Prof. Me. Alessandro Bracht - Aulas particulares de História

Prof. Me. Alessandro Bracht - Aulas particulares de História

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O ensino personalizado apresenta-se como alternativa viável e asseguradora de êxito na muitas vezes complicada missão de ser aprovado em História.

Enquanto disciplina, a História tem se mostrado a cada dia que passa mais necessária. Compreender o que acontece ao nosso redor, especialmente em seus aspectos políticos e econômicos, é uma missão complexa e que exige muita dedicação. Foram-se os tempos em que as passagens de “Idades” soavam como a abertura de uma janela em determinado dia a partir da qual o observador admirava um mundo novo sem r

31/01/2019

No comecinho dos anos 1960, uma canção ecoou nas rádios e televisões brasileira e fez um presidente de curtíssima duração: “Varre, varre, vassourinha!/ Varre, varre a bandalheira!/ Que o povo já 'tá cansado/ De sofrer dessa maneira/ Jânio Quadros é a esperança desse povo abandonado!/ Jânio Quadros é a certeza de um Brasil moralizado!”. Mas, enfim, todas as eleições têm seus jingles de campanha, Na última, por exemplo, o de maior sucesso foi “Alô criançada, o Bozo chegou!/ Trazendo alegria pra você e o vovô! Estamos trazendo muito amor! (N. do A.: NÃO)/ Um, dois, três, e vamos nós!/ Sou o palhaço, meu nome é Bozo!/ Bozo! Bozo! Vamos brincar!/ Sempre rindo, eu e você! (N. do A.: EU NÃO)/ Eu sou o Bozo, o palhaço de todos vocês!” (N. do A.: MEU NÃO). JQ veio depois de JK, mas, ao contrário de seu antecessor, era um candidato de oposição num país que elegia pleito após pleito os herdeiros de GV e deixava sempre de pincel na mão os oposicionistas, especialmente um certo CL. Em 1960, entretanto, o processo eleitoral era diferente: não havia segundo turno e também não se escolhia uma chapa, ou seja, o presidente e seu vice eram eleitos separadamente. Portanto, encontros insanos poderiam ter lugar. Seria como, no tempo presente, eleger Dilma Rousseff para a cadeira presidencial e Michel Temer para a vice-presidência. Ainda bem essas coisas não acontecem mais e escolhemos um par de candidatos alinhados em propostas e que não ficam se contradizendo em praça pública. Para assumir o cargo de presidente em 31 de janeiro de 1961, Jânio derrotou seus dois adversários com tranquilidade: dos 12.586.354 votos contabilizados, JQ somou 5.636.623. Uma lavada! Para lograr tamanho êxito, baseou sua campanha em promessas de combater sem trégua a corrupção e equilibrar as contas públicas, abaladas pelos excessos desenvolvimentistas de JK. Mas o maravilhoso mundo das promessas brasileiras é uma saga que se repete. E, desta feita, bastaram sete meses para virarem pó entre descumprimentos (política brasileira sem corrupção não existe, amiguinhos. Desistam de acreditar nisso!) e atitudes no mínimo excêntricas, tais como tornar ilegal a rinha de galos, condecorar Che Guevara com a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul e proibir o biquíni em concursos de beleza e o lança-perfume em bailes de carnaval. Mas sejamos justos: nem tudo foi excentricidade. Houve ousadia. Afinal, em tempos de recrudescimento da Guerra Fria, Jânio implementou a chamada Política Externa Independente (PEI), que avisava ao mundo que o Brasil não se alinharia nem aos Estados Unidos nem à União Soviética, com direito à críticas públicas à invasão da Baía dos Porcos. Mas isso só contribuiu para sua rápida derrocada. Assim como hoje, o Brasil era baita lambe-botas dos EUA e nossos congressistas, em geral, desejavam que assim continuasse. O canto do cisne para Jânio foi a resolução que anulava as autorizações ilegais outorgadas a favor da empresa norte-americana Hanna Mining Co. e restituía as jazidas de ferro de Minas Gerais à reserva nacional em 21 de agosto de 1961. Quatro dias depois, sob pressão de ministros militares (não me diga!), viria a renúncia. “Desejei um Brasil para os brasileiros, afrontando, nesse sonho, a corrupção, a mentira e a covardia que subordinam os interesses gerais aos apetites e às ambições de grupos ou indivíduos, inclusive, do exterior. Forças terríveis levantam-se contra mim, e me intrigam ou infamam, até com a desculpa da colaboração. Se permanecesse, não manteria a confiança e a tranquilidade, ora quebradas, e indispensáveis ao exercício da minha autoridade”, afirmava em sua carta oficial de despedida. Dizem por aí que JQ pretendia que sua renúncia fosse revertida através do clamor popular. Mas não houve clamor popular para o homem que limitou a diversão de tantos brancos de família e ainda condecorou revolucionário comunista. O que viria a seguir fez do Brasil uma ditadura entreguista de 21 anos, que muitos abilolados de WhatsApp querem ter de volta e estão quase conseguindo.

