Textão Jornalístico

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Página experimental para publicação de textos, produzidos no curso de Jornalismo da UFMS

19/12/2023

O HOMEM DEBAIXO DO GORRO
O bom velhinho, por trás da barba branca do Papai Noel, é Nilton Zanuncio e, como presente de natal, nos deu essa entrevista

Por Maria Clara de Assis e Nathana Nunes

“A vida é um barato”. Foi a frase que abriu nossa conversa. Nilton é a cara do Natal, barba e cabelos brancos e longos, felicidade e positividade. Entre as coincidências e desafios da vida, o professor aposentado de 65 anos teve a sua história, sem perceber, guiada pelos mais diferentes caminhos, até chegar na roupa vermelha da figura mais importante desta época do ano. Ele há quatro anos é Papai Noel.

Em uma segunda-feira, durante uma de suas caminhadas diárias, esse senhor foi parado por uma mulher no meio da Avenida Tamandaré. “O senhor é o Papai Noel que eu estou precisando”, e assim a barba e cabelo branco compridos, consequências da aposentadoria, o levaram até Três Lagoas (MS). Lá foi o Papai Noel do shopping da cidade por três natais. Este ano, recebeu a proposta de ser o bom velhinho no Shopping Campo Grande. “É muito melhor dormir na casa da gente, na nossa rotina”, ele conta sobre a proposta na capital.

Nilton passa a mão pelo bigode branco, o que se mostrou um de seus trejeitos próprios, e lembra de uma época distante. Sua mãe era uma he***na que criou nove filhos sozinha, nunca deixou faltar nada, principalmente nas datas de final do ano. Ele sempre gostou do Natal e, apesar das br**cadeiras que ele tinha f**ado igualzinho ao Papai Noel, nunca imaginaria que iria se tornar o próprio.

Professor de geografia, aposentado pelo estado, se formou na Faculdades Unidas Católicas de Mato Grosso (FUCMT) em 1988, hoje Universidade Católica Dom Bosco (UCDB). O agora Papai Noel cuidava do escritório da fazenda do grupo Tigres. Quase 40 mil hectares para explorar, mas em uma reviravolta, o escritório de Campo Grande fechou e ele viu seu cargo ser realocado para a própria fazenda, longe de casa. Ele não queria mexer na estrutura da sua família, então largou o emprego.

“Sempre fui muito sortudo e com muitos bons amigos”. Logo após se demitir, ele recebeu uma indicação e foi convocado para uma vaga de Professor de Geografia pelo Estado. “Eu? Professor?”, ficou surpreso com a proposta e riu com a esposa quando chegou em casa. Era mais um desafio que ele encarou com sua costumeira tranquilidade. Seis meses depois, decidiu prestar o concurso para ser efetivado. Foi ali a sua ponte com as crianças.

Nilton conta sobre uma recente coincidência. Uma antiga professora da faculdade, que passou na frente do posto de Natal do Shopping. Ele a chamou e, após tanto tempo, se reencontraram. O tempo passou, eles envelheceram, ocuparam novos e atípicos lugares.

A FAMÍLIA DO PAPAI NOEL
Ellen, a esposa de Nilton, é seu apoio incondicional. Mesmo após 36 anos de casado, ele ainda se mostra apaixonado por ela. Conheceram-se quando ambos faziam faculdade. “Eu vou namorar aquela moça”, ele disse para um amigo, na primeira vez que a viu. Ainda longe de ser o Papai Noel, descobriu o nome e o curso de Ellen, e após uns tropeços e um pouquinho de esforço, deu uma carona para ela até a faculdade. Seu empenho funcionou e assim conquistou a moça. Uma história de amor que persiste por quase quatro décadas. É ela que agora escolhe e compra os xampus específicos para o cabelo branco, que o Papai Noel só usa na época do Natal.

Evelyn é a única filha do casal, e claro, o orgulho de Nilton. Formada em Direito pela Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS), atualmente trabalha no Gabinete do Juiz em Campo Grande, mas nem sempre foi assim. Em 2018, ela se deparou com a sonhada aprovação no concurso da Promotoria Pública, porém foi chamada para Três Lagoas. Logo, se mudou para o município com o coração apertado ao deixar os pais. Naquele ano, Nilton pediu de natal que sua filha conseguisse uma transferência de cargo para a capital e em janeiro de 2019 Evelyn já estava de volta na casa da família.

Ellen e Evelyn visitaram o Papai Noel esse ano, não sabemos o que exatamente elas pediram, mas sabemos que Nilton, muito surpreso, ficou feliz em vê-las lá, pela primeira vez, na poltrona do velhinho e na capital onde moram.

