Pergunta-se: esta série de abalos que sofreu, sob os céus americanos, o velho idioma do Condado Portucalense determinou a formação de um tipo linguístico novo e diferente, ou apenas condicionou divergências acidentais que não permitem o reconhecimento — com honestidade intelectual — de uma 'língua brasileira', senão apenas o de um 'aspecto brasileiro' da língua portuguesa? Eis o problema."
✅ P. 19-21: Tratando do tema "A 'Língua Brasileira': posições doutrinárias", GCM aborda alguns pontos interessantes, como o "biologismo linguístico", ou simplesmente a doutrina da evolução linguística — a de que uma língua deriva de outra que deriva de outra, e por aí vai.
GCM diz que há dois grupos interessados no tema da "língua brasileira": "uns afirmam a unidade linguística entre o Brasil e Portugal" e "outros defendem a todo transe uma completa ou, ao menos, relativa independência linguística".
Sobre esses últimos, que perduram até hoje, GCM cita Monteiro Lobato: "Assim como o português saiu do latim, pela corrupção popular desta língua, o brasileiro está saindo do português. O processo formador é o mesmo: corrupção da língua-mãe. A cândida ingenuidade dos gramáticos chama corromper ao que os biologistas chamam evoluir".
GCM diz ser essa a visão da vasta maioria dos que postulam a "língua brasileira" como idioma autônomo, diferente da língua portuguesa. "Porém, nada mais falso", diz ele, para em seguida revelar duas fontes que analisam e refutam o raciocínio contido nas palavras de Monteiro Lobato: Serafim da Silva Neto e Sílvio Elia (este, no livro "O Problema da Língua Brasileira" e aquele num artigo de 1936 no jornal "Voz de Portugal").
Afirma GCM ser a afirmação de Lobato ponto inteiramente superado, "hoje é fossilíssimo cultural". E cita alguns linguistas que acreditavam na evolução da linguagem como um processo de seleção natural, em que alguns elementos vão sendo superados por outros quase que espontaneamente, como se a língua fosse um organismo biológico. Porém, isso foi contestado por outros tantos linguistas que abordavam a linguagem como um fenômeno cultural e psicológico. A língua passou a ser estudada tanto em seu aspecto social (coletivo) quanto em sua dimensão individual, reconhecendo que mudanças linguísticas não são apenas processos naturais, mas também frutos das relações culturais, da intervenção, da vontade humana.
Em outras palavras, o "processo que determinou a fragmentação da unidade latina não foi a evolução biológica, mas o desmoronamento da cultura romana e o caos subsequente", de modo que, segundo Antoine Meillet, citado por GCM, "as leis nos mostram possibilidades e não necessidades. Nunca poderemos prever o que serão as línguas daqui a 100 ou 200 anos!".
As profecias em Linguística são impraticáveis. Portanto, os que costumam apregoar que a "língua brasileira" existe como derivada do Português e que, portanto, este será substituído em algumas décadas pelo "Brasileiro" advoga uma crença insustentável.
Com todas as letras, GCM se posiciona, baseado nas evidências científ**as trazidas por ele à tona: "... o argumento que insiste na separação 'necessária' entre o brasileiro e o português não é sério, não merece maiores atenções".
✅ P. 22-28: GCM separa os advogados da "língua brasileira" em mais grupos, além dos linguistas biologistas já superados: os vocabulistas, os nacionalistas, os sentimentalistas.
Os vocabulistas são os "mais ingênuos", pois acreditam que o fato de brasileiros e portugueses nomearem certas coisas e objetos com diferentes palavras lexicográf**as — verbos ou nomes (substantivos, adjetivos, advérbios) — implica a existência de duas línguas autônomas, o que certamente não faz o menor sentido, pois essa distinção lexicográf**a existe em todas as línguas — espanhol, inglês, francês, etc. Portanto, se em Portugal se pega um "comboio" e no Brasil se pega um "trem", isso é completamente indiferente para o sistema da língua. As palavras mais importantes, que realmente distinguem uma língua da outra, não são as "lexicográf**as", e sim as "gramaticais" (as de classe fechada, como o artigo, o pronome, a preposição, a conjunção). E, nesse caso, tanto o Brasil quanto Portugal dividem as mesmíssimas palavras. Conclusão: não podem ser línguas diferentes, pois, se essa distinção vocabular justif**asse a existência de línguas diversas, haveria línguas diferentes em cada uma das 5 grandes regiões do Brasil, quiçá entre estados da mesma região.
GCM ilustra essa questão de um modo bem interessante:
"A girl flertava com um play-boy no hall.
