Criando Elos

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•Desenvolvimento infantil
•Educação
•Parentalidade e Disciplina Positiva
•Por Cristina Nunes, mãe da Beatriz, educadora certif**ada pela Positive Discipline Association

03/05/2021

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Falei sobre isso nos stories essa semana: às vezes achamos que por envolver mais respeito, vínculo e apego, uma criação desse tipo (que "conversa" mais com o que se passa no nosso coração) seria "mais fácil".

Quando na verdade acontece o oposto: por ir contra o que toda a sociedade nos diz pra fazer com a criança (bater, afastar, menos colo, menos conversa), pode ser mais cansativo e mais solitário.

Uma criança educada no respeito não será "mais boazinha" do que as outras, ela terá mais voz. Trará mais questionamentos (isso muitas vezes quer dizer mais insistência). Vai agir mais de acordo com seu instinto (e isso muitas quer dizer mais movimento, mais confusão, mais sujeira). Vai poder demandar todo colo e presença que necessita (e isso muitas vezes quer dizer que precisaremos ter mais disponibilidade e enfrentar os problemas estruturais e familiares que não nos deixam ter essa disponibilidade). É difícil.

Não quero terminar esse texto com um "mas" alguma coisa. Sabemos muito bem que há um monte de ganhos pessoais e também para a criança em enfrentarmos tudo isso. A mensagem que eu queria deixar aqui é: tá difícil porque é difícil, não porque você está errando. As referências que temos são opostas ao que praticamos, estamos inventando nossas próprias referências. Pense nisso. Eu te vejo 💜

08/03/2021

Eu sempre ensinei para a Beatriz que 8 de março é dia de luta. No último século, conquistamos vários direitos, mas ainda falta muito pra haver equidade e respeito na prática.

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🔸1 em cada 4 mulheres sofre violência no parto

🔸59% não conseguem chegar aos 6 meses de amamentação preconizados pela OMS, por falta de políticas públicas e de direitos trabalhistas que garantam isso.

🔸Somos 10% na política.

🔸50 % das mães perdem o emprego após retorno da licença

🔸 26,1% das mulheres entre 15-24 anos abandonam os estudos para cuidar da casa ou de familiares (versus 0,8% de homens)

🔸Gastamos 73% mais de tempo que os homens em afazeres domésticos (e querem equiparar idade de aposentadoria 🙄)

🔸mulheres recebem salários em torno de 40% menos que homens e com as mulheres negras a diferença chega a 70%

🔸mas somos chefes de 44% dos lares do país e as mães solo são 20% das configurações familiares nacionais (e dizem que criamos desajustados)

🔸a cada 11 minutos, uma mulher é estuprada, e 70% dos estupros é em crianças e adolescentes.

🔸 a cada 2h uma mulher é morta.

🔸 das desempregadas que são mães com filhos entre 0 - 3 anos, 60% são mulheres negras. Você sabia que o ensino infantil é responsabilidade dos municípios somente a partir dos 4 anos? Pois é, por isso que eu afirmo que maternar é pauta política.

Tem certeza que desejar "feliz dia da mulher" é o máximo que podes nos oferecer?



Dados: Locomotiva Instituto de Pesquisa, dados IBGE e Fórum Brasileiro de Segurança Pública e IBGE

07/03/2021

Você já reparou como estamos constantemente diminuindo e ignorando a dor do outro e nossas próprias dores? A criança cai e se machuca e o que a maioria diz correndo? "Não foi nada. Já passou. Olha ali o passarinho!". Se é um adulto chorando pra gente, rapidamente tentamos dar soluções para o problema ou minimizá-lo, porque qualquer coisa é melhor do que escutar, impotentes, essa dor.

Mas fingir que a dor não está ali não faz com que ela deixe de se existir. A criança se sente confusa "tá doendo, mas minha mãe diz que não está". E, como nossas palavras valem muito pra ela, tende a acreditar mais no adulto do que em si mesma, aprendendo desde pequena que seu sofrimento - físico e/ou emocional - é exagero, melhor varrê-lo urgentemente pra algum canto do inconsciente. E, assim, quando essa criança cresce e tem seu próprio filho, tende a repetir o mesmo padrão: "Não foi nada", "Deixa de frescura", "Para de manha", "Vou te dar motivo de verdade pra chorar". .