NILTON, O PAPAI NOEL
Com alegria, Nilton conta sobre a carga horária de oito horas diárias de trabalho. Ele adora as crianças e elas se encantam com a imagem de Nilton vestido de Papai Noel. “Minha parte favorita do Natal é ver o Papai Noel”, diz a pequena Maria Luísa, de cinco anos. Ela já foi falar com ele, conversou com a desenvoltura que só uma criança da idade dela tem e tranquilamente pediu uma boneca. “Mesmo com 65 anos a gente aprende. As crianças ensinam muito para a gente”.

Os preparativos para ser o Papai Noel não o incomodam, “Eu vou falar para vocês em relação à barba e ao cabelo, eu sou bem relaxado”. Porém, a preparação física é muito importante para ele. Rotina é o principal. Ele acorda, toma um litro de água e faz sua caminhada diária, da sua casa, no Bairro Coophasul, até a igreja Perpétuo Socorro, quando chega em casa, toma mais um litro de água e, ao longo do dia, já no posto do Papai Noel, ele toma copos de água de 200 ml sem sair do lugar. Só levanta no intervalo. Assinou um contrato não só com a empresa, mas também com a criançada, então ele dará tudo de si sempre.

A poltrona vermelha, é sua mesa de trabalho, que combina com seu uniforme, o traje do Papai Noel. Suas colegas de trabalho, as Noeletes, recebem os visitantes. Crianças, bebês, adultos e até bichinhos de estimação esperam na fila para conversar com o bom velhinho. Os pedidos são os mais diversos, desde uma boneca até mesmo uma entrevista. Os pequenos se amontoam ao redor dele e a estimativa é que todos os dias passam cerca de quinhentas crianças pela poltrona vermelha. Nilton sempre acolhe todos com um sorriso e a clássica pergunta, “Já escreveu sua cartinha para o Papai Noel?”.

Ele enxerga seu papel muito além de uma fantasia. É uma oportunidade de impactar vidas e deixar um legado de bondade. “Eu vejo crianças pequenininhas falando para mim ‘Papai Nel te amo’ e isso me deixa muito feliz”. Sorrindo ele se lembra da história de uma bebê com apenas um ano e quatro meses. Ela vai até o professor aposentado caracterizado de bom velhinho e chora toda vez que a tiram de perto dele.

Todo ano, mesmo sem precisar do dinheiro, ele trabalha pela alegria das crianças e pelo amor ao que faz, “É um barato ser Papai Noel”. Todo ano a esposa fala que ele não precisa trabalhar e ele pensa se vai voltar ao uniforme vermelho no próximo Natal. Todo ano, no dia 28 de dezembro, ele raspa a barba branca e corta o cabelo longo só para deixar crescer novamente. E todo ano, outra vez, Nilton coloca o gorro vermelho.

Legenda. (Foto: Nathana Nunes)

18/12/2023

COM OU SEM?
Presente em várias receitas natalinas, a uva-passa sempre divide opiniões durante a comemoração

Por Christiane Ayumi e Gabriela Martins

No Natal ela está sempre presente para surpreender aquele que, distraído, leva a colher à boca para degustar um delicioso salpicão. Ou talvez na tradicional farofa de banana, pronta para se misturar entre os diferentes sabores. Até mesmo no arroz, ela não perde a oportunidade de aparecer. Alguns podem achá-la intrometida por se colocar em lugares não tão tradicionais, mas ela, afrontosa, não se deixa abalar, sempre marca presença e não passa despercebida.

O corpo enrugado, diferentes cores e o característico sabor adocicado são as características mais marcantes dela, a uva-passa. Foi na região do Mediterrâneo que nasceu, em uma época em que a agricultura que conhecemos hoje não estava nem perto de ser criada. Secavam-se os alimentos para que pudessem ser conservados por longos períodos, as uvas caiam das videiras e acabavam expostas ao sol, resultando na nossa tão polêmica figura.

Por seu tamanho insignif**ante acreditávamos que seu valor nutricional também era proporcional a sua dimensão, então nos surpreendeu quando o nutricionista, Ítalo Alves citou alguns dos benefícios para quem a consome. Entre eles estão, fortalecimento ósseo; controle de peso, já que as fibras prolongam a sensação de saciedade; poder antioxidante; combate à anemia, por ser uma boa fonte de ferro, e melhora na saúde cardiovascular.

