02/03/2026
Conversa entre Mapará Velho e Mapará Jovem, no Baixo Tocantins, logo após o fim do defeso, em março de 2026
Mapará Velho (nadando devagar, com as barbatanas marcadas pelo tempo):�Ô menino, olha só essa correnteza hoje… limpa, forte, sem rede barrando o caminho. Me lembra quando eu era como você: subia o rio inteiro sem tropeçar em nada. Mas agora? Ah, agora eu vejo os humanos lá em cima, na margem, lutando pra dar um passo. É como se as calçadas fossem nossas águas rasas cheias de troncos caídos, entulho e postes fincados no meio do caminho.
Mapará Jovem (dando voltas rápidas, ansioso):�Mas véio, como assim? A gente nada livre no Tocantins! Desova em Baião, desce as larvas até Cametá, come plâncton farto aqui no baixo… O rio é nosso! Por que eles não têm calçadas limpas como nosso cardume tem passagem?
Mapará Velho (parando perto de uma raiz submersa, voz grave):�Porque, meu filho, as calçadas deles são como nossas águas quando o homem joga lixo: obstruídas. Poste novo fincado bem no meio, como uma rede mal colocada que bloqueia o cardume inteiro. Entulho de obra, moto parada, mesa de feira… Tudo ocupando a faixa que deveria ser livre. Imagina você nadando com tremor nas barbatanas — tipo o Raimundo com Parkinson — e de repente um buraco no fundo, ou cacos de cerâmica misturados no leito, um pedaço liso, outro áspero, escorregadio na cheia. Cai, machuca, perde o equilíbrio.
Mapará Jovem:�E as calçadas inexistentes? Tipo trechos onde o rio some, vira terra seca?
Mapará Velho:�Exato. Força o peixe a pular pra rua, pro asfalto quente, onde os barcos grandes passam zunindo. Irregulares? São desníveis, rachaduras, como pedras soltas no fundo que te desequilibram no meio da migração. Revestidas com cacos? Ah, isso é pior: superfície que promete firmeza mas trai — um lado antiderrapante, outro liso como óleo na água. Na chuva, vira armadilha. E de tamanho reduzido… menos de um metro? É como estreitar o rio pra só um peixe passar de cada vez. Como desovar assim? Como viver?
Mapará Jovem (agitada as nadadeiras):�Mas véio, o direito de ir e vir… não é lei deles também? Igual nosso defeso que protege a reprodução?
Mapará Velho:�É lei sim, escrita em papel como nossa tradição na mesa cametaense. Mas lei sem fiscalização é rede furada. A Prefeitura tá mexendo — mutirão contra depósito nas calçadas, proibição de entulho desde janeiro… Tem esperança. Mas precisa de mais.
Mapará Jovem:�E o Itaú? Aquele banco grande que tem agência na margem?
Mapará Velho (olhando pro alto, como se visse a cidade):�Ah, o Itaú… Ele já nada em águas inclusivas: apps que falam pra quem treme a mão, programas pra quem nada diferente. Podia virar correnteza forte: parceria pra limpar calçadas perto das agências, rampas como corredeiras suaves, piso tátil como plâncton guiando o caminho, mapa de rotas livres no celular. Campanha: “Calçada limpa é cardume livre!”. Se ele liderar, a cidade inteira flui melhor.
Mapará Jovem (nadando mais rápido, empolgado):�Então vamos subir o rio juntos, véio? Cobrar, mostrar que sem passagem aberta ninguém desova, ninguém chega no destino. O mapará não aceita rede no caminho… o humano com Parkinson também não!
Mapará Velho (sorrindo com as guelras):�Vamos sim, menino. Porque rio obstruído morre devagar. Cidade obstruída exclui os seus. E nós, maparás de Cametá, sabemos: liberdade é nadar sem barreira.
E aí, o cardume todo junta força? Ou deixa a correnteza levar?