É difícil dar o que não tivemos, mas esse é o caminho para quebrar essa ciclo de silenciamento e violência (porque a negação dos sentimentos é um tipo de violência). E fazemos isso com os demais adultos também. Por exemplo, ao invés de julgar como mimini o desabafo de uma mãe que diz estar exausta, só porque ela faz menos do que a gente, podemos ouvir essa pessoa com empatia. Não estamos na pele dela, não conhecemos sua história, nosso nível de tolerância e de força é diferente do dela. Quem somos nós para julgar?

O mesmo com nossos filhos. Pra eles, ter perdido um papel pode ser algo muito triste e doído, pois aquilo tinha um valor pra criança que o adulto nem compreende. Não é manha. Não é frescura. Não precisa ser imediatamente minimizado e calado. E, claro, isso vale para o nosso próprio sofrimento também. A gente pode errar. Pode não dar conta de tudo. Pode se sentir triste, frustrado, com raiva. Pode chorar. Pode demonstrar vulnerabilidade. Podemos sentir!

As frases "Chega de manha!" e "Isso é mimimi!" são fruto da mesma educação violenta que silencia e desqualif**a sentimentos. Exercitemos mais empatia com as nossas dores e as dores dos outros!

Por Cristina Nunes
📷

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23/02/2021

Ando mais ausente desse espaço, mergulhada em dores e preocupações de vida e morte. Desde março de 2020, esse é o momento em que me sinto mais desamparada e desesperançosa. E com medo, muito muito medo. E esses sentimentos drenam minha energia de tal forma que tem sobrado pouco pra compartilhar aqui. Aquela voz interna f**a repetindo que, se não tenho nada de positivo pra dizer, melhor f**ar calada. Ninguém gosta de choro, pessimismo, raiva. Desde a infância aprendi assim, a reprimir o que não era socialmente aceitável. Mas hoje resolvi falar desses sentimentos difíceis mesmo.

Falo pra compartilhar um colo e um abraço virtual com cada mulher que também está exausta, desesperançosa, se sentindo uma mãe ruim, consumida pelo medo de não dar conta ou pelo medo de não estar aqui pra ver o filho crescer. Cada mulher com raiva das aglomerações que lhe fazem pensar e repensar a volta (ou permanência) do filho pro ensino online, mesmo com a turminha inteira no presencial. Cada mulher lidando com crianças ansiosas, depressivas e irritadas por todas as privações que têm passado, enquanto tenta equilibrar trabalho virtual e cuidados com a casa e não tem energia pra buscar um tempo e espaço pra cuidar de si. Cada mulher que precisa diariamente sair pra trabalhar com medo por si mesma, pelos filhos, pelos pais idosos, mas que não tem outra opção pra pôr comida na mesa.

Hoje não estou aqui pra deixar mensagens de esperança ou dicas práticas de como retomar o equilíbrio. Isso é necessário, sim, mas também é fundamental se permitir aceitar e vivenciar toda essa dor, raiva, tristeza, medo, frustração. E hoje o espaço é pra isso. Um espaço pra gritar, desabafar e saber que não estamos sozinhas, que tá difícil pra muito mais gente do que imaginamos e que tudo bem não dar conta. A gente vai sar disso de alguma forma, mas hoje vamos nos permitir chorar.

