03/06/2020
Por uma História múltipla e híbrida
Por Lourival Andrade Junior – Professor do Departamento e do Mestrado em História dos Sertões do CERES-UFRN
Não há possibilidade de entendermos o presente sem o passado. O estudo do passado não serve para nos aprisionar no tempo que já se foi, mas sim, para nos colocar no presente com ferramentas adequadas para entendê-lo e transformá-lo. As Ciências Humanas, aqui tratadas como Humanidades, tem um papel determinante na costura, sempre marcada por inseguranças, de nossas histórias e memórias o que por consequência faz com que saibamos quem somos e de que tecidos somos constituídos. Negar a importância das Humanidades é negar a própria existência humana.
Como bem pontuou Chimamanda Adichie, não podemos aceitar uma História única, sobretudo quando sabemos que os povos de todo o planeta foram formados por diversas matrizes, impostas ou não, que com o passar do tempo foram se amalgamando e constituindo um todo, muitas vezes uniforme, outras tantas carregados de contradições e conflitos, mesmo assim constituindo especificidades a partir de convergências. A humanidade é isso, um conjunto de culturas que se encontram e dialogam, mesmo que de forma não tão harmônica. Compreender estes múltiplos pontos de aglutinação e negação nos levam a entender a necessidade de buscar no outro o complemento para compreendermos até mesmo nossa existência e formação.
Somos frutos de um hibridismo cultural que nos coloca diante de dilemas e paradigmas a cada amanhecer. A vivência do e no tempo é complexa quando, por exemplo, nos colocamos diante de uma gira de entidades desencarnadas em um terreiro de Umbanda, Jurema Sagrada e até de alguns Candomblés. Ao estarmos diante de uma entidade que já morreu há muito tempo, mas utiliza o tempo presente para se comunicar e sua linguagem é permeada com termos e usos do passado misturados com saberes do presente, percebemos que o tempo híbrido se mostra em sua mais profunda inteireza. O passado não morre em nós, ele se transforma. Somos a ressignif**ação de sabenças de nossos antepassados, por isso não estamos na escuridão total. Ao apagarmos o nosso passado, aí sim, estaremos no breu da ignorância e muito pior, da estupidez.
Acredito que as Humanidades tem o papel de transgredir a linearidade do tempo e suas implicações no espaço. Nós, sobretudo historiadores e historiadoras, temos a responsabilidade de desalinhar o que aparentemente está organizado, de usar de nossas narrativas para contar sobre aqueles que foram deixados à margem da História e até mesmo os que nem na margem estiveram, como os ciganos, por exemplo. Narrar existências humanas que normalmente são esquecidas e negligenciadas é também comprometermo-nos a construir uma História a contrapelo, como bem nos ensinou Walter Benjamin. Ir no contrafluxo é teimar em não olhar para o passado com os olhos do ontem, mas sim nos colocarmos diante do passado com a criticidade do agora.
O que fez com que eu me tornasse um pesquisador e professor do campo das Humanidades, foi justamente a certeza de que eu poderia, através de meus trabalhos e de meu ativismo, ajudar a construir teses sobre o quanto a humanidade é múltipla e híbrida e que qualquer tentativa de homogeneizar o que é heterogêneo teria a minha mais ferrenha repugnância. Generalizar sempre incorrerá em equívocos. Todos os processos que formaram as culturas espalhadas pelo planeta, possuem as argamassas do diverso e da multiplicidade. Não somos formados com apenas uma cor, uma crença, uma etnia, uma ideia, uma cosmogonia. Somos o conjunto organizado e disperso destes saberes. Não há naturalidade em nossa constituição como seres humanos, há sim disputas permanentes dentro e fora de nós mesmos. Somos complexos. Somos híbridos. Somos múltiplos. Quem nega isso, nega a humanidade. O fascismo e as ditaduras negam a diversidade, por isso são desumanos e insensíveis. São aberrações.
Minha opção foi estar fora dos gabinetes e ir ao encontro destas humanidades em espaços pouco visitados pelos historiadores de ofício e também utilizar fontes que normalmente são negadas por nosso campo, como o cordel, por exemplo, em que faço uso deste gênero literário brasileiro como fonte primária, assim consolido a fala de poetas que não estão no centro dos estudos literários e consigo perceber as nuances de pensamentos sobre determinados temas durante mais de um século no Brasil.
Os terreiros de religiões de matriz africana e indígena, são privilegiados para entendermos os hibridismos culturais de nossa formação. Rogo que Exu continue me dando condições de falar e escrever sobre estes universos religiosos mediúnicos. Sem a compreensão destas práticas religiosas a nossa formação f**a capenga e incompleta.
Os cemitérios e sobretudo os milagreiros e milagreiras, me possibilitam conhecer com mais profundidade uma das formas de religiosidade do catolicismo não oficial brasileiro e suas dinâmicas facetas em se relacionar com o sagrado, que amplif**a o discurso do local, do imediato e da pessoalidade.
A construção do território em movimento é que me mobiliza no estudo sobre os povos ciganos na História. Suas correrias constantes e suas estratégias de se fazer aceitos em uma sociedade, mostram o quanto são múltiplos os desejos de homens e mulheres que fizeram de seu nomadismo uma forma de entender o mundo em que vivem, mas que também anseiam por uma sedentarização mais segura, sem necessariamente deixar que seu espírito de movência seja soterrado por um teto e paredes de uma residência fixa qualquer. Ser cigano é muito mais que estar em uma barraca.
Estar no sertão e falar sobre a constituição deste espaço de múltiplas narrativas, também me joga num terreno fértil de possibilidades. As culturas dos sertões são mais do que multifacetadas, são a prova cabal da convivência do passado com o presente e suas não fossilizações. A ancestralidade formativa dos sertões, em seus enormes contatos linguísticos, étnicos e estéticos potencializam nossa percepção de teimosias e hibridismos. Os sertões, profundos e conectados, experenciam vivências marcadas por atentos olhares no passado que se alimentam do presente com tecnologias diferentes das já utilizados no ontem. A dinamicidade é a marca deste espaço e das pessoas que nele vivem. Corpos que se movimentam historicamente entre a miséria da seca e a fartura dos inversos sertanejos. Ações que são impregnadas de religiosidades, ritos e práticas, mas que também são tocadas por discursos religiosos contemporâneos que expandem os conceitos de fé, apagamento e intolerâncias. Os sertões não são uma só fala, uma só narrativa. Os sertões vão além de estereótipos e marcas identitárias únicas e uníssonas.
São estas vidas e experiências que me importam. São estas narrativas que me fazem lutar e permanecer narrando, a partir de fontes diversas e até inusuais, as Histórias e memórias de todas estas vidas. Impedir que as Humanidades façam o seu trabalho e extirpar da experiência acadêmica discentes interessados na Iniciação Científ**a, é um crime contra a humanidade como um todo. É matar pela segunda vez muitos daqueles que f**aram pelas ruas abandonados à própria sorte e calados com as mordaças da insensatez e do ódio. Não podemos nos calar diante de tamanha falta de civilidade e de um fascismo raivoso que não aceita as múltiplas vozes e o hibridismo que faz parte inequívoca de nossa gênese cultural, social e histórica.
Todas as vidas são valiosas TODAS AS VIDAS IMPORTAM, sobretudo aquelas que precisam a todo tempo provar sua existência. E nós das Humanidades estamos aqui para dar voz e corpo a toda esta multidão de vidas indispensáveis e únicas.