17/04/2018

Gabriel García Márquez, o Gabo (para os milhões de íntimos leitores que têm nele o maior romancista de todos os tempos – sem ofensa, Saramago), faleceu há exatas quatro primaveras, aos 87 anos. Deixou pelo caminho obras-primas, das quais ‘Cem Anos de Solidão’ (1967) é o símbolo maior. Aliás, só para ninguém dizer que não avisei, não ter lido ‘Cem Anos...’ é falha de caráter. Então, caso você não o tenha lido, faça-o em breve – lembrando que pelotões de fuzilamento e formigas operárias estão por aí o tempo todo. Colombiano de Aracataca, onde nasceu em 1927, Gabo foi literariamente encantado por três influências especiais: as narrativas de seu avô, o coronel Nicolás Márquez, sobre a Guerra dos Mil Dias (1899-1903), a imaginação fértil da avó, Dona Tranquilina Iguarán, com suas histórias de premonições e fantasmas, e ‘A Metamorfose’, clássico de Franz Kafka que o fez ver na literatura de ficção um campo de ilimitadas possibilidades criativas (ele chegou a citar um tal de Hemingway também).
Mas mesmo assim, antes de tornar-se o escritor que todos amamos, Gabriel García Márquez tentou carreiras mais seguras: estudou Direito em Bogotá a partir de 1947. Não chegou a se graduar (nada contra os ofícios jurídicos, mas, nesse caso, ótima notícia). Em 1948, investe na profissão de jornalista e essa resulta bem sucedida: começou no El Universal, em Cartagena de Las Índias para já no ano seguinte trabalhar no El Heraldo, em Barranquilla. Quando, em 1958, atuou como correspondente internacional para o El Espectador, já era escritor de ficção simultaneamente, com três obras de pouco destaque à época publicadas. A invisibilidade como ficcionista findou em 1961, com a publicação de ‘Ninguém Escreve ao Coronel’. Este ainda não representou todas as ferramentas das quais Gabo iria dispor em um futuro próximo, mas havia muito encantamento no conto de um militar retirado empobrecido a espera de uma carta (que nunca chega) contendo o pagamento de sua aposentadoria. Depois disso, e muito graças a ‘Cem Anos...’, o livro que deixa triste o leitor pela forma que acaba e porque acaba, Gabriel García Márquez foi acumulando êxitos, com direito a Nobel de Literatura em 1982 pelo conjunto de sua obra. Gabo publicou seu último romance, ‘Memórias de minhas putas tristes’ (2004). Ele ainda deixaria as obras não ficcionais ‘Obra jornalística 5: Crônicas’ (2006) e ‘Eu não vim fazer um discurso’ (2010) antes de deixar a vida para entrar na história vítima de uma pneumonia que veio na esteira do câncer que atingia pulmões, gânglios e fígado. Segundo Roberto Amado, que, por ocasião de sua morte, escreveu no Diário do Centro do Mundo, “Gabo, como foi chamado a vida toda, era um escritor de rituais, capaz de passar 12 horas debruçado sobre uma velha máquina de escrever — desde que tivesse uma rosa amarela sobre a mesa ‘para espantar os demônios da literatura’. Falava que ‘a realidade é muito difícil de interpretar e é sempre melhor do que a ficção’, mas qualquer um que conheça sua obra sabe que ele rompeu essa fronteira sem deixar vestígios. Chegava a fumar até seis maços de cigarro por dia enquanto escrevia, tresloucado, suas histórias. [...] uma das atividades que conduziu por quase toda a vida: a política. Seu ativismo de esquerda e a amizade que tinha com Fidel Castro fizeram com que se exilasse no México e colecionasse inimigos por todas as partes. Talvez isso explique a célebre briga que teve com o até então dileto amigo e colega de letras Mario Vargas Llosa. Em 1976, diante de um cinema no México, os dois se encontraram e, ao contrário do abraço que García Márquez esperava, recebeu um direto de direita e caiu no chão. Até hoje não há uma versão oficial para a célebre briga — há quem diga que foi por mulher, outros por política”.
Eu, a partir de minha humilde carreira de leitor, posso recomendar tudo dele que li, além do obrigatório ‘Cem anos...’, claro: ‘O outono do patriarca’, ‘Crônica de uma morte anunciada’, ‘O amor nos tempos do cólera’, ‘A aventura de Miguel Littín Clandestino no Chile’, ‘O general em seu labirinto’ e ‘Do amor e outros demônios’. Parece bastante, mas, em se tratando de Gabo, ainda é pouco...