Por Cristina Nunes

Photos from Criando Elos's post 17/02/2021

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A geração dos nossos pais educou suas crianças dentro de um contexto de repasse de violências, mesmo as que consideramos pequenas. Eles não contaram com psicólogos, com imagens do cérebro e com pesquisas longas sobre educação e saúde mental.
Se a violência física contra crianças era (e é ainda) banalizada pelo contexto social em que vivemos, imaginem as violências psicológicas. Infelizmente a desinformação e o repasse de dores continua, pouquíssimas pessoas entendem o poder que as ameaças ou chantagens têm no emocional da criança. "Eles esquecem", era assim que se pensava. Hoje sabemos que o que está recalcado (e não esquecido) volta em forma de sintomas, dificuldades físicas e emocionais.
Grande parte da tarefa de ser pai, mãe ou cuidador de uma criança é trazer à luz tudo que se passou na nossa própria infância, nomear, entender, questionar, desconstruir, para assim ter a chance de começar um novo normal com essa criança e ser contraponto à banalização e espetacularização da violência que vivenciamos na cultura. A postura aprendiz do adulto vai permitir que aprenda novas maneiras de se relacionar, para preservar minimamente a saúde mental da criança. Essa é uma responsabilidade nossa.

09/02/2021

Esse texto da querida .silvares mostra bem a diferença entre educar com respeito e ser permissivo.

Outro dia descemos para dar uma volta no condomínio e vimos o parquinho interditado. João e eu nos sentamos em um banco embaixo de uma árvore próxima ao parquinho e Ceci foi brincar com as folhas caídas no chão.

Em seguida chegou um pai com sua filha (cerca de 3 anos) mais um amigo. Ela foi direto para o parquinho. O pai olhou pra gente meio sem graça e disse para o amigo "que jeito diz não para uma criança?" - tentando se justif**ar pelo ocorrido.

O único pensamento que me veio foi: Sério mesmo que ele não sabe como colocar um limite em uma criança?

E o pior é que provavelmente não saiba mesmo. Porque muitos pais e mães acreditam que respeitar é fazer a vontade do filho. É ceder aquilo que o filho deseja.
E não! Ceder não signif**a respeitar!

Nesse caso, havia uma norma, uma regra que valia para todos. Esse pai poderia ter direcionado a filha a uma brincadeira que fosse permitida, por exemplo. E se mesmo assim, a criança insistisse, esse pai poderia acolher a frustração da criança, dizer que a entendia, mas que infelizmente ali, naquele momento, não seria possível brincar.

Não foi o que aconteceu.

Minutos depois surge uma mãe com uma criança ainda menor, que corre para o parquinho, vendo a outra criança brincando ali. A mãe vai atrás e a retira do parquinho, explicando que não era possível brincar ali. Ela sai chorando, a mãe acolhe e a leva para outro espaço.

A criança que permanece no parquinho pergunta ao pai porque a outra criança chorou e o pai responde que é porque não pode brincar ali, que ela está errada por ter entrado no parquinho interditado.
E aqui pra mim mora algo muito perigoso: a responsabilização de uma criança de 3 anos, de algo que ele era responsável, já que é o adulto da relação.

👉Eu te pergunto: Você tem medo de assumir seu lugar? Tem medo de colocar os limites em seu filho? Espera que ele assuma responsabilidades que são suas, para que você não tenha que assumir esse lugar?

Um bjo!

06/02/2021

Você se sente aprisionada, perdida, culpada na sua maternagem?

A criação com apego, disciplina positiva, comunicação não violenta, filosofia montessori, as recomendações sobre alimentação, uso de eletrônicos, amamentação e tantas outras, ao invés de nos reconectarem com nossa sabedoria ancestral, com nossos instintos, com nossos filhos, muitas vezes se tornam um check-list da “boa” maternidade, tudo amplif**ado pelas redes sociais, com suas fotos e relatos de maternagens lindas, plenas, perfeitas, que só existem mesmo nesse mundo virtual.

Essas recomendações e filosofias são maravilhosas! Num mundo ideal, toda mãe teria tempo, dinheiro, rede de apoio e saúde física e mental para escolher como criar seus filhos. Na prática, as cobranças são enormes, nós damos conta de fazer pouco ou muito pouco, e a culpa vai só crescendo.