Todos convirão tranquilamente que a frase é portuguesa, está escrita em português, sem embargo de suas palavras lexicográf**as serem todas inglesas. E por que está escrita ela em português? Exatamente porque sua estrutura é portuguesa, como f**a evidenciado por serem portuguesas suas palavras gramaticais e seus morfemas: a, -ava, com, um, em, o. Temos, pois, que as palavras gramaticais ou estruturais caracterizam a língua, ao passo que as lexicográf**as a compõem ou a enriquecem."
Já os nacionalistas, os apologistas da "língua brasileira", são aqueles de sentimento nacional exacerbado, que — em nome de uma defesa esdrúxula separatista, com verniz de factualidade — extrapolam a sensação de pertencimento a um vínculo histórico, espiritual, cultural e, sobretudo, afetivo, comungando língua, raça, religião, música, comida, território e todo tipo de elemento que configura uma ligação, uma identidade nacional.
O fantasma colonialista do português opressor se torna arma no discurso ideológico nacionalista. Segundo GCM, subjacente a isso, "há um ressentimento, um recalcado complexo de inferioridade", como se o brasileiro precisasse se libertar desse falso espantalho que nos afasta da realidade nacional, prendendo-nos como visgo aos moldes do colonizador. Essa visão de mundo é irrealista, pois já temos vastíssima literatura e identidade linguística nacional estabilizada, cuja variedade da língua portuguesa se chama "português brasileiro", de modo que qualquer agressividade antilusitana (direta ou indireta) é injustif**ada. Vez ou outra esse fantasma volta à tona, por meio de artigos aqui e ali, documentários aqui e ali...
O perigo do nacionalismo também afetava/afeta os puristas — caçadores de anglicismos, galicismos e afins.
GCM chega a comentar que houve projeto de lei para tornar a "língua brasileira" a língua dos brasileiros, lá pela primeira metade do século XX, citando alguns nomes por trás disso, como Frederico Trotta, Herbert Parente Fortes, Plínio Salgado, que, segundo GCM se enquadram na categoria de pessoas com um "idealismo radical, que leva os fiéis a cuidar menos da realidade do que da projeção do espírito sobre ela" — ou seja, há pessoas que acreditam mais na verdade retórica de sua mundividência do que da verdade empírica.
GCM critica a exacerbada visão nacionalista que questiona o fato de o Brasil, um país muito maior que Portugal, ter a mesma língua do antigo colonizador, como se Portugal a impusesse ao Brasil. O autor argumenta que essa questão deve ser analisada de forma objetiva e científ**a, não com base em sentimentos nacionalistas.
Ele compara esse raciocínio com a expansão do latim pelo Império Romano, mostrando que a adoção de uma língua não depende apenas do tamanho do território ou da população. Além disso, aponta que tanto portugueses quanto brasileiros cometem erros ao lidar com as diferenças linguísticas. Os portugueses, segundo o autor, tendem a menosprezar as variantes do português falado no Brasil, considerando-as meros "crioulismos", sem perceber que muitas delas são arcaísmos preservados ou evoluções naturais da língua. Também critica o fato de que filólogos portugueses desconhecem ou rejeitam estudos brasileiros: como exemplo, menciona obras portuguesas que não levam em conta as contribuições de linguistas brasileiros renomados, o que resolveria muito dos atritos existentes entre os povos e esclareceria que há muito mais o que nos une do que o que nos separa.
Finaliza assim GCM:
"Urge remover as dificuldades, esclarecer as causas e pôr fim a esse estado de coisas... É necessário que brasileiros e portugueses nos entendamos profundamente e trabalhemos de concerto pela preservação da bela língua literária e pelo engrandecimento sempre crescente da Linguística e da Filologia Portuguesa, que é deles e que é nossa."
✅ P. 28-34: Debaixo do tópico "Princípios de solução", GCM aborda o (I) "conceito de unidade linguística", (II) "o problema em termos sociológicos" e conclui sua argumentação sob a pergunta (III) "qual seria a 'língua brasileira'?".
I. GCM argumenta que os apologistas da "língua brasileira" precisam conceituar o que é "unidade linguística". Segundo o autor, "esse conceito é fundamental, pois, como pode alguém decidir se a língua do Brasil e a de Portugal são duas línguas, ou apenas dois aspectos da mesma língua, se não sabe definir 'unidade linguística'?".
GCM passa, então, a definir "unidade linguística" para evidenciar a inexistência da suposta "língua brasileira".
Diz ele que, a despeito de sua natureza essencialmente variável e instável, há forças unif**adoras, de modo que "uma língua se enquadra na conceituação genérica de 'variedade na unidade'". Afinal, se esmiuçássemos "ao extremo a análise das diferenciações linguísticas", encontraríamos diversas línguas individuais (o que chamamos idioletos).
Recorrendo aos conceitos saussurianos de langue e parole, GCM nota que a definição de uma língua está condicionada a um corpo social que adota uma linguagem em comum para se comunicar. Os aspectos linguísticos característicos de uma língua a delimita como tal e a distingue das demais.
