Cadernos de Linguística

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11/08/2026

Coloque uma lupa sobre uma pilha de teses e a primeira coisa que salta aos olhos é o quanto elas têm pouco em comum.

Essa é a situação de partida de um estudo de Jefferson Evaristo, Cynthia Vilaça e Cláudia Moura da Rocha, da UERJ, publicado em Cadernos de Linguística. Buscando a expressão "descrição do português" no Catálogo de Teses e Dissertações da CAPES, os autores recuperaram 176 trabalhos defendidos entre 2000 e 2024. Uma dissertação que edita manuscritos do século 18 e outra sobre ensino de português a falantes de outras línguas atendem pelo mesmo rótulo e voltaram na mesma busca.

O trabalho do estudo está na triagem. Lendo títulos e resumos um a um, os autores alocaram cada pesquisa em um de sete grupos e depois contaram. O ensino de português a falantes de outras línguas ficou com a maior fatia, 45 trabalhos. Sentido ficou com a menor, 11. A distribuição institucional se mostrou igualmente desigual, com 82 das 176 teses e dissertações produzidas em uma única universidade.

Os autores não apresentam os sete grupos como o único arranjo defensável. Observam que outro leitor poderia organizar os mesmos resumos por outros critérios, e oferecem a contagem como ponto de partida para quem vier depois, não como descrição definitiva do campo.

Leia o estudo completo de Jefferson Evaristo, Cynthia Vilaça e Cláudia Moura da Rocha.
DOI: https://doi.org/10.25189/2675-4916.2026.v7.n5.id1002

11/08/2026

Put a magnifying glass over a stack of graduate theses and the first thing you notice is how little the pile has in common.

That is the starting condition of a study by Jefferson Evaristo, Cynthia Vilaça, and Cláudia Moura da Rocha of UERJ, published in Cadernos de Linguística. Searching Brazil's national catalogue of theses and dissertations for the phrase "description of Portuguese," they retrieved 176 studies defended between 2000 and 2024. A dissertation editing 18th-century manuscripts and a dissertation on teaching Portuguese to speakers of other languages both answer to that label, and both came back in the same search.

The work of the study is the sorting. Reading titles and abstracts one at a time, the authors placed each study into one of seven groups, then counted. Teaching Portuguese to speakers of other languages took the largest share at 45 studies. Meaning took the smallest at 11. Institutional distribution proved just as uneven, with 82 of the 176 theses produced at a single university.

The authors do not present the seven groups as the only defensible arrangement. They note that a different reader could sort the same abstracts along different lines, and they offer the count as something for others to work from rather than a settled description of the field.

Read the full study by Jefferson Evaristo, Cynthia Vilaça, and Cláudia Moura da Rocha.
DOI: https://doi.org/10.25189/2675-4916.2026.v7.n5.id1002

10/08/2026

An uncatalogued document sits on a shelf, physically present and practically invisible. No researcher will find it, cite it, or build on it. Cataloging is where that changes, which makes it a far more consequential activity than its reputation suggests.

That observation runs through an essay by Gissele Chapanski, Bruna Soares Polachini, Cecilia Farias and seven colleagues, published in Cadernos de Linguística. Examining six collections of linguistic and metalinguistic materials, the authors argue that decisions about description, classif**ation, and access are not preliminaries to scholarship. They are scholarship, with effects that outlast whoever made them.

The six cases show how differently that plays out. A university documentation center accumulates materials around the research questions its community pursues, and those materials then attract researchers with related questions. A national library dossier organizes 683 titles published between 1513 and 1960 according to categories that reflect a particular understanding of what a grammar or a dictionary is. A web museum assembling grammars from five centuries has to decide which grammatical traditions belong in the same catalog.

Digitization does not resolve any of this. Putting a collection online extends its reach without revisiting the choices that produced it. The essay argues that whatever was left out remains left out, now with wider circulation for what was kept.

The proposal the authors advance is not that archives should aim for neutrality, which they consider impossible, but that the choices should be documented and open to examination. An archive whose criteria are visible can be argued with. One whose criteria are invisible simply looks like the world.

https://doi.org/10.25189/2675-4916.2026.V7.N5.ID1001

10/08/2026

Um documento não catalogado f**a na estante, fisicamente presente e praticamente invisível. Nenhum pesquisador vai encontrá-lo, citá-lo ou construir a partir dele. É a catalogação que muda isso, o que torna essa atividade bem mais consequente do que sua fama sugere.

Essa observação atravessa o ensaio de Gissele Chapanski, Bruna Soares Polachini, Cecilia Farias e outros sete pesquisadores, publicado nos Cadernos de Linguística. Ao examinar seis acervos de materiais linguísticos e metalinguísticos, os autores argumentam que decisões sobre descrição, classif**ação e acesso não são etapas preliminares à pesquisa. São pesquisa, com efeitos que duram mais que quem as tomou.

