18/10/2013
>>A empresa que fabrica desde autopeças até escolas de plástico está prestes a decolar: até o final de 2014, sua meta é crescer nada menos que 900%
Anote aí: em menos de dois anos, a paranaense MVC vai crescer 900% – isso mesmo, 900%. Especialista em plásticos de engenharia, um negócio cada vez mais essencial na indústria automotiva, aviônica e de construção civil, a companhia acaba de anunciar ao mercado o objetivo de expandir sua receita líquida anual de R$ 152 milhões para R$ 1,5 bilhão até o final de 2014. Uma meta arrojada, para dizer o mínimo. Mas que não assusta o diretor-geral Gilmar Lima, o homem encarregado de atingi-la. Afinal, o salto não é uma simples expectativa. É um compromisso, previsto em contrato. “Só neste ano, vamos dobrar a nossa receita líquida e chegar a R$ 300 milhões”, informa Lima, sem nenhum assombro.
No início deste ano, a MVC venceu cinco pregões eletrônicos do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (MEC-FNDE). Numa tacada, fechou negócio para construir 1.050 creches em nove Estados brasileiros. As unidades, já em produção, são frutos de um sistema construtivo desenvolvido pela própria MVC, conhecido como Wall System, que substitui o concreto e o aço por placas de plástico, fibra de vidro, EPS e gesso. Leves e duráveis, as peças agilizam a montagem das creches e, segundo Lima, tornam a construção mais barata. Para o governo federal, elas representam um meio de cumprir rapidamente as metas do Proinfância, como é conhecido o Programa Nacional de Reestruturação e Aquisição de Equipamentos para a Rede Escolar Pública de Educação Infantil. Só neste ano, o programa pretende entregar à população cerca de 1,5 mil creches em todo o país. Graças à MVC, que fará a maior parte delas, a promessa se tornou exequível.
Eduardo Kunst, presidente da Artecola, que controla 76% do capital da MVC (os 24% restantes pertencem à Marcopolo), mostra-se entusiasmado com o potencial dos negócios na área de construção civil – ainda mais agora, com um cliente tão expressivo na carteira. “Para o governo, isso é só um projeto-piloto. É grande para nós, mas ainda é pequeno para o Brasl”, diz ele. Segundo Kunst, o sistema Wall System vem sendo testado há quase uma década, em Angola e em alguns Estados do Brasil. Na maioria dos casos, a demanda se encontra em regiões com carências sociais e econômicas. Em 2011, por exemplo, a MVC ganhou uma licitação para entregar 35 escolas para o Estado de Alagoas – que, algumas semanas antes, fora abalado por uma grande enchente.
Agora, com os contratos firmados com o MEC, Kunst espera que a tecnologia se difunda não só no Brasil, mas também na Ásia, na África e em toda a América Latina, especialmente nos rincões mais desassistidos, que demandam sistemas construtivos mais acessíveis. “É uma tecnologia muito atual, com um custo de manutenção bem menor do que o convencional”, diz ele.
A maior vantagem do sistema é a rapidez de montagem. As creches levam, no máximo, 60 dias para sair do chão – 30 dias a menos do que o prazo máximo estabelecido pelo MEC. As placas plásticas saem da fábrica já com os recortes de fiação e de esquadrias e a montagem é feita por encaixe, o que dispensa o uso de parafusos. “Entregamos as creches com a chave na porta e todas as instalações elétricas e hidráulicas prontas”, garante Kunst. Os únicos materiais tradicionais são as portas, janelas e telhas. E se engana quem pensa que os imóveis ficam com uma aparência capenga. A durabilidade, destaca Kunst, é justamente um dos diferenciais das “creches de plástico” da MVC. “Elas não oxidam e não enferrujam. O isolamento térmico e acústico é fantástico – você dificilmente escuta o barulho que vem da sala ao lado, como ocorre nas construções tradicionais”, vangloria-se ele.
Sozinhas, as creches já permitiram um salto substancial nas receitas da MVC. Mas, com elas, vieram também outras oportunidades. Inscrita no programa “Minha Casa, Minha Vida”, a empresa venceu uma concorrência para construir 550 residências no Rio Grande do Sul. Encontrou, aí, mais um impulso para chegar aos 900%. “É a nossa consolidação no setor de construção civil e um reconhecimento da nossa capacidade de desenvolver novas tecnologias”, diz Gilmar Lima, da MVC.