03/04/2018

Foi hoje, mas em 1973, que o mundo deu mais um grande passo rumo à completa alienação – que inclui em seu rol de resultados catastróficos a falência múltipla dos órgãos de autoestima de todos os professores decentes. Isso porque em 3 de abril do referido ano, Martin Cooper, gerente do departamento de comunicação da Motorola, realizou a primeira ligação de um aparelho de telefonia móvel, hoje conhecido popularmente (e põe popularmente nisso) como celular. O começo até que foi divertido. Cooper tirou uma onda. Ele ligou para o telefone (fixo, obviamente) do chefe de equipe da concorrência, a Bell Labs, atual subsidiária da hoje invisível Nokia, que também desenvolvia um produto semelhante. E Cooper fez isso das ruas de New York, cidade que à época era reconhecida pelos altos índices de barulho (ainda que os Ramones não tivessem estreado ainda) e de criminalidade. Mas ninguém passou a mão no equipamento então exótico. O primeiro cel pesava pouco mais de um quilo. Possivelmente a dupla na motoca teria dificuldade em carregá-lo.
45 anos se passaram e muita coisa mudou (incluindo o falecimento dos quatro Ramones originais). Infelizmente, para pior. E a referida piora tem muito a ver com o tal celular. Tá certo, esse espécime altamente evoluído de tamagotchi tem utilidades inquestionáveis. Serve, inclusive, para realizar ligações telefônicas. Mas, em geral, opera para que as pessoas façam papéis ridículos tais como dar de cara em postes, cair em bueiros, fotografar qualquer b***a (inclusive suas próprias caras) e postar como se a roda estivesse sendo descoberta, serem perseguidas implacavelmente por clientes, patrões e cônjuges, deixarem de conversar com amigos numa mesa de bar, esquecerem da existência dos livros e, a mais importante, considerarem que a sala de aula é menos importante que papo furado via WhatsApp. E olha que a publicidade das operadoras e fabricantes não está sendo considerada aqui. Até porque publicidade sempre foi uma grande farsa. Nesse ponto a telefonia móvel não tem responsabilidade no pecado original.
Para quem, como esse que vos escreve, tem a idade do celular, devem ser lembráveis outros momentos patéticos em que o dito esteve presente. Exemplos “clássicos”: o magal (gíria compreensível também somente para aqueles que têm a idade do celular) que dirigia lentamente seu carro esporte, vidro abaixado, música eletrônica bagaceira a todo volume, falando ao celular – ou simulando – para impressionar a mulherada, o cafonão que carregava no celular preso ao cinto feito uma pochete, o jeca que levantava no restaurante fazendo caras e bocas e puxava a antena do aparelho em câmera lenta para atender a ligação. Certamente havia mais papelões naquele cenário de fim de século 20, mas, felizmente, não recordo. Então alguém poderá dizer: não são celulares que matam, são as pessoas. Mas aí teríamos que discutir o estatuto do desarmamento e aqui não é o lugar para isso...
Diante, do apresentado, o celular contribuiu decisivamente para o Mundo descer lomba abaixo sem freio e com pneus carecas. Há quem diga por aí tratar-se de um plano norte-americano (ou chinês) para facilitar a imbecilização e tornar os humanoides mais facilmente controláveis, parte de um grande plano de longo prazo que incluiu o 11 de setembro, este forjado pelo próprio governo Bush filho. Fato é que a imbecilidade humana não exige plano prévio para ser expandida. Qualquer coisa se presta a esse serviço, ainda que Restart, MBL e Cláudia Leite, por suas incapacidades evolutivas, tenham tido vida bem mais curta que o celular.