A uva-passa vangloria-se de suas inúmeras qualidades, de fato, ninguém estremece sua autoconfiança quando se fala de nutrição. A nutricionista Maria Eduarda Fonseca destaca outros benefícios. “Se você gosta da fruta, é uma ótima opção para ter no dia a dia, mas com a ajuda de um profissional nutricionista, para poder incluir as quantidades necessárias ideais para o seu organismo”.

Seus atributos são de fazer inveja para qualquer um. Por ser desidratada, seus nutrientes f**am mais concentrados que na sua irmã, a uva in natura. Porém, junto a isso a concentração de açúcar também aumenta, em uma colher de sopa de passas pode-se encontrar 15 gramas de carboidratos e 54 calorias. Já a sua irmã, que costuma ser mais bem vista, conta com 17 gramas de carboidratos e 67 calorias em 100 gramas. Por ser pequena, seus fãs tendem a ingeri-la como petisco, o que pode ser prejudicial, caso consumida em excesso, por conta do alto índice calórico.

Mesmo com tantas pessoas contra ela, sua presença vip em festas de família continua intacta, sem previsão de ser esquecida. Isso porque, segundo fontes históricas que estudam a Roma antiga, antes mesmo do Natal ser uma data comemorativa, no calendário cristão, os romanos comemoravam o início do inverno, antes chamado de Natalis Solis Invicti. Nessa comemoração secavam-se as frutas por conta das baixas temperaturas, isso acabou se tornando um símbolo de fartura. Foi associado à festa e está enraizado em nossa cultura até hoje. Para alegria de uns e tristeza de outros.

AME OU ODEIE
Alguns a amam, outros a odeiam, quando se trata dela, não existe meio-termo. Em uma única família, as opiniões a respeito dela podem ser extremamente distintas, o que acarreta discussões apenas por ela comparecer à festa.

Em um desses jantares comemorativos, cercados por músicas e conversas, uma hater de uva-passa, a graduanda de relações internacionais Giovanna da Costa Jaber, sente em seu paladar a presença rugosa da uva. Imediatamente ela é arremessada ao prato, seguida de uma cara de desgosto. “Eu não gosto de uva-passa. Primeiro, porque acho a textura dela meio estranha e não sou fã de misturar doce com salgado. Sei que têm doces com uva-passa também, mas eu não curto por causa da textura, sei lá, me dá um negócio ruim se eu como alguma coisa com uva-passa sem querer, eu cuspo na hora”.

Outra situação ocorre na residência da vestibulanda Sara Rocha Nantes. “Eu sou hater de uva-passa, só não fico falando porque aqui em casa minha mãe é apaixonada, só vivo a minha vida normalmente tirando ela das receitas”. Do outro lado, a pedagoga Aline Rocha Nantes, mãe de Sara, reforça sua paixão pela fruta seca. “Eu gosto muito de uva-passa, como em qualquer comida, doce, salgada, não tenho preferência, gosto do gostinho doce que ela tem e da textura também”.

Já para a estudante Isabella Rezende Domingos, a fruta é como purpurina, contamina tudo que toca. “Tudo que você coloca ela f**a com gosto de uva-passa, além de ter um gosto horrível”, afirma com convicção.

E pra você, é com ou sem uva-passa?

Farofa com uva-passa. (Foto: Gabriela Martins)

15/12/2023

COMETA HALLEY
“Caótica, colorida e quem vê de fora vai se atrair ‘nossa que coisa fofa’ e aí ela vai lá te dá uma mordida”. Essa é Halley Star a drag queen que veio para brilhar

Por Mariana Viana e Rebeca Ferro

Quatro anos após a aparição do cometa Halley, nasceu Aline Padilha, que amava balé, maquiagem e animes. Ela mal sabia que ele iria voltar antes da data marcada, em 2017, mas não o que cruzou os céus em 1986, e sim o de dentro dela. Não foi necessário um telescópio para ver a primeira aparição de Halley Star por Campo Grande, ela podia ser vista a olho nu, bem no meio das ruas da cidade. Esse cometa já não era mais um corpo celeste, agora ele se apresentava em um corpo feminino que desfila sobre saltos altos.

Halley Star brilha por onde passa, cada traço seu parece ter saído de um sonho, e de fato é. Ela surgiu como a personif**ação dos sonhos de uma criança. A personagem principal de uma história inspirada em mangás, desenhada à mão, pedaço por pedaço, para alcançar o seu máximo. “Eu gosto de deixar minha boca maior, meu nariz mais fino, um olho bem maior, porque eu gosto muito dessas coisas meio cartunescas, meio anime”.

