15/01/2025
Chamada para dossiê: A Identidade Palestina em tempos do Genocídio em Gaza
Organizadores: Gisele Fonseca Chagas (UFF), Leonardo Schiocchet (Charles University, Prague) e Paulo Gabriel Hilu da Rocha Pinto (UFF)
Prazo final para submissão: 31 de agosto de 2025
A guerra desencadeada pelos ataques do Hamas contra Israel em outubro de 2023 já se prolonga há mais de um ano. A dimensão do ataque contra Gaza, o número sem precedentes de mortos na população local, que já soma mais de 45.000, a alta proporção de mulheres e crianças entre as fatalidades, a obstrução sistemática do acesso dos palestinos à ajuda humanitária e a serviços de saúde, e a destruição deliberada da infraestrutura civil, como escolas, hospitais e abrigos, permitem caracterizar as ações militares israelenses como genocídio contra a população palestina em Gaza. Paralelo a isso, a violência contra os palestinos na Cisjordânia, tanto por parte do exército quanto dos colonos judeus, atingiu níveis sem precedentes.
Essa situação de catástrofe humanitária no contexto de uma longa história de ocupação colonial dos territórios palestinos por parte de Israel, recolocou a Questão Palestina no centro do debate político internacional. A fundação do Estado de Israel em 1948 resultou em uma guerra por meio da qual 70% da população palestina foi expulsa de suas casas ou impedida de retornar para elas, significando uma limpeza étnica denominada pelos palestinos como Nakba (Catástrofe). Cisjordânia e Gaza estão sob controle militar israelense desde 1967, sendo alvos de um projeto de colonização judaica cujo objetivo é anexar mais territórios a Israel. Embora os assentamentos israelenses tenham sido removidos de Gaza em 2005, o território permanece sob controle absoluto de Israel e sofre um severo bloqueio econômico, bem como inúmeros ataques militares desde 2007, sendo considerado pela ONU como território ocupado por Israel. Os refugiados palestinos dispersos por vários países desde a Nakba seguem sem nenhuma solução política para seu exílio, o qual dura há mais de sete décadas.
Deste modo, consideramos fundamental reunir reflexões antropológicas que permitam compreender as várias dimensões da experiência histórica e cultural dos palestinos nos vários contextos sociais da Palestina histórica e do exílio palestino no mundo. Ao esboçar uma história da etnografia sobre a Palestina e palestinos, Khaled Furani e Dan Rabinowitz (2011) acolheram a Palestina como um local para a produção teórica, ao invés de alteridade. De acordo com os autores, entre o final do século XIX e o final do século XX, a Palestina como um local para pesquisa dependia sobretudo de análises feitas por antropólogos não-palestinos. A publicação do livro Orientalismo (1978), de Edward Said, ajudou a precipitar, então, uma mudança radical no modo de abordagem sobre a Palestina. Palestina e palestinos ressurgem como sujeitos, especialmente por meio de temas de pesquisa como “memória”, “refugiados”, “resistência”, “identidade nacional”, “situação colonial” e “gênero”, mas também por meio de “lei”, “prisão”, “burocracia” e uma série de novos tópicos (Furani & Rabinowitz 2011).
Já a etnografia nativa palestina começa a florescer no final da década de 1970 devido a uma dupla mudança política e epistemológica como resposta, respectivamente, à Guerra Árabe-Israelense de 1967 e à “crise” epistemológica inaugurada por Said. Para Furani e Rabinowitz (2011), a antropologia pós-colonial, pós-estrutural e pós-moderna oferecem o que eles chamam de “vocabulário habilitador” para o estudo de populações palestinas, sendo “memória” a mais proeminente dessas noções (Furani e Rabinowitz, 2011). Os autores observam que após os processos de paz de Oslo e Madri na década de 1990, a pesquisa etnográfica sobre palestinos, que hoje é amplamente percebida em associação com o ativismo palestino, viu um aumento acentuado.
Entretanto, até recentemente, a antropologia palestina era praticada principalmente em vários locais dispersos no Norte Global, concentrada em alguns grupos institucionais. Ou seja, era constituída principalmente no exílio e, às vezes, por acadêmicos palestinos dentro de instituições israelenses (Atshan 2021). Tal quadro começa a mudar após a criação da Insaniyyat (Sociedade de Antropólogos Palestinos) em 2015, que consiste numa rede de antropólogos palestinos nascida da iniciativa de alguns antropólogos palestinos que vivem na Palestina e em Israel (Schiocchet, 2018).
Neste sentido, de acordo com Schiocchet (2018), a etnografia Palestina hoje está principalmente preocupada com a forma como os palestinos estão presos em um vínculo entre repressão e resistência, exemplificado pelo que Furani (2011) chama de “narrativas sobre a luta nacional”. O autor aponta que a atual situação política da Palestina e dos palestinos levou a uma relativa falta de estudos de tópicos que não se relacionam diretamente com o “testemunho” do sofrimento palestino. Isso, por sua vez, acarretou em uma relativa falta de análises comparativas de médio alcance (por exemplo, regional) mais ousadas, com a exceção de estudos de colonização de ocupação, ainda que tais estudos tenham por vezes privilegiado comparações entre a Palestina e o Norte Global (via por exemplos “First Nations” e o movimento “Black Solidarity”). Além disso, como palestinos são fortemente marcados pelo atual projeto de colonialismo de assentamento de Israel, suas motivações etnográficas são fortemente constrangidas ao território palestino ou a palestinos em exílio. Assim sendo, no registro da antropologia pós-estruturalista (e pós-colonial) sobre a Palestina e palestinos, Schiocchet sugere que é fundamental voltar-se a um quadro comparativo histórico e sincrônico epistemológico de trocas Sul-Sul, envolvendo, por exemplo, Palestina e Brasil.
Desde os anos 2000, antropólogos brasileiros têm produzido conhecimento sobre palestinos e a Palestina. Devido ao seu foco na diáspora palestina no Brasil (com algumas notáveis exceções), em termos de tópicos, esta literatura tende a destacar processos de migração e/ou migração forçada, e processos de identidade e/ou pertencimento social. Grande parte dessa produção não é primariamente sobre ativismo em si, embora a mobilização política continue sendo um elemento quase indelével da vida palestina no exílio. Uma contribuição importante da literatura antropológica brasileira sobre a Palestina e os palestinos é desenredar essa aparente contradição desde um ângulo único.
Para este dossiê, convidamos contribuições de artigos baseados em pesquisas etnográficas em contextos palestinos, na diáspora e/ou no exílio, a colaborarem com o dossiê. O intuito é contribuir com o debate no campo global da antropologia sobre a Palestina e palestinos, através da reunião de pesquisas de antropólogas/os brasileiras/os e estrangeiras/os.
Este dossiê será publicado em inglês. Contudo, o envio das versões para avaliação pode ser feito em português ou inglês em:
https://submission.scielo.br/index.php/vb/submissions
Mais informações em: https://vibrant.org.br/chamada-para-dossie-a-identidade-palestina-em-tempos-do-genocidio-em-gaza/