Um desses aspectos são os dialetos, ou seja, os modos regionais de falar uma língua (variação diatópica) e também as gírias (socioletos).
Os dialetos são inconscientemente assimilados, pois que são recebidos naturalmente dos pais, parentes e vizinhos da mesma região dialetal, de modo que o indivíduo "cresce falando com sotaque característico e acento peculiar, usando termos e construções regionais, sem dar por isso".
Já as gírias são uma característica consciente, porque criam um senso de grupo social em que se criam "novas palavras e atribuem-se às já existentes valores semânticos especiais". Em seguida, GCM fala dos tecnoletos, tratando-os como uma espécie de gíria, de grupos sociais de especialização científ**a — a linguagem própria, o jargão, usada por médicos, advogados, professores, economistas, jornalistas, etc.
GCM aponta um terceiro aspecto linguístico bem definido: a língua-comum ou coiné — um uso da língua considerado "instrumento geral de comunicação, a todos inteligível, a todos dirigido, destinando-se a qualquer região, em qualquer tempo", por isso é "suprarregional e acrônica". Endereçada a todos os homens duma nação, "tem de ser clara, regulamentada, conservadora" — em geral, essa coiné advém do dialeto social dos grandes centros urbanos, devido ao alcance que esse dialeto adquire socialmente. É por isso que tal língua é empregada nos textos de cunho legislativo, jurídico, administrativo.
Uma vez estabelecida essa língua-comum, passa a enriquecer-se naturalmente, pelos usos do povo, e artificialmente, pelos usos dos que lidam diariamente com o manejo da língua: escritores, oradores, jornalistas, conferencistas, professores... "Portanto, a coiné se superpõe às variantes dialetais e grupais de uma língua, mas delas também se influencia enriquecendo-se".
De maneira cristalina, constata e atesta GCM: "A expressão concreta da coiné é a LÍNGUA ESCRITA".
Em seguida cito GCM na íntegra — como ele cita Meillet, em francês, tomei a liberdade de usar a tecnologia da tradução para o português a fim de revelar o dito a todos que me leem:
"Há por parte de muitos linguistas e estudiosos de questões linguísticas desconfiança e desprezo da língua escrita. Porém, não existe razão para tal, uma vez que, na maioria dos casos — e é certamente o nosso —, a língua escrita comum se funda na coiné, ou melhor, é a mesma coiné. Serve, pois, de ponto de referência, de estalão da unidade linguística.
Lembrem-se, a propósito, estas justíssimas palavras de Meillet: "Acontece, como é habitual hoje na maioria dos povos da Europa, que a língua literária seja uma forma normalizada da fala corrente; a língua literária oferece, então, uma ideia aproximada dessa fala, e as particularidades que se podem observar sobretudo nos escritores relativamente pouco letrados frequentemente fornecem um vislumbre, ao menos parcial, do uso ordinário"... "Por sua natureza, as línguas literárias distinguem-se das falas usuais e populares. Mas têm sobre estas a vantagem de oferecer formas fixadas, das quais aqueles que as empregam tomaram consciência". (Aperçu d'une histoire de la langue grecque. 5.ème édition, r***e et corrigée. Paris, s/d, p. 114). E mais adiante: "Há hipocrisia no desprezo dos linguistas pelas línguas literárias" (p. 115). E ainda: "Aliás, o papel das línguas literárias na evolução das línguas não é desprezível. Sem dúvida, as línguas literárias não permitem observar as inovações espontâneas; elas apresentam apenas as consequências fixadas dessas inovações, às vezes muito tempo depois do momento em que ocorreram as mudanças. Mas é frequentemente na forma que aparece fixada nas línguas literárias, ou pelo menos em uma forma modif**ada por elas, que repousam as evoluções linguísticas posteriores" (p. 116).
A citação foi longa, mas faz ao caso. E note-se que Meillet se refere pròpriamente às línguas literárias e não à lingua escrita comum."
Destaco a força das palavras do linguista francês sobre uma parte dos linguistas que lidam com o tema da norma: "Há hipocrisia no desprezo dos linguistas pelas línguas literárias".
Sobre essas citações de Meillet, recomendo muito a leitura do breve e esclarecedor artigo do linguista brasileiro Ricardo Cavaliere: "O corpus literário na tradição gramatical brasileira"...............
Atenção!
Adendo meu baseado em outras leituras de textos de Gladstone Chaves de Melo, como o texto "A lição dos textos e as normas gramaticais": a norma verdadeiramente culta não é simplesmente a coiné (a norma corrente, supradialetal), e sim a estilização da coiné, da qual deriva a norma-padrão, isto é, a norma contida nas gramáticas normativas tradicionais, que vai servir de norma de referência a ser empregada em situações especiais de comunicação, normalmente em situações com maior grau de formalidade ou cuidado com a língua...............