A cada vez que esse cometa aparece, tudo ao redor de sua órbita se modif**a. Para quem vê de fora, a percepção do surgimento da persona com nome de estrela é clara, ao invés de deixar uma chuva de meteoros por onde passa, o que f**a é um rastro de caos e purpurina. “Tinha dia que [a m***agem] começava lá no quarto, e daí já vinha para mesa e o balcão f**ava todo ocupado. A casa se m***a com ela, é exatamente isso”, é assim que Bruna Nogueira, esposa de Aline, descreve como são os dias de aparição de Halley.

Foi curiosa a forma como Bruna parecia estar falando de uma pessoa que ela não tinha tanta intimidade. Na verdade, é isso que acontece quando Halley entra em cena e a Aline se retira. “São duas pessoas completamente diferentes, eu só seguro a bolsa da Halley porque eu não sou casada com ela, eu fico tipo ‘E aí Halley, tudo bom? Vai lá que a gente compra uma cerveja para você e põe o canudo”. O astro mais parecia ter saído direto das passarelas de um reality show. “Sou super fã de RuPaul, porém nunca achei que teria uma RuPaul em casa. Mas é legal”, comenta Bruna.

O reality show de drag queens mais famoso do mundo, RuPaul's Drag Race, teve grande importância para a construção de Halley. Mas foi assistindo uma das edições da Corrida das Drags, competição campo-grandense de drag queens, que Aline percebeu que a realidade também podia ser como um show. Naquela noite foi uma drag também de nome celeste, Andrômeda Black, que permitiu a ela pensar que poderia brilhar também. “Se nós temos isso aqui, com esse nível de qualidade, eu quero também”. Para Aline, estar naquele lugar rodeada de pessoas que torciam pelas drags como se torce pelos times de futebol, mudou tudo, inclusive ela.

A MULHER POR TRÁS DO COMETA
As inspirações de Aline, não são apenas externas, mas também internas. A artista de 33 anos cursou artes visuais na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) e moda na Universidade para o Desenvolvimento do Estado e da Região do Pantanal (Uniderp). “Eu comecei pensando nessa inspiração não só nas maquiagens e nos cabelos. Em como misturar essa cultura do anime com drag, e também com um pouco de brasilidade. Porque, como eu tenho essa formação em moda e artes visuais, eu faço muito essa mistura, essa tradução de um estilo japonês para o Brasil”.

A drag queen é uma composição artística que junta beleza e técnica. “Eu acho que como toda expressão artística, drag é bem isso, é arte. É um meio de expressão que eu acredito ser muito importante”. Na utilização de materiais alternativos como papel e plástico, e não apenas pano, a criatividade ultrapassa os limites da realidade e se torna algo fantástico. “A minha bagagem com o curso me trouxe essa visão, e é algo que eu exploro muito com a drag”.

Sentadas no canto da sala que vibrava junto às suas cores, nós percebemos a diferença entre Aline e Halley. Ao contrário de Halley, uma figura de gestos expansivos e dramáticos, Aline pouco gesticulava com as mãos, não falava alto e sempre usava um tom calmo para se expressar. Os únicos momentos em que ela se mostrava mais aberta era quando sua esposa ou seus pets, duas cachorras e um gato filhote, apareciam na sala. A interação entre elas emana uma energia animada e confusa, a mesma que faz parte da personalidade da drag queen.

Parecia que a Halley estava por ali também, presente nos cabelos coloridos de Aline, que quase se misturavam com as paredes que mais pareciam uma explosão de cores, e nas tatuagens de cor intensa que ela possui. Para Bruna também é notável como uma carrega um pouco da outra. “Se alguém falar alguma coisa, ela [Halley] já resolve, então eu acho que a confiança e esse trabalho artístico mudou muito. Acho que deu força [para a Aline], porque ela se sente bem fazendo, ajuda um pouco para quando ela está desm***ada. Porque eu acho que a confiança sobe um pouco para ela, não f**a tudo na Halley”.

PRAZER, SUBVERSÃO
Calça jeans, camiseta, roupas folgadas e tênis, é assim que Aline prefere estar vestida cotidianamente. O foco dela é sempre o conforto. Não é de hoje que ela prefere chinelos a saltos, cara limpa a maquiagem, unhas curtas as longas e enfeitadas, a liberdade de ser como quiser ao invés da imposição do feminino. “É legal a gente poder ter o momento de expressar isso [a feminilidade] e de usar não como uma obrigação, mas como um momento de diversão”. Com a Halley, paira sobre o ar a liberdade e o poder de escolha.