Photos 11/07/2017

“Vá estudar História!”. “Vá ler um livro!”. Em tempos recentes, tais frases viraram mantras em tom de ofensa. Mas deveriam ser dicas carinhosas e caridosas provenientes de pessoas de coração largo, mas não ocupado pelo ódio. Aliás, falando em ódio e estudar História, a brutalidade que extinguiu a Iugoslávia entre o princípio e a metade da década de 1990 talvez seja o exemplo forâneo recente mais simbólico na união da ausência de saber histórico com o ressentimento que resulta em violência. Até o princípio da última década do século 20, a Iugoslávia era um exemplo a ser seguido. Naquele belo país balcânico, conviviam etnias diversas capitaneadas pelo marechal Josip Broz Tito, militar cabra-macho e, posteriormente, governante autoritário e unificador da região em torno do socialismo após a II Guerra Mundial – guerra esta em que chetniks (sérvios nacionalistas) e partisans (o pessoal do Tito, multiétnico e comunista) lutaram, mas não unidos, contra os ustasha (croatas fascistas apoiados pelo Eixo). Em comum, chetniks e ustasha desejam eliminar do mapa, respectivamente, todos que não fossem croatas e sérvios. Dizem por aí que até os nazistas ficaram chocados com a brutalidade do conflito das duas milícias que, em geral, massacravam mais civis do que se matavam entre elas. Mas a II Grande Guerra acabou. E os partisans, mesmo sem qualquer apoio material dos Aliados, saíram vencedores, assumindo a reconstrução do país, tanto em termos materiais como afetivos. Nas mãos de Tito, formou-se um grande país para todos, forte e independente de influências externas. Apesar de socialista, a Iugoslávia nunca se alinhou à União Soviética e tocou sua existência de uma forma exemplar – vejam só, estou elogiando um ditador. Portanto, melhor lembrar que ele também teve seus arroubos de crueldade diante de desejos independentistas que eventualmente se manifestaram nos Bálcãs. Mas em 1980, após 27 anos no poder, Tito faleceu poucos dias antes de completar 98 anos. Com sua morte, foi estabelecido um sistema de governo no qual o cargo de presidente da Iugoslávia passou a ser rotativo entre as seis repúblicas. Isso deixou bem claro que a manutenção da unidade interna exigiria uma engenharia complexa que não seria mais forte que os ventos berlinenses de 1989. E se a URSS não aguentou a bronca, dissolvendo-se oficialmente em 1991, não seria a Iugoslávia a segurar o rojão. Velhos ressentimentos vieram à tona e os conflitos de independência iniciaram, algo que contrariava o desejo sérvio de manter viva a Iugoslávia sob seu domínio. Os banhos de sangue não foram poucos. Mas o mais insano é que, praticamente de um dia para o outro, vizinhos passaram a se matar apenas porque não eram da mesma etnia. Chetniks e ustasha estavam de volta com toda a crueldade que lhes foi peculiar na II Guerra Mundial. Um dos muitos episódios sangrentos teve lugar hoje, 11 de julho, mas em 1995, na atual Bósnia-Herzegovina: trata-se do Massacre de Srebrenica. Neste genocídio, de responsabilidade dividida entre as unidades do Exército sérvio da Bósnia e um grupo paramilitar sérvio conhecido como Os Escorpiões, ocorreu em uma zona previamente declarada como segura pelas Nações Unidas – sempre ela e seus fracassos patéticos - já que se encontrava sob a proteção de 400 capacetes azuis holandeses. O “singelo” objetivo foi à eliminação dos muçulmanos bósnios, incluindo crianças, adolescentes, mulheres e idosos. O maior massacre registrado desde a II Grande Guerra matou exatamente 8.373 seres humanos. Essa porção específica do conflito principiou depois que a Bósnia declarou sua independência com uma Declaração Parlamentar de Soberania em 15 de Outubro de 1991, ou seja, foram quase quatro anos até que o Ocidente resolvesse ficar chocado de vez diante da sangueira em uma terra sem petróleo. A República de Bósnia-Herzegovina só foi reconhecida pela Comunidade Europeia em 6 de Abril de 1992 e pelos Estados Unidos no dia seguinte. No entanto, como pode ser observado, o reconhecimento internacional não resolveu em nada o problema. A estupidez não acaba por decreto. Para saber mais, possibilidades não faltam. No campo da leitura, as HQs ‘Área de segurança: Gorazde’ (2000) e ‘Uma história de Sarajevo’(2003 – sua capa ilustra o presente texto), do jornalista de guerra Joe Sacco, considero as melhores alternativas. No cinema, o oscarizado ‘Terra de Ninguém’ (2001), de Danis Tanovic, e ‘A Vida é um Milagre’ (2005), do gênio Emir Kusturica, ilustram bem os acontecimentos e o espírito daqueles dias violentamente insanos.

