18/12/2019
ARCA DA ALIANÇA.
Eva
1.
A culpa toda
me reveste
e eu nua.
Ouvi o que
a serpente
sussurava
e caí.
Com Adão.
Nos desterrou
o anjo.
Era o conhecimento
de um pudor
ou soluço.
O que pode
a dor,
se nenhum traço
nos julga?
Com medo,
escondo a face.
E opaco, nulo o riso.
Tudo é desconhecido
fora do paraíso.
2.
Existimos na graça
que não tinha nudez,
nem veste. Mas a lassa
alegria de fluir na arragem da tarde,
Deus. E o que preparara
para nós: o rio
a regar um jardim
de frutas claras.
E árvores, árvores.
Entre elas, no centro,
a da vida. E outra,
que não podíamos
tocar. Uma palavra
e vergava com a morte,
a morte, a morte,
o apodrecimento.
E não escutei Deus,
mas a serpente. E Adão,
de quem gerada fui,
me ouviu, sem o grão
Sequer de algum sentido,
sem a razão, o vínculo
do amor que nos reverte.
E expulsos formos do Éden.
E com espada flamejante,
anjos o guardavam, enquanto
íamos os dois, desventurados
encher o vale humano.
Porém, uma mulher,
como eu, pela semente,
vem, e com a planta
do pé que floresceu,
esmagará a serpente.
E sob as folhas
da figueira tapamos
a nudez e continuamos
nus, continuaríamos,
se Deus não nos cobrisse
de outra pele viva,
do único capaz
de abrir o selo:
a pele do Cordeiro.
Carlos Nejar - Os Viventes.
Gravura de William Blake.