A maternidade não deveria ser um padecer no paraíso! Quando nasce uma mãe, não deveria nascer também uma culpa! E isso não signif**a que a gente deva deixar o bebê chorando no berço pra dormir e dar danoninho na frente da TV, enquanto grita da cozinha “se sair daí, vai apanhar”. Mas a gente precisa olhar a realidade da mãe exausta, da mãe solo, da mãe pobre, da mãe doente, da mãe que trabalha 12h por dia e oferecer um colo, um apoio, um “tudo bem, você está fazendo seu melhor”. Porque elas estão mesmo! Cada um dá o que tem, o que consegue, e isso não deveria ser motivo de culpa, de julgamento.

É possível criar com apego, com respeito e conexão mesmo que a escola seja ruim, que a comida seja o resto de anteontem, que os brinquedos sejam só porcarias de plástico, que você só tenha os finais de semana pra passar tempo de qualidade com seu filho, que o marido e os avós usem de educação autoritária, que você tenha gritado ontem. Não é o mundo ideal, mas é o seu mundo, o melhor que você consegue, nesse momento, dentro da sua realidade.

Não deixe que o medo de errar, de não ser perfeita, te faça esquecer de tudo que você faz de bom, de cada colo, abraço, cuidado, olho no olho, risada gostosa que seu filho já recebeu de você. Lembre-se: você já é a melhor mãe que seu filho poderia ter!

Por Cristina Nunes

02/02/2021

Repost Elisama Santos
Tenho visto inúmeros posts sobre o BBB e o tratamento cruel que estão dando a um dos participantes, o Lucas. Nos vários posts que li as pessoas falam: tortura psicológica é crime. Se está tipif**ado ou não no CP eu não me recordo, mas que é desumano mexer com a saúde emocional de alguém como forma de castiga-lo, isso é. E eis que trago uma notícia triste e que pode surpreender a alguns: a tortura psicológica - e por vezes física - é a base da nossa educação. A BASE. Não me venha falar que uma palmada não machuca. Meça o tamanho da sua mão, o seu tamanho e o tamanho de uma criança, só o terror que o braço de alguém, mais de um metro maior que você, erguido em sua direção causa já é de estremecer o corpo e o coração. Mas não f**amos apenas nisso. Ameaçamos abandoná-los, nos acostumamos a dizer para uma criança que tudo que vem dela é errado e inadequado. Rimos dos seus pensamentos, menosprezamos as suas opiniões, quebramos a sua autoconfiança. Desumanizamos, porque o foco é a obediência e para consegui-la vale tudo. Somos violentos até quando queremos elogiar: "finalmente você arrumou o quarto, não aguentava mais ver aquela zona!". O tratamento que estão dando ao Lucas é um reprodução do que recebemos na infância, é a aplicação nua e crua da punição tão normalizada em nossa sociedade. Não confiamos no diálogo,porque crescemos escutando que conversa nenhum adianta conosco. Quando luto por uma infância livre da violência não é somente pelas crianças. É pelo amadurecimento das gerações que virão depois dela, é por um amadurecimento das gerações que a trouxeram ao mundo e que precisam aprender a lidar com a própria humanidade. Não aprendemos a ter relações saudáveis, meus queridos. A bizarrice sempre foi a norma. Somos punitivistas e não há caminho florido quando buscamos punir em vez de solucionar os conflitos com respeito. A violência se mantém passada de geração a geração porque aprendemos que, no final das contas, ela é a única saída possível. A maioria de nós segue agradecendo as palmadas que levou e atribuindo a elas o próprio sucesso. Não ao cuidado, não aos bons exemplos, não aos esforços de quem os educou. Às palmadas. Isso diz tanto sobre nós. Infelizmente.

01/02/2021

Hoje é o primeiro dia da Beatriz na nova escola. Eu estava empolgadíssima com a mudança, porque a escola anterior só acumulava problemas a cada ano. Mas desde quinta passada estou tendo picos de ansiedade com isso. Graças a muito trabalho em terapia, eu sei que projeto meus medos e minhas dores na Beatriz. Eu não tinha amigos na escola. Brincava com os vizinhos na rua diariamente e com as minhas primas aos fins de semana, mas era uma menina solitária na escola nessa idade. Então, aos medos naturais que a gente sente pelos filhos numa situação nova, somam-se essas dores projetadas. E a ansiedade vem com tudo.

