29/01/2024
Joseph Campbell, ao comentar sobre a importância do herói ser imolado ao final de sua jornada, acaba fazendo uma diferenciação entre a morte do herói ocidental. Para ele, o herói ocidental precisa morrer mais vezes, continuamente, na verdade. Mas qual a razão disso?
Coloco aqui minha resposta a partir de sua obra:
É preciso entender que Campbell define a cultura como o segundo útero humano. Isso quer dizer que os símbolos culturais, se ainda estiverem vivos e ativos, organizam e dão sentido às experiencias humanas. Mas para entender esta questão é preciso lembrar, também, que este segundo útero so tomou este lugar por que houve uma falta instintiva. Em outras palavras, o ser humano, por algumas razões especuladas na história evolutiva, passou a nascer com seu sistema instintivo aberto, na maior parte, e fechado em menor. Campbell faz uma discussão muito interessante (e importante para compreender o desenvolvimento de suas ideias) sobre isso no seu livro Mitologia Primitiva (ainda que com informações antigas para nosso momento atual). Mas este ser humano, então, ainda possui respostas instintivas inatas (fechadas, chamada de chave-fechadura), mas não está completamente fechado dentro de um sistema reativo como os animais. Um animal vai repetir comportamentos da sua espécie por milhares anos, somente modif**ando-as de forma coletiva, ou seja, como espécie, de forma devagar e à partir de todo um jogo entre as respostas antigas dadas que não servem mais ao meio e novas características físicas surgidas espontaneamente que podem dar conta deste meio. Todo este processo evolutivo, então, criaria uma resposta nova inata, após milhares de anos, para o que até poderia se tornar, então, uma nova espécie animal. Como o ser humano faz parte de um esquema semi-fechado (ou semi-aberto), isso quer dizer que muitas respostas instintivas inatas não estão mais lá e, esta condição, aliada ao próprio surgimento da possibilidade de imaginar, fez com que uma representação do mundo fosse criada dentro de si mesmo, ou os símbolos que intermediam sua relação com o mundo. A partir daí, este símbolos culturais vão tomando o lugar da falta instintiva, tornam-se respostas apropriadas para os problemas que enfrentamos. Estes símbolos culturais, então, refazem, de uma outra forma e não com a mesma durabilidade, as respostas inatas instintivas, “fechando" uma vez mais a resposta que temos para sobreviver e viver com sentido profundo. Esta é a primeira parte da resposta desta pergunta.
Vamos à segunda parte: Já que o segundo útero humano é a cultura, o que acontece quando esta cultura é desmontada simbolicamente? Ou seja, o que acontece quando estes símbolos que nos ajudam a ter sentido e orientação, morrem? Pois foi isso que aconteceu na história ocidental. E Campbell tem sua própria hipótese do porquê disso ter acontecido que não apontarei neste momento. Claro, mais uma vez houve uma reação. Na medida em que o segundo útero humano ocidental perdeu sua principal função, surgiu o mundo interno individual, subjetivo. Há aqui uma diferença entre o mundo interno que surge como representação do externo e é construído coletivamente como cultura (transformando-se em coletivo e externo, de novo, mas com efeito interno, como os instintos), e um mundo subjetivo interno que é naturalmente projetado para fora, quase como uma tentativa natural de buscar uma velha resolução perdida, quando o interno e externo estavam alinhados. O grande problema do ocidente, então, acaba se tornando os mundos externos projetados por tantos mundos internos diferentes e que, por si só, já estão tentando sobreviver em meio a uma cultura envelhecida que ainda é passada adiante de forma generalizante para as novas gerações, mas que não têm efeito ordenador e signif**ativo algum. Portanto a briga entre a vida signif**ativa individual e a vida sem signif**ado (talvez nunca seja possível dizer que está completamente morta) coletiva, já está de cara lançada para o recém-nascido no ocidente. Mas para além disso, há um outro importante problema que finalmente responde a questão aqui: Ao ter seu próprio mundo simbólico interno montado através de resquícios de uma cultura coletiva, e que é projetado como uma busca por sentido e conexões muito particular no mundo externo, o indivíduo também se vê preso numa espécie de “Jihad" contra aquilo que não é seu mundo e, portanto, corre o grande risco de virar seu próprio militante tentando fazer do mundo seu paraíso. Em outras palavras, esta subjetividade causa uma espécie de angústia pelo encontro signif**ativo que, com o tempo e o aumento da sensação de vazio existencial, pode criar uma reação de imposição projetiva de si-mesmo sobre o mundo externo. A sua verdade torna-se a grande questão e, com ela, o fato da consciência tender à adaptação e à repetição daquilo que parece promover a vida. Esta consciência, aquilo que conhecemos sobre o mundo e nós mesmos, tende à repetição, pois busca sempre adaptar-se de modo a promover a sobrevivência. Portanto, com