Os seis casos mostram como isso acontece de formas distintas. Um centro de documentação universitário acumula materiais em torno das perguntas que sua comunidade persegue, e esses materiais atraem depois pesquisadores com perguntas próximas. Um dossiê de biblioteca nacional organiza 683 títulos publicados entre 1513 e 1960 segundo categorias que refletem um entendimento específico do que é uma gramática ou um dicionário. Um museu virtual que reúne gramáticas de cinco séculos precisa decidir quais tradições gramaticais pertencem ao mesmo catálogo.

A digitalização não resolve nada disso. Colocar um acervo online amplia seu alcance sem rever as escolhas que o produziram. O ensaio argumenta que o que ficou de fora continua de fora, agora com circulação maior para aquilo que foi mantido.

A proposta dos autores não é que os acervos busquem neutralidade, que consideram impossível, mas que as escolhas sejam documentadas e permaneçam abertas ao exame. Um acervo cujos critérios estão à vista pode ser contestado. Um acervo cujos critérios são invisíveis simplesmente parece o mundo.

https://doi.org/10.25189/2675-4916.2026.V7.N5.ID1001

09/08/2026

O que tornava uma gramática de 1942 pioneira? Não o simples fato de existir, mas o que ela escolheu ensinar.

Hermine Topker, professora de descendência alemã de Santa Catarina que ensinava o idioma a imigrantes de sua própria comunidade, fez escolhas que distinguiam o manual de qualquer outro disponível na época. Ela ensinou estrangeiros a dizer "você" em vez de "tu", suprimindo completamente o pronome "vós". Incorporou vocabulário do tupi-guaraní. Classificou as classes de palavras de um modo que antecipou a terminologia gramatical oficial adotada no Brasil dezessete anos depois. Numa época em que as gramáticas formais tratavam o português do dia a dia dos brasileiros como erro, o livro de Topker o registrava.

Nas lições seguintes, a mesma obra retoma o paradigma pronominal tradicional, tensão que o estudo lê não como incoerência, mas como efeito previsível de uma gramática didática: presa entre o que a linguística sabia e o que editoras e salas de aula estavam dispostas a aceitar.

Um novo artigo em Cadernos de Linguística reconstrói essa história. Das 45 gramáticas de português para estrangeiros identif**adas até o século XX, apenas 7 tinham autoria brasileira. A de Topker foi a primeira a circular em âmbito nacional e, por mais de dez anos, a única disponível no país.

"A emergência da gramática brasileira de português para estrangeiros e a contribuição de Hermine W. Topker (1942)" — Leandro Silveira de Araujo (UFU). Cadernos de Linguística, v. 7, n. 5, 2026.
https://doi.org/10.25189/2675-4916.2026.v7.n5.id955

09/08/2026

What made a 1942 grammar book pioneering? Not the fact that it existed, but what it chose to teach.

Hermine Topker, a German-descended teacher from Santa Catarina who had been instructing immigrants in her own community, made choices that set her manual apart from every other grammar book available at the time. She taught foreigners to say "você" instead of "tu", dropping the pronoun "vós" entirely. She incorporated vocabulary from Tupi-Guaraní. She classified words in a way that anticipated the official Brazilian grammatical terminology adopted seventeen years later. At a time when formal grammars treated the everyday speech of Brazilians as error, Topker's book recorded it.

Later lessons in the same book revert to the traditional pronoun paradigm, a tension the study reads not as inconsistency but as the predictable effect of writing a teaching grammar: caught between what linguistics knew and what publishers and classrooms would accept.

A new article in Cadernos de Linguística reconstructs that history. Of 45 grammar books for teaching Portuguese to foreigners identified through the 20th century, only 7 had Brazilian authors. Topker's was the first to circulate nationally, and for over a decade it was the only one available.

"The Emergence of Brazilian Grammar for Portuguese as a Foreign Language and the Contribution of Hermine W. Topker (1942)" — Leandro Silveira de Araujo (UFU). Cadernos de Linguística, v. 7, n. 5, 2026.
https://doi.org/10.25189/2675-4916.2026.v7.n5.id955

08/08/2026

A profile only has value if it holds still. Advertising systems, recommendation engines, and data brokers all depend on the same assumption: that the person browsing today is the person who browsed last week, and that the two records can be joined.

Thomas Falconi and Lucas Alves Selhorst, researchers at the Universidade do Sul de Santa Catarina (UNISUL), take that assumption apart in an essay published in Cadernos de Linguística. Working within Materialist Discourse Analysis, they treat digital environments as places that constitute who speaks inside them, not as neutral pipes carrying traffic.

Their central concept is the subject-avatar: the position a user comes to occupy within a digital environment, produced by that environment's material and linguistic conditions. In one kind of browser, this position consolidates over time through accumulated history and a synced account. In another, it dissolves at the end of every session.