Ser insubordinada à imposição social da feminilidade é para Aline uma bandeira que ela levanta através das suas m***agens, sem medo de retaliação. “Acho que a ideia central da drag é essa, não reproduzir e sim subverter”. Seu foco não é fazer uma caricatura, uma representação da figura feminina de maneira super estereotipada. Ela usa Halley como crítica ao papel feminino padrão, de maneira que a torne quase uma animação. “Eu quero que a Halley seja mais um evento, porque eu uso a drag como essa ferramenta de ser algo a mais, de trabalhar o papel feminino em suas possibilidades”.

Ao se descobrir como uma mulher lé***ca, muitos pensamentos vieram à sua cabeça: “Eu gosto de meninas, mas será que eu não posso ser feminina? Eu tenho que negar essa imagem? [...] Se eu gosto de mulheres, eu tenho que reproduzir comportamentos masculinos?”. Mas, gostar de mulher não a faz menos mulher, e a Halley trouxe a confirmação de que ela não precisa ser homem para ser drag e muito menos precisa fazer drag king. “Eu gosto de ser drag queen mesmo, eu gosto de ser princesa, de ser he***na, de ser feminina”.

UM MEIO DE RESISTÊNCIA
Por ser da comunidade LGBTQIAPN+, não se imagina que haja preconceitos contra as pessoas que também participam dela. Mas para contrariar essa suposição, as mulheres drag queens são discriminadas. “Dentro do meio drag as mulheres, por mais que tenham muita qualidade, não têm visibilidade. Se a gente pegar o Instagram e ver os seguidores, likes, curtidas de drags mulheres e drags homens, a diferença é gritante, ainda que a gente tenha a mesma qualidade, a mesma dedicação. E eu já ouvi coisas como ‘Mulher drag, é apropriação cultural’, mas a expressão artística não tem gênero, não tem cor, não tem s**o. É uma representação, é uma expressão”.

Nesse momento o clima da sala não era mais alegre e descontraído, a indignação de Aline parecia ser compartilhada por todas ali presentes, e de fato era. “Se o movimento drag queen é sobre a representação de uma figura feminina, por que mulheres não podem ser?”, questiona Aline de forma retórica. A solução para o problema, porém, pareceu ser algo simples para Bruna. “Eu acho que ela precisa vir para incomodar mesmo. Incomodar dentro da comunidade LGBTQIAPN+, incomodar fora, remexer as coisas. Acho que a drag queen tem esse papel, que é extremamente necessário”.

Esse incômodo não é apenas uma forma de provocar quem discorda da presença de mulheres no movimento drag queen, também é uma maneira de demonstrar força, de se mostrar como um símbolo político. Rindo, Aline lembra da performance realizada no dia do primeiro turno das eleições presidenciais do ano passado, que ela descreve como uma caótica noite de vermelho. “A gente sabe que a arte é uma arma de protesto, como ferramenta de informação. E a Halley foi uma ferramenta de protesto”.

Talvez, ao primeiro olhar, não seja possível perceber que a drag é uma figura muito além de sua aparência extravagante. “Caótica, colorida e quem vê de fora vai se atrair ‘nossa que coisa fofa’ e aí ela vai lá te dá uma mordida”. A definição de Bruna sobre a personalidade de Halley foi no mínimo curiosa, mas fez jus. A persona de Aline certamente é uma figura marcante, por isso o questionamento que f**a é: e o cometa, irá voltar?

A sala banhada pela luz alaranjada de um fim de tarde foi o cenário perfeito para uma despedida. Mas diferente de nós, Halley Star não tem uma hora definida para ir embora. Ao contrário do cometa Halley que tem data para sua volta a cada 76 anos, a drag queen faz de sua aparição um evento inesperado, ela surge quando é necessário. Mesmo que faça algum tempo que Campo Grande não a vê, não se pode dizer que ela nunca mais irá retornar. “Por mais que atualmente eu não esteja me m***ando muito, sempre que surge a oportunidade eu faço. Porque tudo o que a gente faz porque gosta, não pensamos o quanto vai durar, e com a drag é o mesmo, não é algo que dê para medir”.

O cometa Halley Star. (Foto: Arquivo Pessoal)

14/12/2023

ENTRE SALTOS E RELINCHADAS

Gabriela de Jesus e Billyscleyton José. O amor entre uma amazona e um cavalo surgiu no Círculo Militar de Campo Grande, passou por dificuldades e hoje em dia o hipismo os une cada vez mais

Por Emelin Gabrielle e Sanny Duarte

O cheiro do lugar remete às viagens para a fazenda durante a infância, os cavalos estão sempre no horizonte, pastando pelo campo ou em suas baías. As relinchadas e o barulho dos cascos pisando no chão são ouvidos a cada passo dado no Círculo Militar de Campo Grande. Uma moça da pele clara, olhos cor de mel, cabelos castanhos e longos preso em um coque, com uma blusa de manga comprida preta, calça apropriada para andar a cavalo e botas. Suada e com as roupas sujas, consequência do cuidado com os animais, Gabriela de Jesus, com um sorriso no rosto, nos recebeu no local.