Sobre a "unidade linguística", GCM conclui dizendo que a unidade linguística obviamente reside na coiné (na língua comum a todos), e não nos dialetos ou nas gírias, de modo que bate o martelo: "duas regiões, dois países, dois agrupamentos de homens possuem a mesma língua quando sua coiné é a mesma". Visto que a concretização, a estratif**ação da coiné é a língua escrita formal, e essa "mesma língua escrita é naturalmente compreendida por dois povos, estes falam a mesma língua", porque "um e outro se sente diante da sua língua".
✅ P. 35-38: II. Após analisar o problema da "língua brasileira" de um ponto de vista estritamente linguístico, vejamos agora os apontamentos de GCM quanto ao "problema em termos sociológicos".
Segundo o autor, é impossível refletir sobre a identidade linguística sem levar em conta o conceito de cultura, entendido por ele como "o conjunto de estilos de vida, quer materiais quer espirituais, isto é, 'a religião, as ciências, as artes, as leis e os costumes [que] formam esta atmosfera quente e luminosa em que as almas encontram alimento, força e vida'". Ainda segundo ele, "um dos elementos mais importantes de uma cultura é a língua", por isso existe "estreitíssima relação entre o destino das línguas e o destino das culturas". Como argumento, diz que a sociedade romana se desintegrou e com ela o latim, dando lugar às línguas neolatinas. Como acreditava ser majoritária verdade, GCM entendia que "unidade de cultura, unidade de língua".
Como o livro trata da língua do Brasil, o autor correlaciona esse raciocínio ao caso do nosso país, indicando que a nossa cultura é essencialmente portuguesa (religião, arquitetura, culinária, literatura), ou seja, apesar das influências indígena e africana, a formação da nossa cultura é majoritariamente lusitana, sobretudo a linguístico-literária.
Diz GCM que, antes da Segunda Guerra Mundial, em que os EUA saíram vencedores e passaram a influenciar fortemente a cultura brasileira, a formação da nossa elite intelectual era "francamente europeia, em quase todos os domínios da atividade mental".
Devido a sua constituição cultural fortemente fundamentada na herança portuguesa, "não seria normal que o Brasil tivesse conservado a cultura luso-europeia e criasse, paralelamente, uma língua própria", porque "a unidade de cultura provoca e sustenta a unidade de língua", de modo que "posto o problema em equação sociológica, a solução é favorável à unidade linguística entre Brasil e Portugal", sobretudo por causa dos laços ainda hoje indissociáveis, de intercâmbio globalizado provocado pelas emigrações e pelas redes sociais entre brasileiros e portugueses.
✅ P. 38-40: III. Em conclusão, GCM responde à questão de "qual seria a 'língua brasileira'?" valendo-se de dois argumentos que nos levam a refletir, a saber:
1) Não é coerente considerarmos as diferenças dialetais entre o PB e o PE como determinantes para a formação de línguas independentes, uma vez que igualmente teríamos de considerar como línguas diferentes os dialetos do Nordeste, do Sul, do Centro-Oeste, do Norte, do Sudeste. Não obstante, ainda que haja formas variantes entre países e variantes entre regiões dos países em que se fala a mesma língua, deve-se tomar como base a coiné, a língua comum, a norma-padrão derivada dos textos escritos nesse idioma para definir que a língua usada no Brasil e a língua usada em Portugal (sem falar no português africano) SÃO A MESMA LÍNGUA, cada uma com suas peculiaridades.
GCM cita Matoso Câmara Jr, o qual, com o seu bom senso característico alerta para algo bastante sério e preocupante (creio que a motivação de suas palavras tenham sido os caprichos e abusos de certos escritores modernistas, quiçá de certos linguistas): "Daí, o erro das modernas tentativas, felizmente esporádicas, no sentido de cortar os laços da nossa língua literária com a tradição portuguesa dalém-mar, a fim de fazer surgir novos padrões escritos, assentes na língua cotidiana: oscila-se, perigosamente, entre os falares regionais e a gíria popular, num duplo atentado à coesão linguística nacional e às exigências da cultura coletiva".
2) GCM cita um autor patrício, sem identificá-lo: "à medida que se vão melhor conhecendo a língua arcaica e os dialetos portugueses, diminui o número dos brasileirismos".
Assim, é incoerente dizer que existe uma "língua brasileira", distinta da língua usada pelos portugueses, porque os supostos brasileirismos são nada mais senão arcaísmos conservados, ou seja, usos linguísticos puramente português antigo, a saber: "o pronome ele em função acusativa, a liberdade na colocação dos pronomes, a preposição em na regência de complementos dos verbos de movimento, o lhe como objeto direto etc.". Em dialetos portugueses, ainda hoje, se encontram em terras lusas traços da pronúncia presentes na variedade brasileira: "andaro, fizero, buscaro, por andaram,