Seguirei a bola pra não passar tanta ansiedade pra ela. Foquei nos pontos positivos da escola, lembrei de como foi bom fazer amigos novos nessa e naquela situação. Até fichas pra comprar porcarias açucaradas (chocolate, gelatina, picolé) na cantina eu dei. Ela disse que estava empolgada, mas um pouco nervosa também, com medo de ninguém querer ser amigo dela. Acolhi os sentimentos e disse que ela é uma menina muito legal e claro que faria amigos, mas que a gente às vezes pode demorar uns dias pra conhecer melhor os colegas. Ela entrou animada, mas me pediu pra f**ar na escola, caso precisasse de mim. E cá estou, sentada na portaria, querendo ser uma mosquinha pra espiar lá na sala dela, mas controlando as minhas expectativas e meus medos (menos do que eu gostaria, devo confessar).

É super natural f**armos ansiosos com a adaptação dos nossos pequenos na escola. Mas é também importante não passarmos nossas preocupações para eles e lembrarmos que nossos filhos são pessoas diferentes de nós, que não passarão pelas mesmas dores pelas quais passamos e que terão seus próprios desafios, conquistas e alegrias. Precisamos confiar neles e deixá-los viver as suas próprias experiências.

E por aí? Seu filho está indo pra escola? Como você está lidando com isso?

Por Cristina Nunes

28/01/2021

Quando a criança agride e destrói num momento de raiva/frustração, seu cérebro racional está literalmente desligado. Ela não consegue pensar, há uma descarga de adrenalina e cortisol e uma vontade muito forte de lutar (o cérebro entra no modo de fuga, luta ou paralisação).

Se ela te bater, a melhor maneira de ajudá-la é impedir fisicamente que continue a bater e manter-se calmo. Levante-se, ponha os braços de maneira a parar o movimento ainda no início, segure seu braço por 1 segundo e solte (a intenção é apenas impedir novas agressões, não agredir de volta ao prendê-la com sua força de adulto). Ao mesmo tempo, diga sério, mas sem gritar, “Não aceito que me bata. Não vou deixar me bater”. São comandos curtos mesmo, porque mais que isso ela não consegue ouvir.

Depois, num momento calmo, retome o assunto, lembre que ela bateu, que machuca, que tudo bem sentir raiva, tristeza, frustração, mas nunca podemos machucar nós mesmos, os outros ou estragar coisas. Converse sobre o que ela pode fazer quando essa vontade aparecer da próxima vez. Ouça como se sentiu, conecte-se com ela.

Esse diálogo pode ser riquíssimo, mas é IMPOSSÍVEL na hora do descontrole! E bater de volta, gritar, pôr de castigo pra “ensinar uma lição” só vai ensinar que agredir é permitido, sim, pois você está sendo exemplo de agressão. Pra ensinar a não agredir, é preciso ser o exemplo não agredindo. Pra ensinar a manter a calma e controle, é preciso permanecer calmo e no controle das suas emoções. Isso inclusive ajuda a criança a se acalmar mais rápido, pois os neurônios-espelho dela vão imitar o seu comportamento, modelando o estado de calma que você quer que ela alcance.

Se você não consegue f**ar calmo, se aquilo te fez sentir magoado, desrespeitado ou se doeu muito, você pode sair de perto, dizendo "estou irritado/com dor, vou pra lá até me acalmar". E vá para outro cômodo até você retomar o controle das suas emoções. Não entre em guerra com a criança, não ensine que é com agressão que se resolve algo.

Com o tempo, a repetição e a conexão com você, ela vai aprender a se controlar.

Por Cristina Nunes

25/01/2021

Nesse fim de semana surgiu uma discussão muito interessante nas redes sobre a obrigatoriedade de adolescentes lerem livros clássicos e, por causa disso, perderem o prazer com a leitura. Li muitos acadêmicos e professores defendendo tanto que ler os clássicos como obrigação realmente é um desserviço para a formação de bons leitores, como que os clássicos são muito necessários, sim.

