10/06/2020
CINEMA - RESENHA - ANÁLISE - por MAURÍCIO FESTA
UMA GARRAFA NO MAR DE GAZA
UNE BOUTEILLE À LA MER (França, Israel, 2011)
Direção: Thierry Binisti
Com: Agathe Bonitzer, Mahmud Shalaby, Hiam Abass, Riff Cohen, Abraham Belaga, Jean Philippe Écoffey, Max Van Oleartchik
Crítica por Maurício Festa
Quando temos qualquer notícia sobre a guerra, que permeia décadas, entre israelenses e palestinos, não nos parece, olhando sem paixões, que o fim desse conflito sangrento só vai ocorrer quando um dos lados empurrar o outro para dentro das águas do Mediterrâneo?
Mas enquanto nenhum dos povos é afogado (só em seus banhos quase diários de sangue), o filme conta a juvenil história de Tal e Naim. Tal, uma jovem francesa que migrou com a família judia para Jerusalém. Uma Jerusalém que nos é apresentada festiva e alegre – uma alegria que pode terminar, de repente, com a explosão de uma bomba em um café movimentado, em plena luz do dia.
Naim é um jovem palestino que mora em Gaza, um pedaço triste de terra pobre, apropriado e cercado pelo imenso muro construído pelo Estado de Israel. De Gaza para Israel, e vice-versa, e não necessariamente nessa ordem, mísseis passam sobre o muro, e as mortes se acumulam. Assim não dá para amar o vizinho, não é?
Pode-se tentar, como nessa pequena metáfora, em que a garrafa que Tal põe ao mar é recolhida por Naim enquanto ele vagabundeia com seus amigos pela praia. E essa metáfora (e que tem, portanto, um propósito) se constrói ingênua, ainda que factível com um tanto de muita sorte: a surpresa da chegada da mensagem de Tal, que pergunta o porquê dessa guerra; a curiosidade mútua; a desconfiança inevitável; os passos avançando lentos através dos emails; o esconder dos pais e amigos o secreto comum segredo, até que, nessa fantasia, o mundo real do medo e ódio se reduz à necessidade imperiosa de que é possível a intimidade amorosa entre uma menina judia e um menino palestino – sem que ninguém tenha que morrer afogado nas águas do mar.
Naim começa a aprender francês, quer ir para Paris. Será quem Tal e Naim vão se encontrar na velha imperial França, vão namorar, vão viver juntos? Será que palestinos e judeus irão se espelhar nessa fantasia e o mundo vai conhecer finalmente a paz nesse Oriente? Nunca saberemos, o filme não conta o fim da metáfora.
O que ficamos reconhecendo mesmo é a tragédia daqueles que vivem presos, cercados por um muro intransponível e a tragédia daqueles que vivem fora do muro, pois todos, de ambos os lados, esperam que a qualquer momento o céu límpido sobre o deserto seja riscado por mísseis que voam sobre o muro, nas duas direções.
Maurício Festa – [email protected]