The essay's argument is that the second case is not the absence of a subject. It's a subject constituted differently, one whose refusal to accumulate is itself a position within a system built to accumulate. The authors read this as resistance, while also noting where it fails.

Falconi, T.; Selhorst, L. A. (2026). Sujeito-avatar em espaços enunciativos informatizados: entre normatizações técnicas e práticas de resistência. Cadernos de Linguística, v. 7, n. 3, e980.
https://doi.org/10.25189/2675-4916.2026.V7.N3.ID980

08/08/2026

Um perfil só vale alguma coisa se f**ar parado. Sistemas de publicidade, mecanismos de recomendação e corretoras de dados dependem todos da mesma premissa: que a pessoa navegando hoje é a mesma que navegou semana passada, e que os dois registros podem ser costurados.

Thomas Falconi e Lucas Alves Selhorst, pesquisadores da Universidade do Sul de Santa Catarina (UNISUL), desmontam essa premissa em ensaio publicado na Cadernos de Linguística. Trabalhando dentro da Análise do Discurso materialista, eles tratam ambientes digitais como lugares que constituem quem enuncia dentro deles, não como canos neutros por onde passa tráfego.

O conceito central é o de sujeito-avatar: a posição que alguém passa a ocupar dentro de um ambiente digital, produzida pelas condições materiais e linguísticas desse ambiente. Em um tipo de navegador, essa posição se consolida ao longo do tempo, por histórico acumulado e conta sincronizada. Em outro, se dissolve ao fim de cada sessão.

O argumento do ensaio é que o segundo caso não representa ausência de sujeito. É um sujeito constituído de outro modo, cuja recusa em acumular já é uma posição dentro de um sistema construído para acumular. Os autores leem isso como resistência, apontando também onde ela falha.

Falconi, T.; Selhorst, L. A. (2026). Sujeito-avatar em espaços enunciativos informatizados: entre normatizações técnicas e práticas de resistência. Cadernos de Linguística, v. 7, n. 3, e980.
https://doi.org/10.25189/2675-4916.2026.V7.N3.ID980

07/08/2026

There's a moment in every election campaign when the debate stops happening. Not because anyone won the argument, but because a word was thrown and the conversation ended right there.

Ramon de Almeida Miranda and Ana Maria Sá Martins, researchers at the State University of Maranhão (UEMA, Brazil), examined six excerpts from an interview a mayoral candidate gave to the podcast "Abrindo o Verbo" during the 2024 campaign. What they found is a mechanism that operates in elections everywhere.

Calling an opponent a "disguised communist" requires no evidence about that person's proposals. The label attaches a ready-made rejection to them, and from that point on the audience responds to the label rather than to anything the person says or plans to do. "LGBT bundle" does something similar to a civil rights discussion: it shrinks the topic into a commodity imposed from outside. "Reaping a life" drops all medical language around abortion and lands on an image that triggers instinct rather than reasoning.

The study also follows the less visible half of the operation: while the opponent is being labeled, the speaker positions himself as transparent and democratic. Discrediting by name and legitimizing by contrast work together.

For anyone who consumes political media, there's a practical listening habit here: when a label lands, ask what argument it just replaced.

📖 https://doi.org/10.25189/2675-4916.2026.V7.N3.ID947
▶️ https://youtu.be/S__W6aW_47w

07/08/2026

Existe um momento em toda campanha eleitoral em que o debate para de acontecer. Não porque alguém venceu o argumento, mas porque uma palavra foi lançada e a conversa acabou ali.

Ramon de Almeida Miranda e Ana Maria Sá Martins, pesquisadores da Universidade Estadual do Maranhão (UEMA), examinaram seis trechos de uma entrevista concedida por um candidato à Prefeitura de São Luís ao podcast "Abrindo o Verbo" durante a campanha de 2024. O que encontraram é um mecanismo que funciona em qualquer eleição, em qualquer lugar.

Chamar o adversário de "comunista disfarçado" não exige nenhuma prova sobre as propostas dele. O rótulo cola uma rejeição pronta na pessoa, e a partir daí o público reage ao rótulo, não ao que a pessoa diz ou pretende fazer. "Pacotão LGBT" faz algo parecido com uma discussão sobre direitos civis: encolhe o tema a uma mercadoria imposta de fora. "Ceifar uma vida" abandona qualquer linguagem médica sobre ab**to e pousa numa imagem que mobiliza instinto, não raciocínio.

O estudo também acompanha a outra metade da operação, menos visível: enquanto o adversário é rotulado, o falante se apresenta como transparente e democrático. Desqualif**ar pelo nome e legitimar pelo contraste são movimentos que funcionam juntos.

Para quem consome mídia política, f**a um hábito prático de escuta: quando um rótulo aparece, vale perguntar qual argumento ele acabou de substituir.

📖 https://doi.org/10.25189/2675-4916.2026.V7.N3.ID947
🎙 https://cadlin.substack.com/p/o-truque-do-magico

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