ela, podemos tanto estagnar dentro de uma condição terrível, sem sentido ou vida, ou com as mais baixas condições (isto serve para tudo, tanto para relacionamentos com o mundo e outras pessoas, como para consigo próprio). Isto é o que poderia ser chamado de morte da imaginação. É claro que não é o fim da imaginação como tal, mas uma estagnação, ou sua incapacidade de pensar para além daquilo que se cristalizou como sendo sua própria vida ou identidade. Este é o ponto em que abrem-se as jaulas de animais e eles já não mais fogem, pois não conseguem mais imaginar o mundo para além daquele espaço que tomou conta de todas as possibilidades de existência. Agora façam o exercício de imaginar este problema dentro de cada camada social e seus modos de sobrevivência, assim f**a fácil compreender como a mudança da imaginação, mesmo que ainda não seja possível uma mudança concreta da realidade com todo o seu potencial, é de primordial importância (pensem nas pessoas que passaram a imaginar que não pertenciam a lugares como shopping centers, etc). O problema desta questão está no também pesado fato da consciência tender a se adaptar e se repetir, entrar num tipo de vício de perspectiva. Como é uma tendência natural de sobrevivência, a consciência apega-se a o que parece oferecer sentido e promover a vida e luta por manter-los como são. E isso pode ser bom ou ruim, porque, obviamente, também precisamos da adaptação, que nos gera o mínimo esforço e promove a constância da vida (tomamos banho sempre do mesmo jeito, sentamos na mesa ou dormimos no mesmo lado da cama sempre, e por aí vai.) A consciência, então, pode tornar-se viciada e, assim, doente, morta imaginativamente, exagerada. E estando assim, você vai ter todo o tipo de problema, tanto interno quanto externo, já que terá que confrontar tanto a multiplicidade de realidades em cada outra pessoa que expressa sua individualidade (também possivelmente doente) no mundo, quanto suas próprias outras verdades que foram colocadas de lado na hora em que houve um apaixonamento, uma necessidade de comportamento ou ate mesmo quando você decidiu lutar pela sua causa. Todas essas, além de tantas outras que nunca conheceremos, serão importantes por um lado, e ameaçadoras da sua liberdade por outro. Todas correm o risco de virar verdades estagnadas e “um impulso em direção ao mundo que necessita de análise” como diria um famoso psicólogo Junguiano, e que completaria este alerta dizendo “ou então você se torna um missionário.” Finalmente, fechando a questão: Como o ocidental não possui mais a orientação válida da cultura simbólica viva, ele tem, como consequência, segundo Campbell, o frescor e o terror da própria liberdade. Liberdade que oferece o mundo todo de escolhas, mas também toda a falta de orientação e sentido que uma cultura milenar e experimentada poderia suprir e, talvez num piscar de olhos, dizimar com qualquer ato da vontade acolhendo e sustentando a vida de cada um destes indivíduos maternalmente. Tudo o que, talvez, cada um destes ocidentais desejaria, mas o que nos sobra é a busca interna, confusa, inédita (pois é sempre de cada um), mas ao mesmo tempo aquilo que nos dá sentido, a busca pela busca. E como ocidentais acabamos precisando da autoimolação mais vezes que o oriental (continuamente, Campbell diria), pois, sem a experiencia da cultura coletiva viva, estamos sempre fadados ao exagero da consciência adaptada, viciada, sempre precisando do “estranho outro” para fornecer uma comparação e desvendar nossas conclusões mais afetadas sobre a realidade, nossos exageros justif**ados pela nossa imensa identif**ação com nós mesmos, nossa principal referência para esta busca. Precisamos morrer, para acordar, morrer para deixar de matar as possibilidades imaginativas, para continuar a ter a possibilidade de ver aquilo que nem imaginávamos, ainda, em nós mesmos, mas que o inconsciente já gritava de longe para tentar reequilibrar tudo aquilo que, julgado inócuo, estava sendo jogado fora ou escondido debaixo do tapete pela arrogância e identif**ação do próprio eu. O maior mal daquilo que é mais corriqueiro e, assim, deveria ser o mais aguardado, o ensimesmamento. Não há democracia sem ele, não há relação, não há feminino, masculino, esquerda ou direita, nada. Tudo é arrasado por aquilo que é mais comum ao ocidental e, portanto, deveria receber o maior cuidado. Por isso a análise é um confronto moral, como colocou Jung, e por isso ela é tão difícil até para aqueles que, entendendo esta questão, se colocam a disposição dela. Depende, necessariamente de coragem para reavaliar suas posições, mas também para carregar consigo sempre, em todos os momentos, a duvida, a possibilidade da incompletude e da cegueira, algo muito mais difícil de acontecer por toda a angustia que gera como consequência. Até esta sua disposição, ela mesma, pode mostrar-se o maior mal, sua maior queda, pois ela mesma torna-se uma verdade. Não é nada fácil realmente morrer, é mais fácil, muito mais fácil, matar.