Chamou minha atenção o argumento mais usado pelos defensores dos clássicos: escola não é pra ter prazer em aprender, é local de aprender um monte de coisas chatas - mas importantes - mesmo. Os argumentos não foram escritos exatamente assim, mas a ideia era essa, de que sentir-se feliz e interessado em aprender era algo secundário, o conteúdo é o que importa.

Resolvi falar disso justamente por conta desse argumento. Percebem como nossa sociedade acredita que o sofrimento faz parte do aprendizado? É criança sendo castigada pra "aprender" a agir melhor, é aluno detestando as aulas, livros e matérias porque aprender é assim mesmo, chato e sofrido, é empregado sendo humilhado pelo chefe pra ver se "aprende a lição" e produz mais, é gente defendendo frustrar de propósito bebês e crianças porque a vida é dura, o mundo é cruel, e tem que "aprender" isso o quanto antes.

Mas então vem a neurociência e nos mostra que o que aprendemos brincando, nos divertindo e com afeto f**a muito melhor gravado em nosso cérebro do que aquilo que nos ensinam no medo e no sofrimento. Que aquilo que buscamos ativamente aprender é fixado na memória de uma maneira muito melhor do que aquilo que somos obrigados a saber, sem desejo, sem prazer.

O problema não é só o excesso de conteúdos do tipo decoreba que temos na escola, mas a maneira como ele é apresentado e essa crença absolutamente equivocada de que aprender é algo sofrido. A dor não ensina de verdade, ela cria condicionamentos. Tanto a dor de uma palmada, quanto a de uma nota zero não motivam a criança a refletir e a querer aprender. Só geram medo e sentimentos de inadequação e menos valia.

Aprender pode - e deve - ser divertido, instigante, afetuoso e prazeroso. Não precisa ser sinônimo de sofrimento.

Por Cristina Nunes

22/01/2021

Não deixamos uma criança pequena atravessar a rua movimentada, usar o fogão ou f**ar na piscina sozinha, pois sabemos que o discernimento dessa criança ainda não é suficiente para que se proteja ou se cuide em situações que oferecem riscos. Por mais que a gente ensine e repita mil vezes quais são os perigos, fazemos questão de estar ao lado para garantir que ela não vá se ferir.

Mas, quando a criança pequena se descontrola emocionalmente, grita, bate, achamos que ela tem que saber lidar com essa explosão de sentimentos sozinha e que está sendo desrespeitosa conosco ou com os outros. Por que é tão mais fácil entender as limitações da criança no caso de atravessar a rua ou mexer no fogão e não no caso das crises emocionais, as "birras"?

A resposta está na nossa infância. A maioria dos pais e mães atuais não teve educação emocional na infância, não aprendeu a lidar de forma positiva com sua raiva, tristeza, ansiedade, frustração. A maioria apanhou, ficou de castigo ou ouviu "engole esse choro" quando se descontrolou com sentimentos difíceis. E hoje acredita que um filho pequeno bater nos pais é sinal de falta de respeito ou de limites, não de imaturidade emocional.

A parte do cérebro responsável pela autorregulação e pelo autocontrole começa a se desenvolver melhor por volta dos 5 anos de idade. Isso quer dizer que antes dessa fase é comum que a criança em crise não consiga controlar suas reações. Embora nem todas as crianças batam (e isso tem a ver também com a personalidade), muitas batem, chutam e mordem nessas horas e precisam da ajuda de um adulto calmo, firme e amoroso para retomar o controle sobre o próprio corpo e para lhes ensinar, em momentos de tranquilidade, que machucar a si, aos outros ou destruir coisas não é uma boa maneira de lidar com a frustração, mostrando quais outras opções a criança tem.

A repetição desses momentos de acolhimento e diálogo vai dando ferramentas emocionais à criança para que, conforme cresce e seu cérebro se desenvolve, ela consiga controlar suas reações sozinha. Não encare a imaturidade própria da idade como falta de respeito por você. Seja extintor, e não álcool, no incêndio do seu filho.

Cristina Nunes

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