Nascida em Ponta Porã (MS) e filha única, br**ca que sua mãe achava que ela tinha que ser um “robozinho” pela quantidade de atividades que fazia durante a infância. Gabriela precisava “se encontrar como pessoa”, praticando balé, piano, natação, inglês, francês, espanhol e hipismo, iniciado aos seus 5 anos de idade no quartel de sua cidade natal. Hoje em dia, aos 28 anos, descreve na biografia de suas redes sociais as suas profissões e talentos. Engenheira Mecatrônica, modelo, “digital creator”, cantora, compositora, gestora de agronegócios e amazona.

Entre muitos cavalos e éguas presentes no local que descansavam para a competição do dia seguinte, Gabriela possui uma afeição maior por Billy, mesmo não sendo sua dona. Antes mesmo de começarmos as perguntas, em uma mesa redonda com banquinhos de madeira, a amazona já comentava sobre a vida dos dois. De forma espontânea, demonstrava a paixão que tem pelo animal. Todo o sentimento que é mostrado nas redes sociais é sentido em cada frase que sai de sua boca sobre o cavalo.

Inicialmente chamado de Billy, mas para incrementar e personif**ar ainda mais ela o batizou de Billyscleyton José; veio de Dourados (MS) e sua raça é Quarto de Milha. Na baía de número 65 estava o cavalo branco, ao passar as mãos sentimos a maciez do pelo do animal, que expressa a sua felicidade de forma equina. Considerado br**calhão, principalmente pela sua idade, relinchava, bebia água e comia durante a visita. No final de 2022, aos 7 anos de idade, o animal chegou ao local para aprender novos percursos do hipismo, mas apresentava dificuldade.

Após um tempo na Alemanha, no dia 20 de janeiro desse ano, Gabriela teve o seu primeiro contato com o cavalo. Ainda em sua fase adolescente, Billyscleyton tinha medo de saltar, desviava de obstáculos, com receio de objetos coloridos, fazendo com que ela chorasse por não conseguir aquecê-lo para as competições, mas foi melhorando com o tempo. Neste ano, um corte na pata fez com que o animal f**asse parado, sem praticar o esporte durante dois meses.

André é o cuidador de Billy, alimentando o cavalo de manhã e na hora do almoço com ração e no período noturno somente com o “volumoso”, composto de capim. Produtos caros e cheirosos, o “kit Billy” é formado por um xampu para branquear e um perfume para cavalo. “Eu amo dar banho nele, porque eu tomo banho junto, é uma delícia”, conta Gabriela. Considerado o pet da competidora, ela diz que se pudesse o levaria para morar com ela, e tudo o que faz, pensa em como poderá melhorar a vida dele.

O cuidado que ela tem com seu cavalo é grande, ventilador na baia é só uma das coisas proporcionada ao animal. Uma mascará facial protetora é colocada para proteger os olhos dele contra as moscas. Medo de veterinário? Sim, o Billy tem. Durante o episódio do machucado da pata, seu veterinário comparecia até o local diariamente para aplicar anti-inflamatório para retirar a dor, o que causou trauma no animal.

Atualmente Billy até “pede” para usar a máscara, apontando o focinho e “sorrindo”. Ela relata que sente saudade e uma sensação ruim ao viajar e deixá-lo para trás, quando vai até a sua cidade natal ou ao ir ao show da Taylor Swift. Billy chegou a fazer greve de fome durante uma viagem de Gabriela.

AS COMPETIÇÕES E A FALTA DE INCENTIVO
P**a cavalo, p**a amazona. Correndo com os cascos na terra, cada salto que é dado pelos obstáculos leva o corpo da competidora a alguns centímetros para cima. Em sintonia, quando as patas da frente chegam ao chão, Gabriela se inclina para frente.