Photos 29/03/2017

Foi hoje, 29 de março, mas em 1886, na cidade de Atlanta, estado da Geórgia, Estados Unidos da América, que ocorreu a invenção do mais amado/odiado de todos os venenos, o maior ícone do capitalismo (ainda que a cor predominante das embalagens seja o vermelho), o produto que deu colorido ao Papai Noel ocidental, o melhor xarope para a ressaca já criado. Sim, seguidores, estou falando da Coca-Cola. O bebível, além de acintosamente delicioso, carrega consigo mitos que habitaram a minha já distante infância, tais como o teste do osso de galinha – que se desmancharia caso inserido em um copo do refrigerante por alguns dias – e a capacidade viciante já que continha co***na em sua fórmula secreta. A história da co***na até tem um fundo, mas bem fundo mesmo, realista tendo em vista que, quando foi inventada pelo farmacêutico John Pemberton, era um remédio patenteado que continha em sua fórmula folhas de coca, além de sementes de cola e açúcar. Ocorre que ainda no mesmo ano de criação, Pemberton passou a vender Coca-Cola para matar a sede. Se a proposta inicial era sincera, ou seja, aliviar os “pacientes” de náuseas e dor de cabeça, a que veio a seguir foi severamente capitalista: matar a sede. Se tem coisa que a venenosa nunca fez foi aplacar qualquer sintoma de desidratação. Mas bisines são bisines, ainda mais na terra do Donald (seja o pato ou o presidente) e o fim da relação criador/criatura foi parecido com tantos outros. Pemberton vendeu pela bagatela de US$ 2300 ao empresário Asa Griggs Candler a fórmula mágica que muitos tentaram sem sucesso decifrar e imitar, caso da brasileiríssima Baré-Cola, e assistiu de arquibancada a explosão de consumo que viria logo a seguir. Mas a vida é assim. Que o digam Jerry Siegel e Joe Shuster, os criadores do Superman. Hoje a Coca-Cola Company está estabelecida em 201 países e o número de viciados nessa droga perigosa e saborosa apenas aumenta. De resto, com a licença dos nobres seguidores, vou encher um copo de Coca-Cola com bastante gelo (de água filtrada, não a colifórmica do McDonald’s) e soltar aquele arroto libertador que só a exploração do homem pelo homem pode proporcionar! Buuurrrrrrrrrrrrrp!!!

