26/01/2016
APRESENTADO NO ENPEX UNIFEBE - 09/10/2012
CONTRIBUIÇÕES DA PSICOMOTRICIDADE PARA O MUTISMO SELETIVO: UM ESTUDO DE CASO
VANDRESEN, Jamerson; LISBOA, Adonis Marcos
Docentes pela Secretaria Municipal de Educação de Brusque/SC.
PALAVRAS-CHAVE: Psicomotricidade Relacional. Mutismo seletivo. Contraturno escolar.
INTRODUÇÃO
Esse trabalho refere-se a uma pesquisa realizada em 2012 com uma aluna acometida de mutismo seletivo, frequentadora do contraturno escolar na Escola de Ensino Fundamental Dr. Carlos Moritz, pertencente à rede municipal de ensino Brusque/SC. Um dos autores deste trabalho atuou como professor no projeto de contraturno, aplicado com frequência de uma vez por semana e duração de quatro horas. O Projeto tinha como bases epistemológicas a Psicomotricidade, especialmente a Psicomotricidade Relacional, o construtivismo piagetiano e a Ciência da Motricidade Humana.
OBJETIVO
Evidenciar a importância da ludicidade e da Psicomotricidade para a facilitação da expressividade, autonomia, autoconfiança, da cognição e corporeidade da criança com dificuldades sociais no contexto escolar.
METODOLOGIA
Da pesquisa:
Pesquisa aplicada de abordagem qualitativa (LUDKE; ANDRÉ, 1986), aplicando-se como técnica o estudo de caso (RAUEN, 2002).
Para obtenção dos dados mais específicos sobre a criança realizou-se entrevista semi-estruturada com a mãe e com a criança. A professora ofereceu informações em diálogos informais e a diretora da escola apresentou um relato escrito sobre o caso.
Do Projeto:
Realizaram-se aulas prático-teóricas e teórico-práticas, com situações de aprendizagem diversif**adas que privilegiaram o desenvolvimento da imaginação e da corporeidade dos alunos, sendo realizadas inicialmente de maneira simples e aumentando seu grau de complexidade no seu decorrer. Promoveu-se com os alunos a transcendência do campo prático das atividades corporais para o campo da intelectualidade (representação mental) utilizando para isso o desenho, a escritura de textos, a expressão verbal.
O professor atuou como problematizador e os alunos foram constantemente instigados a encontrar soluções para os problemas/desafios propostos. Eles participaram na organização e construção dos conhecimentos elaborados em aula.
Nas aulas de contraturno foram realizadas atividades como: dança, teatro (fantoches), jogos de regras, brincadeiras populares, relaxamento.
As aulas dividiam-se em: a) Ritual de entrada – o grupo reunia-se em círculo, nesse momento o professor relembrava sucintamente a aula anterior ou retomava algum ponto pendente. Depois disso, anunciava o conteúdo da aula atual; apresentava as atividades a serem realizadas e questionava os alunos sobre o que já conheciam a respeito do tema ou se tinham alguma sugestão que desejavam oferecer. b) Situações de aprendizagem – nessa etapa as atividades eram desenvolvidas conforme a metodologia do projeto. Também nessa etapa foram realizadas algumas atividades de relaxamento e algum tipo de representação do que foi desenvolvido no decorrer da aula. c) Ritual de saída – o grupo se reunia e o professor questionava-os sobre as atividades realizadas e os conhecimentos construídos na aula. O professor estimulava a tomada de consciência por parte dos alunos sobre o que foi desenvolvido em aula. Nessa etapa privilegiava-se a reflexão e o diálogo.
RESULTADOS
As crianças com mutismo seletivo falam quase exclusivamente em casa (Berhrman, Robert e Kliegman, 2005). Esta criança falava em sua residência. Na escola raramente falava, porém somente com alguma colega. Após quatro meses frequentando as aulas de contraturno, a criança apresentou avanços signif**ativos. Passou a falar na escola e surpreendeu professores, colegas e famíliares, conforme constatamos pelos dados coletados nas entrevistas. Segundo a diretora: “O professor a transformou numa líder no grupo”; “...foi muito emocionante quando me deparei com ela no corredor vindo me solicitar algo, eu não esperava”; “...a Escola encaminhou junto a seus pais (...) para uma psicóloga, onde permaneceu em tratamento durante um ano, a mesma desistiu do caso”. De acordo com o relato da mãe “Dos cinco anos aos oito ela não falou. Ela não falava nem comigo, às vezes estava conversando com a avó, eu chegava e ela parava imediatamente de falar... parece que tinha medo de falar na minha frente, me olhava como se eu era quem não a deixasse falar”. Sobre o tratamento terapêutico da criança relatou que “Através da Escola ela foi encaminhada para a psicóloga onde ficou por um ano em tratamento, e nada adiantou... entrava e saia calada...”. Ainda segundo a mãe “Hoje em dia ela já pede as coisas “certo”, não só daquelas coisas de “gesto”, ela melhorou bastante. Gosta de brincar com o irmão, antes ela só queria f**ar no canto dela, não queria ser incomodada, eles discutiam muito, agora eles jogam futebol, vôlei juntos...estão se relacionando muito bem... ela está muito melhor agora”. Sua professora anterior relatou “(...) não falava nada... se expressava um pouco com a dança, mas não falava comigo, pedia pelos outros o que queria”. A respeito das aulas de contraturno a própria criança relatou “Gosto muito de vir para as aulas, aqui eu brinco e me divirto muito, eu adoro dançar, e gosto muito do professor, eu nunca faltei nessa aula”. Atribuímos estes resultados a metodologia utilizada nas aulas do Projeto de contraturno aplicado nesta escola, que investe naquilo que a criança sabe, nas potencialidades dela, conforme indicam Lapierre e Aucouturier (2004). A criança aqui pesquisada passou a conversar com colegas e professores, inclusive realizar apresentações em público na escola como leitura, dança e canto. Nessas aulas priorizou-se a ludicidade e a corporeidade de cada criança, privilegiando-se a Psicomotricidade como metodologia, numa abordagem relacional e orientando-se a docência pelo método ativo construtivista: o aluno como agente ativo na construção do conhecimento, o trabalho em equipe e a busca do autogoverno (autonomia) (MACEDO, 1994).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Pelos resultados obtidos neste estudo podemos verif**ar a importância que a Psicomotricidade, especialmente a que propõe um olhar relacional sobre o aluno, tem para contribuir com crianças com dificuldades emocionais e sociais no contexto escolar. O investimento numa metodologia que acredita nas potencialidades da criança e na diversidade de experiências pode trazer contribuições signif**ativas para as crianças, melhorando sua auto-estima, sua autoconfiança e despertando-lhes o desejo de aprender e conviver na escola. Tornando sua permanência neste ambiente um tempo de bem-estar.
REFERÊNCIAS
BEHRMAN, R. E.; KLIEGMAN, R. M.; JENSON, H. B. Nelson: tratado de pediatria. 17. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2005.
LAPIERRE, A.; AUCOUTURIER, B. A Simbologia do Movimento: psicomotricidade e educação. 3 ed. Curitiba, PR: Filosofart Editora, 2004.
LÜDKE, M; ANDRÉ, M, E, D, A. Pesquisa em educação: abordagens qualitativas. São Paulo: EPU, 1986 99 p.
MACEDO, L. Ensaios construtivistas. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1994.
RAUEN, F. J. Roteiros de investigação científ**a. Tubarão: Editora Unisul, 2002.