Entre alguns eventos durante 2023, no final do mês de junho, ocorreu um episódio na Competição Estadual na cidade de Dourados. Em um local com muitas pessoas, objetos coloridos e muito barulho, ao entrar na pista, Billy saltou o primeiro, o segundo, o terceiro e o quarto objeto, mas ao chegar no quinto obstáculo que estava em frente da arquibancada, o animal se apavorou com as pessoas, fez uma curva e acabou não conseguindo finalizar o percurso. No segundo dia de competição, melhorou, derrubando menos objetos e no terceiro zerou o percurso sem derrubar nada. Atualmente, ela diz que ele está melhor, que m***a com confiança, pois, sabe que ele vai saltar. “Eu passo meu nervosismo pra ele, ele sente tudo o que eu estou sentindo. Porque em campeonatos, quando os cavalos f**am mais agitados, o cara que está em cima, está desesperado. Então ele sente que você está em perigo”. Os percursos são treinados e intensif**ados para os campeonatos, definidos de acordo com as condições do cavalo.

Gabriela gostaria muito de estar mais incluída nos campeonatos, mas isso se torna difícil por ser um esporte caro e elitizado. A falta incentivo financeiro do Estado dificulta a trajetória da competidora no esporte. Convidada para representar Mato Grosso do Sul na Copa Brasil, que acontecerá na cidade de São Paulo, não terá apoio financeiro, somente a inscrição, tendo que bancar o transporte pessoal, do animal, entre outros gastos. Na internet temos acessos a todo tipo de conteúdo, e é por lá que Gabriela assiste vídeos sobre o hipismo para adquirir cada vez mais conhecimentos sobre o esporte e cuidados com o Billy.

ME DECLARO PARA BILLY
O coração de Gabriela foi tomado por Billy, fazendo com que sua presença se tornasse algo terapêutico. A emoção desenvolvida durante as competições, seja no choro ou estresse, fez com que se apegasse ainda mais e desejasse a conquista não dos troféus, mas do próprio cavalo.

“Quero me dar ele de natal, dia 10 de dezembro é aniversário dele, se eu não comprar de natal, vou comprar de aniversário. Hoje em dia, o que eu mais quero é ele para mim, vou lá no cartório e registar ele como Billyscleyton José de Jesus. Todas as pessoas precisam ter uma coisa que seja sua válvula de escape, tem gente que vai para a terapia, o Billy é meu terapeuta. Quando eu estou bem, quando eu estou mal, quando eu estou de qualquer jeito, aqui é o lugar que eu fico bem, parece que ele me cura”.

Gabriela beijando Billy (Foto: Arquivo Pessoal)

13/12/2023

FRAGMENTOS DE MEMÓRIA
Os desafios da Doença de Alzheimer no cotidiano e na família de Josias Santana, um trabalhador que virou contador de histórias

Por Brunna Brondani e Sarai Brauna

Pode começar com não lembrar coisas recentes, dificuldade para encontrar palavras, desorientação e agressividade. No princípio parece imperceptível ou algo que acontece de vez em quando, mas esses são sintomas de uma condição neurodegenerativa que atinge boa parte dos idosos: o Alzheimer. Josias Santana, aposentado de 84 anos, apresenta os sinais da doença há um longo tempo.

O pernambucano veio para o Mato Grosso do Sul aos cinco anos. Conheceu a esposa, Maria de Lourdes Santana, 80, em Glória de Dourados (MS) e se mudaram para a capital porque queriam dar uma condição de estudo melhor para os filhos. Ao longo de 62 anos de casados, construíram juntos tudo o que têm hoje: a casa, a família e a vida. Josias assumiu algumas profissões para nunca deixar nada faltar à família. Foi taxista, ourive, fotógrafo, dono de bar e vendedor de doces.

Há 20 anos, Josias viu a esposa na garupa de uma moto usando uma saia longa. Ao contar para os filhos, a história se tornava cada vez menos plausível. Maria tinha ido ao ponto de ônibus, mas não tinha subido em uma moto. Maria não tinha uma saia longa. Esse foi um dos primeiros sintomas que o aposentado apresentou ao longo dos 13 anos sem diagnóstico. Enquanto isso, os dias eram como todos os outros.

Aos sábados os membros da família Santana — os filhos Maria José, 56, Gilson, 54, e Sueli, 49 —, e os mais próximos, sabiam que uma reunião estava marcada, não formalmente, mas era uma parte da rotina do final de semana. Sentados em cadeiras formando uma roda, conversando casualidades, seu Josias começava a contar uma história de uma de suas tantas profissões.

Fábio Florentino, casado com Sueli Santana, sabia de todas as histórias. Sentava na varanda com o sogro e começava a ouvir ele contar de quando era taxista, ourive, fotógrafo, pastor e presidente de bairro. Mal sabiam que no futuro elas aumentariam, e descobririam estar falando com um ex-soldado que subiu a patente para tenente, caso que ganhou forma após ter ganhado um boné verde.

