31/01/2019
No comecinho dos anos 1960, uma canção ecoou nas rádios e televisões brasileira e fez um presidente de curtíssima duração: “Varre, varre, vassourinha!/ Varre, varre a bandalheira!/ Que o povo já 'tá cansado/ De sofrer dessa maneira/ Jânio Quadros é a esperança desse povo abandonado!/ Jânio Quadros é a certeza de um Brasil moralizado!”. Mas, enfim, todas as eleições têm seus jingles de campanha, Na última, por exemplo, o de maior sucesso foi “Alô criançada, o Bozo chegou!/ Trazendo alegria pra você e o vovô! Estamos trazendo muito amor! (N. do A.: NÃO)/ Um, dois, três, e vamos nós!/ Sou o palhaço, meu nome é Bozo!/ Bozo! Bozo! Vamos brincar!/ Sempre rindo, eu e você! (N. do A.: EU NÃO)/ Eu sou o Bozo, o palhaço de todos vocês!” (N. do A.: MEU NÃO). JQ veio depois de JK, mas, ao contrário de seu antecessor, era um candidato de oposição num país que elegia pleito após pleito os herdeiros de GV e deixava sempre de pincel na mão os oposicionistas, especialmente um certo CL. Em 1960, entretanto, o processo eleitoral era diferente: não havia segundo turno e também não se escolhia uma chapa, ou seja, o presidente e seu vice eram eleitos separadamente. Portanto, encontros insanos poderiam ter lugar. Seria como, no tempo presente, eleger Dilma Rousseff para a cadeira presidencial e Michel Temer para a vice-presidência. Ainda bem essas coisas não acontecem mais e escolhemos um par de candidatos alinhados em propostas e que não ficam se contradizendo em praça pública. Para assumir o cargo de presidente em 31 de janeiro de 1961, Jânio derrotou seus dois adversários com tranquilidade: dos 12.586.354 votos contabilizados, JQ somou 5.636.623. Uma lavada! Para lograr tamanho êxito, baseou sua campanha em promessas de combater sem trégua a corrupção e equilibrar as contas públicas, abaladas pelos excessos desenvolvimentistas de JK. Mas o maravilhoso mundo das promessas brasileiras é uma saga que se repete. E, desta feita, bastaram sete meses para virarem pó entre descumprimentos (política brasileira sem corrupção não existe, amiguinhos. Desistam de acreditar nisso!) e atitudes no mínimo excêntricas, tais como tornar ilegal a rinha de galos, condecorar Che Guevara com a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul e proibir o biquíni em concursos de beleza e o lança-perfume em bailes de carnaval. Mas sejamos justos: nem tudo foi excentricidade. Houve ousadia. Afinal, em tempos de recrudescimento da Guerra Fria, Jânio implementou a chamada Política Externa Independente (PEI), que avisava ao mundo que o Brasil não se alinharia nem aos Estados Unidos nem à União Soviética, com direito à críticas públicas à invasão da Baía dos Porcos. Mas isso só contribuiu para sua rápida derrocada. Assim como hoje, o Brasil era baita lambe-botas dos EUA e nossos congressistas, em geral, desejavam que assim continuasse. O canto do cisne para Jânio foi a resolução que anulava as autorizações ilegais outorgadas a favor da empresa norte-americana Hanna Mining Co. e restituía as jazidas de ferro de Minas Gerais à reserva nacional em 21 de agosto de 1961. Quatro dias depois, sob pressão de ministros militares (não me diga!), viria a renúncia. “Desejei um Brasil para os brasileiros, afrontando, nesse sonho, a corrupção, a mentira e a covardia que subordinam os interesses gerais aos apetites e às ambições de grupos ou indivíduos, inclusive, do exterior. Forças terríveis levantam-se contra mim, e me intrigam ou infamam, até com a desculpa da colaboração. Se permanecesse, não manteria a confiança e a tranquilidade, ora quebradas, e indispensáveis ao exercício da minha autoridade”, afirmava em sua carta oficial de despedida. Dizem por aí que JQ pretendia que sua renúncia fosse revertida através do clamor popular. Mas não houve clamor popular para o homem que limitou a diversão de tantos brancos de família e ainda condecorou revolucionário comunista. O que viria a seguir fez do Brasil uma ditadura entreguista de 21 anos, que muitos abilolados de WhatsApp querem ter de volta e estão quase conseguindo.
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