Photos 15/03/2017

As aulas voltaram (oba!) e o professor voltou (oba, pero no mucho!), com esperanças renovadas de que alguém o contrate (também faço uma faxina caprichada com valores a combinar!) e o liberte da Caverna do Dragão, oficialmente conhecida como Governo do Estado do Rio Grande do Sul, na qual está preso há aproximadamente 14 anos. Para celebrar o glorioso retorno, falar-se-á (mesóclise é coisa fina) de um célebre homicídio, ocorrido em 15 de março de 44 a.C., que levou para a terra dos pés juntos um dos maiores nomes da história da humanidade, o ditador romano Júlio César. Dizem por aí que o povo o adorava. General vitorioso, responsável por ampliar as possessões romanas nas campanhas militares na Gália (sim, aquela do Asterix), criador de políticas sociais que tiraram muita gente da miséria. Até então, por exemplo, os legionários voltavam para casa depois de eras no campo de batalha e nada recebiam, ou seja, não eram poucos os que acabam sem nada mesmo tendo sangrado por Roma anos a fio – fora isso, se o legionário fosse hétero convicto, atraso garantido. Júlio César, por sua vez, concedia terras aos seus homens nos territórios conquistados como recompensa pela devoção à causa de Roma. Mas dizem por aí também que não lhe faltavam adversários políticos e um ego gigantesco. Ao voltar para Roma em 47 a.C., após a rápida conquista da província bizantina do Ponto, tornou-se cônsul vitalício e, em fevereiro de 44 a.C., assumiu o título de “ditador perpétuo”. Por medo ou bajulação, o Senado passou a cobri-lo de honrarias. Com tanto poder acumulado, acabou criando inimizades, e, reza a lenda, desprezava toda e qualquer crítica ou advertência. A República não lhe interessava, por estar convencido de que, com instituições participativas, era impossível governar um império mundial. Sob seu reinado, foi transformada num sistema hipercentralizado. Aqui vale uma ressalva. O Senado romano era extremamente elitista. Políticas públicas de orientação popular desciam pela garganta dos senadores feito Coca-Cola quente e sem gás. Num jardim, seria a luta do flor-que-não-se cheire contra os comigo-ninguém-pode. Afinal, César impunha a aprovação de projetos de lei que os senadores nem sequer haviam lido. Para contribuir, aumentou em mais de 300 o número de membros do Senado, nomeando amigos para os novos postos. Em termos militares, tinha ainda grandes planos. Queria conquistar o extenso reino dos Partos, região entre o mar de Aral e o mar Cáspio. Entretanto, pouco antes de partir para a nova campanha militar, foi assassinado com 23 facadas, nas escadarias do Senado, por um grupo de 60 senadores, com a decisiva contribuição de seu filho adotivo enciumado, Marcus Julius Brutus. Júlio César ainda se defendeu, cobrindo-se com uma toga. Mas ao ver o filho-traíra, teria dito sua última famosa frase: “Até tu, Brutus” – as outras foram “Veni vidi vici” (Vim, vi e venci) “Alea jacta est” (A sorte está lançada). Como matar um tirano não era considerado crime, nenhum dos assassinos precisou enfrentar a lei. Se saíram, portanto, vitoriosos? Não. Pois os apadrinhados de César assumiram o poder em Roma, mantendo a concentração de poder que eles visavam eliminar e inaugurando o período definido pelos historiadores como Império.

Photos 31/08/2016

"A história do Brasil republicano através de golpes". Este seria um bom título para um livro a ser lançado ainda em 2016. Mas teria muitas páginas e, não duvido, pouca popularidade. Além disso, qual editora teria a coragem de colocá-lo no mercado diante do cenário que se apresenta? Penso em uma ou duas talvez. Os capítulos, a quem interessar possa (e disponível para sugestões), poderiam ser os seguintes:

Introdução ou a elite brasileira e seus golpes
1. A diferença entre golpe e revolução
2. As distinções entre golpe e impeachment
3. O golpe republicano-militar de 1889
4. 1930 e o golpe para "menos pior"
5. O golpe dentro do golpe de 1937
6. Suicídio: o golpista-mor golpeia os golpistas
7. Golpe de 1964: Deus, pátria, família e milicos
8. 1989-1992, o maior (mas não único) golpe da Globo
9. Todos pela corrupção! O golpe em tempos de Facebook

Ainda haveria espaço para o aprofundamento, nos próprios capítulos ou em anexos, sobre temas associados como o estranho caso do pobre de direita e as perspectivas futuras da judiada esquerda brasileira. Você leria?

P.S.: Postagem publicada durante a primeira bateria de fogos.