SAPATO,JANELA E CARRO
Para os filhos, apesar dos pequenos sintomas apresentados pelo pai, o Alzheimer começou sete anos atrás com o diagnóstico. Josias caiu de dois degraus da escada quando trocava uma lâmpada em frente de seu antigo bar. Maria José, única filha que mora em Campo Grande, levou o pai para o hospital para fazer uma tomografia.

Após a queda começou a sentir muita tontura e por isso passou por diversos exames. Josias tinha histórico de labirintite — uma infecção no ouvido interno que pode causar problemas para se equilibrar, náuseas, tonturas e vertigens. Em uma dessas idas ao hospital, os médicos acharam falhas na memória, o que fez a família buscar um neurologista cognitivo.

Durante os exames a médica aplicou te**es neuropsicológicos, como o Exame do Estado Mental (MMSE). Um deles consistia em falar para Josias três palavras, Sueli conta que as dele eram: sapato, janela e carro. Em seguida, a profissional fazia uma pergunta simples sobre o paciente, como sua idade, por último perguntava quais palavras tinha falado inicialmente. Josias só conseguia repetir uma.

Após o diagnóstico, Maria de Lourdes ainda passou alguns anos cuidando sozinha do marido. Mas quando os sintomas se tornaram mais frequentes, os filhos se reuniram para decidir como funcionaria a rotina. Cada um passaria cinco dias na casa dos pais. O acordo funciona até hoje.

O Alzheimer evoluiu com o tempo. As histórias, que tanto repetia, foram sumindo e as lembranças foram cada vez mais se tornando inexistentes. Os filhos deixaram de ser figuras conhecidas, agora o chamam pelo nome, pois já não responde por pai. Maria de Lourdes, que o acompanha desde o começo, agora é chamada de mãe pelo marido. Como filho obediente que cresceu sendo, pede a bênção quando a vê.

O CUIDADO
Sueli relata com um carinho na voz que além de ser um exemplo de pai, é a pessoa mais honesta que já conheceu na vida. “Criou tão bem os filhos que hoje os três estão aqui cuidando dele com muito prazer”. Como é a mais nova dos irmãos, tenta lidar com as adversidades do dia a dia de cuidar do pai com leveza e bom humor.

Ao refletir sobre a doença, busca um lado bom. “Você vê que a gente ainda consegue br**car, se divertir, tem uns momentos ainda e você não vê sofrendo. Tá ali quietinho, não tá sofrendo.” Mas nem todos os dias são assim. A filha relembra de quando precisou tirar todos os trincos dos banheiros e uma das portas para dar lugar a uma cortina.

Outros cuidados como esse são necessários. Segundo o médico neurologista e professor de Medicina da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS), Omar Gurrola Arambula, o cuidador deve evitar quedas do paciente em casa, conhecer medidas para reduzir a agitação, realizar atividades físicas e fortalecer estratégias para evitar acidentes no banheiro. Além disso, é crucial saber como agir para diminuir o estresse do idoso. Também não recomenda discutir ou corrigir constantemente, pois provavelmente o paciente vai esquecer o que foi repetido várias vezes, causando frustração nos envolvidos.

"EU PRECISO TRABALHAR"
Ao chegar na casa de Josias e Maria, nota-se ao lado as duas portas de metal fechadas do que antes era um bar. O barulho do portão indica que está abrindo e dá acesso ao interior da propriedade. Na varanda há três cadeiras, Sueli conversa com a mãe, enquanto isso, com os olhos fechados, Josias repousa um pouco mais para o fundo, o que virou uma rotina por causa da medicação. De vez em quando balbucia algumas frases.

O final da tarde de domingo era o momento de se exercitar um pouco. Sueli chama “Seu Josias”, com insistência, Josias levanta da cadeira para ir até o portão. “Tá tudo igual”, diz ao olhar a rua. Quando solicitada uma entrevista, o aposentado nega e revela que precisa ir trabalhar. A vida toda de trabalho ainda se faz presente em sua memória até os dias de hoje. O homem que era tão ativo, hoje passa boa parte do dia dormindo.

Ele continua sendo o Josias pastor, o Josias dono de bar, o Josias vendedor de doces, o Josias ourive, o Josias taxista, o Josias fotógrafo, o Josias pai, o Josias marido e o Josias filho. Passou por todas essas fases novamente, do presente para o passado, em poucos anos acreditou viver ainda nelas e se orgulhava de contá-las repetidas vezes. Esse Josias ainda existe, apenas perdido em alguns fragmentos de memória.

Josias na calçada de sua casa. (Foto: Brunna Brondani)

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