Para dar conta da demanda, a companhia está usando suas duas fábricas no sul do país, localizadas em São José dos Pinhais (PR) e Caxias do Sul (RS). Também abriu uma nova unidade em Maceió (AL), que será usada para facilitar a logística de produção e distribuição das creches nos Estados do nordeste. Isso sem contar as plantas complementares em Catalão (GO), Sete Lagoas (MG) e Camaçari (BA). O investimento em toda essa empreitada soa irrisório perto do resultado anunciado: ao todo, a MVC está aplicando R$ 25 milhões nas novas operações e negócios. Desse total, R$ 15 milhões serão aplicados ainda neste ano. Os
R$ 10 milhões restantes virão em 2014, a partir de um convênio firmado com a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) – que adiantará entre 70% e 80% dos recursos.
Muito além do plástico
Os plásticos da MVC são bem diferentes daqueles que todos estão acostumados a usar no dia a dia. Esqueça sacolas, escovas de cabelo, revestimentos e outros itens frágeis ou descartáveis. O que sai das fábricas da empresa são produtos compostos de alta durabilidade, conhecidos como compósitos. Além de casas e escolas, a MVC produz uma série de autopeças – de paralamas para caminhões até aerofólios –, revestimentos para caixas eletrônicos, painéis e carenagens para trens e componentes para aerogeradores em usinas eólicas. Uma linha de alto valor agregado que começou a tomar forma no final de 2008, quando a Artecola assumiu o controle operacional da companhia – até então, ela era uma espécie de subsidiária que fornecia peças para os ônibus da Marcopolo. Na época, lembra Eduardo Kunst, cerca de 95% dos negócios da MVC se concentraram no setor automotivo. Era preciso diversificar. “Tínhamos de diminuir o nosso risco – afinal, qualquer segmento tem seus bons e maus momentos”, explica ele. Na visão do presidente da
Artecola, uma empresa focada num único setor tende a ser menos inovadora. “Ela acaba ficando dentro de um só paradigma e não aproveita o aprendizado de outras áreas”. A MVC se esforçou para evitar a superdependência em relação a um único setor. Deu certo: hoje, os negócios de construção civil respondem por metade do faturamento da empresa. A outra metade vem, basicamente, do setor automotivo.
Mas a ideia é diversificar ainda mais. Ainda neste ano, a MVC pretende expandir as vendas no segmento de materiais para carrocerias de trens, vagões e vans. A empresa acredita que seus compósitos plásticos são substitutos ideais para os componentes de aço aplicados nesses tipos de veículos. Um exemplo é o TR-Lite, um compósito desenvolvido com materiais 100% reciclados. Segundo Gilmar Lima, o material é tão durável e resistente quanto o aço, com a vantagem de ser 40% mais leve e bem mais versátil – pode ser ser aplicado em painéis, revestimentos e até nos pisos de ônibus, vans e implementos rodoviários. “Também iniciaremos duas novas operações em parceria com outras empresas”, revela Lima. Uma delas é a joint venture Stabilit-MVC, que desenvolve perfis para o segmento da construção civil e transporte. A outra é a BFG Brasil, empresa especializada em peças plásticas para o setor ferroviário.
Em março, a MVC firmou uma parceria com a Gamesa, companhia espanhola que fabrica aerogeradores para usinas eólicas. Pelo acordo, a MVC será responsável por fornecer o bico e a fuselagem dos aerogeradores da Gamesa, cujas operações estão concentradas em Camaçari, na Bahia. “Estamos buscando aproveitar o melhor possível cada oportunidade”, destaca Lima.
Marca dos novos tempos
A diversificação dos negócios representou uma guinada estratégica para a MVC. Foi tão expressiva que a empresa decidiu expressá-la também na sua marca. No final de junho, ela estreou uma nova identidade corporativa. O logotipo ficou mais moderno e legível e o nome da empresa recebeu uma espécie de assinatura: “MVC Soluções em Plásticos”. O objetivo, segundo Lima, foi destacar as características e o conceito de força, modernidade e inovação que passaram a nortear os negócios da empresa. “A estilização e modernização da identidade visual permite que o logotipo acompanhe a evolução dos nossos produtos, que são aperfeiçoados a cada novo lançamento”, teoriza Lima. Segundo ele, antes da renovação, o logotipo era pouco convidativo – os próprios funcionários da MVC tinham dificuldade para entender o que estava escrito. “Com a nova marca, ficamos mais fortes inclusive para atuar no mercado externo”, acredita o diretor-geral da MVC. Pelo visto, os 900% são nada mais do que um arrojado primeiro passo.