Photos 15/08/2016

Se alguém me perguntasse onde eu queria estar em nove de novembro de 1989, responderia sem pestanejar: Berlim, a capital que naquele momento não era a capital da Alemanha. Por quê? Porque foi a noite em que a população rumou massivamente para a fronteira entre as as duas Alemanhas, a capitalista RFA e a "socialista" RDA depois da informação de que o muro naquele momento era apenas uma barreira física prestes a tornar-se ruínas e não mais uma barreira econômico-ideológica. Emocionante pela televisão. Mais emocionante ainda ao vivo, certamente. Mas antes dessa noite gloriosa, o Muro de Berlim recebeu a justa alcunha de Muro da Vergonha, tornando-se símbolo material mais insano da Guerra Fria. A data oficial de sua concepção "celebra-se" hoje, há exatos 55 anos. A lógica de sua construção é explicada pelo êxodo de alemães orientais atraídos pela atmosfera democrática e de rápida reconstrução de uma Alemanha esfacelada materialmente e moralmente pela II Guerra Mundial enquanto a porção oriental saía de uma ditadura para cair em outra. Nesse caso, os números ajudam a explicar. Entre 1949 e 1961, cerca de 2,5 milhões de alemães orientais fugiram do Leste para a Alemanha Ocidental, a maioria via Berlim Ocidental. Em agosto de 1961, uma média de 2.000 alemães orientais estavam atravessando para o Oeste a cada dia. Muitos dos refugiados eram trabalhadores qualificados, profissionais e intelectuais, e sua perda teve um efeito devastador sobre a economia da Alemanha Oriental. Para travar o êxodo para o Ocidente, o líder soviético Nikita Khruschev recomendou à Alemanha Oriental que fechasse o acesso entre Berlim Oriental e Ocidental. Daí, após o arame farpado instalado entre o dias 12 e 13 de agosto, veio o muro: eram 43 km de fronteira fechada entre Berlim Ocidental e Oriental, no meio da cidade, com muro, cercas, torres e todo o aparato de segurança. Outros 112 km cercavam Berlim Ocidental pela parte externa, para impedir o acesso por outros lados. A instalação tinha 302 torres, 20 bunkers e 259 recintos para cães de guarda. 127 km de cercas com detectores ajudavam a transformar Berlim Ocidental numa ilha à qual ninguém em volta podia ter acesso.E assim foi por 28 anos. Longo tempo de corações partidos simplesmente porque alguns decidiram que tinham o direito de fazê-lo em nome de uma ideologia já moribunda aquela altura da história. Nesse meio tempo, como os soldados da RDA cumpriam a ordem de matar qualquer cidadão que tentasse fugir, mais de 600 foram abatidos a tiros ou morreram afogados tentando atravessar algum rio ou nos mais diversos tipos de acidentes. Outros tantos se suicidaram ao serem flagrados. Mas houve casos de sucesso, como o das famílias Strelczyk e Wetzel, que em setembro de 1979 fizeram a travessia em um balão de gás construído através do esforço coletivo (isso sim é socialismo!) ou do equilibrista Horst Klein, que fez o percurso sobre um cabo de alta tensão desativado. Apesar de, por conta do frio extremo, esborrachar-se ao final do trajeto e quebrar os dois braços, ele se esborrachou na Berlim Ocidental. E, assim, o que era horrível ficou belo...

Photos 01/08/2016

Dois de agosto de 1914. A I Guerra Mundial inicia explicitamente a partir de declarações sequenciais envolvendo as principais potências europeias de então. Mas o que começou em festa terminou em tragédia, comprovando que a capacidade humana de prever os efeitos de eventos graves é limitadíssima, quiçá nula. Pois, feitas as tais declarações de guerra, acreditem ou não, as ruas das capitais das nações envolvidas foram tomadas por multidões eufóricas e cheias de orgulho patriótico. Homem que não se alistava era bundão e estava condenado à seca permanente. Quem exibisse lucidez e fosse contra o conflito merecia o desprezo. Mas devemos admitir que eles realmente não faziam ideia do que viria porque nunca houve nada parecido antes - ao contrário de hoje, ocasião em que estamos avisados dos males de um querela armada de grandes proporções e somos todos sabedores dos perigos do fascismo (réchi tégui sqn). Ainda que o assassinato do arquiduque austro-húngaro Francisco Ferdinando em Saraievo tenha dado início ao conflito na versão oficial, os envolvidos estavam prontos para ele há tempos. O capital pedia pela guerra. Era enorme a concorrência por mercados, era gigante a quantidade de armas produzidas para mantê-las armazenadas. Então, depois de muitas trincheiras cavadas, de todas as regras da honra terem sido jogadas pela latrina (com tristes novidades tecnológicas feito o lança-chamas e as armas químicas), de mais de 10 milhões de mortos e de outros 20 milhões de feridos e mutilados, a I Guerra terminou em 1918 com a declaração de armistício, proposta de uma Alemanha que, após a entrada dos Estados Unidos, via-se em maus lençóis. "Peraí, mas se houve armistício não existem vencedores e derrotados!". Calma, companheiro. Não chegamos no Tratado de Versalhes ainda. Aliás, chegamos: assinado pelo ministro do exterior alemão, Hermann Müller, em 28 de Junho de 1919, após seis meses de negociações, o "acordo" impunha cláusulas que tinham a clara missão de eliminar a Alemanha do jogo das potências. Apesar da sensação de vitória dos dois principais impositores do Tratado, Inglaterra e França, ele seria muito em breve descumprido pelo ressentimento germânico e isso faria a Europa entrar numa nova rota de destruição. E esta não se daria somente naquilo que entendemos como campo de batalha...

Legenda: na foto, dois soldados britânicos recebem o apoio de um civil nacionalista.

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