27/12/2022
"Acabo de ouvir na televisão uma entrevista do ex-governador do Piauí e futuro ministro do Desenvolvimento Social, Wellington dias. Ele pronuncia "muntcho" e "oitcho" o que se escreve "muito" e "oito". Essa é uma variante muito difundida no Nordeste, que também inclui "ráidjo" (rádio). Como é que f**a isso em termos de avaliação social (da parte, claro, de quem não é nordestino e presta atenção ao que é diferente de si mesmo)? O fenômeno fonético é muito simples de explicar. Quando a maioria de nós pronuncia "tchia" e "djia", o que está em jogo é a presença de um [i] depois de [t] e [d] - sendo [i] uma vogal palatal, sua proximidade palataliza a consoante seguinte. No caso de "muntcho", "oitcho" e "ráidjo", o [i] está antes da consoante, mas o efeito de palatalização é o mesmo (o termo técnico é palatalização regressiva, isto é, para trás). A pronúncia "tchia" e "djia" não causa nenhuma reação adversa, está perfeitamente "naturalizada", e é, inclusive, a recomendada para os profissionais da comunicação (tv, rádio). Por quê? Porque é empregada nas regiões mais ricas e desenvolvidas do país (Rio de Janeiro, Minas Gerais e grande parte de São Paulo). A pronúncia "tia" e "dia", sem palatalização, é que desperta a atenção e identif**a a pessoa como "nordestina" ou, em alguns lugares, "caipira". No entanto, quando vamos aprender outras línguas, temos que evitar a palatalização de [ti] e [di]. Alguns estudiosos aventam a hipótese de que a palatalização de [t] e [d] é fruto do contato linguístico das línguas africanas trazidas para cá com o português colonial. Acho divertido pensar que tantas pessoas racistas que pronunciam "tchia" e "djia" nem desconfiam que essa pronúncia é herança africana. A palatalização ocorre também no francês do Canadá: os dias da semana "lundi", "mardi", "jeudi" etc. apresentam uma pronúncia [-dzi] (mardzi), primeiro passo rumo a uma palatalização completa. Em inglês, a palavra "soldier" é pronunciada "soldjer". O francês "jour" e o italiano "giorno" derivam de um latim "diurnu", o que evidencia a palatalização ocorrida na história dessas línguas. Enfim, tudo isso apenas para dizer que as avaliações sociais dos modos de falar (isto é, os preconceitos linguísticos) não têm praticamente nada que ver com os fatos linguísticos em si, mas com o lugar ocupado pela pessoa (ou comunidade) na estratif**ação social. Ou, como diria Bourdieu, pelo capital linguístico que a pessoa tem no mercado das trocas linguísticas. Muntcho obrigada pela atenção!"
Autor: Marcos Bagno
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e ainda "Não é errado falar assim"