Circuito Educação

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Ajude o Espaço Elevador! 07/01/2019

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01/12/2018

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14/11/2018

MOVIMENTO ESCOLA SEM PARTIDO - REFLEXÕES IMPORTANTES

Por que escolas democráticas e comprometidas com a formação de pessoas com pensamento crítico e autonomia moral e intelectual não podem aceitar as propostas do Escola Sem Partido?
Grupo de Escolas Critique:

Nas últimas semanas, temos visto um conjunto expressivo de artigos e manifestações de educadores, pesquisadores, instituições de ensino, imprensa e sociedade de um modo geral, sobre a proposta conhecida por Escola Sem Partido (ESP). Os posicionamentos aumentaram nas mídias porque esse movimento avançou consideravelmente, visando influenciar a opinião pública com argumentação que facilita o convencimento. Com isso, ameaça transformar suas propostas em lei e submeter escolas e educadores aos seus preceitos.

Esse movimento, ao contrário do que pode parecer, não visa apenas combater o proselitismo político em sala de aula. O nome, Escola sem partido, ilude o observador distraído e a aceitação à primeira vista parece óbvia: evidentemente as escolas não têm que tomar partido político! No entanto, não é bem isso. Trata-se de uma organização da sociedade civil, que se autodescreve da seguinte maneira: "composta por pais e estudantes, preocupados com o grau de contaminação político-ideológica das escolas brasileiras, em todos os níveis: do ensino básico ao superior”. Declara que se propõe a: combater ideologia, educação sexual e temas relativos à moralidade por entenderem que isso é função da família.

Nós, profissionais que atuamos com a prática educativa, entendemos que escolas democráticas, que visam a formação de jovens autônomos, com pensamento crítico e sensibilidade social, não podem apoiar as intenções acima descritas; ao contrário, escolas democráticas, para serem coerentes com seus propósitos educacionais, com os projetos pedagógicos pelos quais são conhecidas e por meio dos quais escreveram suas histórias, devem combater com firmeza e propriedade as ideias divulgadas por este grupo.

E por quais razões?

Escolas que visam que seus alunos construam autonomia, pensamento crítico e capacidade de criar não são lugar de repetição de cartilhas prontas, muito menos de ideias-verdade, ou de dados e fatos “neutros” que não ajudam a desenvolver a capacidade intelectual dos alunos. Para fazer pensar é preciso provocar, oferecer diversas lentes de leitura da realidade, situações-problema variadas e teorias consistentes. É preciso ter liberdade para evocar, contrapor, duvidar. Só um professor bem preparado, comprometido e livre pode agir dessa maneira.

A sala de aula que faz pensar, regida por profissionais que acreditam na capacidade de aprender dos alunos, é o lugar do inusitado, do imprevisível, do imponderável, quase nunca um dia é igual ao outro. E por que é assim? Porque os alunos são seres pensantes, que igualmente duvidam, provocam, analisam e confrontam. Nenhuma aula é exatamente como o professor planejou. Ele é contestado, questionado e perguntado, especialmente quando os aprendizes estão motivados e percebem sentido no que os professores propõem. Suas propostas podem funcionar ou não, às vezes falham e precisam ser ajustadas no momento da aula. Em todas as circunstâncias, sucesso ou não, o professor tem que justificar suas propostas, considerar o que foi dito pelos alunos, fazer ajustes e eventualmente até admitir que não tem a resposta para aquela pergunta. Nesse jogo de dúvidas, de buscas, confronto de ideias e de permanente inquietude intelectual, se dá a construção do conhecimento. A construção de um conhecimento autêntico, não mera reprodução ou repetição do que o adulto quer ouvir.

Mas, para que uma sala de aula funcione dessa maneira, é preciso garantir certas condições estruturais ao longo do tempo, pois essas características dos alunos e dos professores não surgem do nada, não fomos formados para agir dessa maneira. A maioria de nós foi formada na escola do passado, onde obediência e reprodução eram a tônica. Para que a sala de aula seja como a que descrevemos no parágrafo anterior, é preciso que todos se sintam autorizados a pensar, sejam reconhecidos como sujeitos únicos, haja espaço para erros e acertos. É preciso construir relações de cooperação mútua entre os estudantes e estas só podem se desenvolver em ambiente de confiança. Os alunos precisam confiar que o professor vai legitimar suas dúvidas e utilizá-las para o processo de construção de conhecimento de todos no grupo. O professor precisa confiar que os alunos irão expressar suas ideias e opiniões. O grupo precisa saber que a voz de cada um e de todos está garantida e protegida.

Nada disso acontece por acaso, por decreto ou do dia para a noite. São posturas que são desenvolvidas e incentivadas do início ao final da escolaridade básica. Aprender a ouvir o outro, mesmo quando ele sabe menos que você, participar seguidamente de debates assumindo posições em que acredita ou não, expor suas contribuições para o restante do grupo, reconhecer suas falhas, trabalhar em grupo, cuidar do meio ambiente, reconhecer as diferenças e encontrar seu espaço no grupo são conquistas que ocorrem em escolas que constroem um projeto político pedagógico que valida as situações de aprendizagem que geram aqueles frutos.

É dessa forma que essas escolas ensinam a pensar: com liberdade, diálogo, aceitação das diferenças e confiança mútua. Nesse processo, o erro pode fazer parte do cotidiano de todos. Mas, na estrutura de nossas escolas, o orientador, o coordenador e o diretor avaliam e analisam permanentemente com a equipe de professores as práticas pedagógicas do professor, suas decisões, em uma relação profissional entre adultos. É no plano profissional que se discutem os planejamentos e acontecimentos em sala de aula. Não consideramos moralmente educativo inverter papéis, convocando os alunos para serem os vigias de seus professores!

Para exercer a alteridade, o educador precisa estar legitimado como o adulto que tem a autoridade no processo educacional, o que não pode fazer coagido, controlado de fora para dentro, refém da interpretação equivocada daquele que pretende educar.

Ao perder sua liberdade em sala de aula, o profissional da educação de escolas como as nossas perde sua profissão, integralmente. Restará a ele a reprodução de um plano de trabalho rígido, pautado em uma falsa neutralidade, eventualmente tendo por base materiais prontos, elaborados por terceiros, padronizados e empobrecidos. E isso, para nós, não é o mesmo que ser um educador.

Para seguirmos educando seres pensantes, reflexivos, autônomos e éticos não podemos abrir mão das seguintes condições:

a) liberdade para educar e agir profissionalmente em sala de aula, garantindo o direito de crianças e jovens de serem formados com base nas teorias mais contemporâneas sobre aprendizagem;


b) ambiente de trabalho coletivo profissional, autônomo, capaz de analisar sua prática com liberdade e coerência, capaz de dialogar com as famílias e alunos sem a intervenção de pessoas alheias ao processo de ensino e aprendizagem em curso;


c) ambiente de confiança plena entre os partícipes do projeto pedagógico.


O tema é complexo e não se encerra aqui. Vamos continuar refletindo em outros textos que serão publicados.

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