18/05/2026
“Prefiro o excesso dos loucos à ponderação dos sábios. Alguns triunfam em seus fracassos, enquanto que outros encalham em seus sucessos”
Michel Onfray
A ponderação dos sábios é tomada aqui como a noção de vida economizada: aquela que se protege do risco, calcula demasiadamente os passos e prefere o conforto da segurança à vertigem da entrega.
Ancorar-se nesta prática conduz a uma existência poupando a si mesmo, estagnado em uma lucidez estéril que confunde sobrevivência com vida. Em contrapartida, o excesso dos loucos é o gasto generoso da potência vital, onde o erro não é um prejuízo, mas o risco inevitável de quem se recusa a viver
A loucura surge aqui não como patologia, mas como a recusa em caber nas formatações ligeiras. Um desvio criativo e a paixão que ultrapassa o que está posto.
A grande virada do pensamento reside na inversão da lógica tradicional de ganho e perda: triunfar no fracasso é a derrota trágica daquele que se arrisca por um desejo autêntico e, mesmo falhando aos olhos do mundo, preserva a autonomia de ter saltado alto.
Enquanto o realismo político dos moderados se esgota em táticas de preservação e reformas lentas, a ousadia de mudar se dá na capacidade de inventar territórios vivos, onde a existência se desvincula das exigências do capital e do Estado. É o avanço dessa experimentação coletiva que rompe as fronteiras do que dizem ser possível, transformando a convivência diária em um laboratório de insurgência e prazer.
13/05/2026
“O poder é ma***to, por isso sou anarquista”
Frase pronunciada por Louise Michel, personagem central nos acontecimentos da Comuna de Paris, no século XIX. Para ela, a sedução e a embriaguez que o poder produz sobre as pessoas, e os perigos que decorrem dessa concentração nas relações humanas, deve ser algo combatido e não almejado.
Entre Reich e a Soma:
O psicanalista Wilhelm Reich deu um passo fundamental ao retirar o conflito psíquico apenas do campo das ideias e localizá-lo na couraça muscular.
Para ele, a submissão a uma autoridade externa (seja o pai, o chefe ou o ditador) exige que o indivíduo reprima suas pulsões vitais. Quando uma relação se baseia na hierarquia e no medo, há contração do corpo, tornando a energia vital bloqueada para obedecer ou para dominar.
Na Somaterapia, entendemos que essa rigidez é a base da neurose. O corpo de uma pessoa assujeitada é um corpo que não se expressa, que não sente prazer pleno e que, eventualmente, adoece por conta da estase energética.
Numa perspetiva semelhante, Foucault no alerta: “Não se apaixone pelo poder” como um dos pilares do que ele chamou de Introdução à Vida Não Fascista.
Para ele, fascismo está em todos nós, em nossas cabeças e em nossos comportamentos cotidianos, o fascismo que nos faz amar o poder, desejar a própria coisa que nos domina.
Afirmar que poder é ma***to não é trazer um julgamento moral, mas trata-se se um grito de revolta diante dos processos de dominação. Estabelecer relações horizontais como produtoras de saúde permitem a autorregulação individual e a autogestão coletiva.
11/05/2026
Enquanto o pensamento liberal propõe a liberdade como um espaço privado que termina onde começa o outro, a visão de Bakunin rompe essas fronteiras para enxergar o outro como um aliado, e não como um limite.
Nesta perspetiva, a liberdade do outro é entendida como um espelho que amplia nossa própria imagem. Eu só sou verdadeiramente livre quando as pessoas ao meu redor também o são, pois a submissão de alguém ao meu lado cria um teto que achata a minha própria existência.
Em vez de muros que nos protegem uns dos outros, a proposta é que a autonomia alheia funcione como uma ponte: quanto mais o outro se expande e se descobre, mais caminhos e possibilidades se abrem para o meu próprio caminhar.
Assim, a liberdade deixa de ser uma disputa por espaço e se torna uma prática na construção coletiva, onde a expansão de quem está ao lado amplia e aumenta o nosso horizonte.
07/05/2026
A frase do poeta René Char ressoa como um desafio ético para qualquer prática que se pretenda verdadeiramente libertadora. Em um mundo que captura o desejo e domestica os corpos, uma terapia que não incomoda o conforto das neuroses torna-se apenas mais uma ferramenta de manutenção da ordem.
Uma proposta de terapia revolucionária não deve promover a adaptação do sujeito a uma realidade social adoecida, mas sim o despertar de uma vitalidade que rompe acomodações e questiona as estruturas de poder.
Na atualidade, onde o bem-estar é frequentemente vendido como uma mercadoria passiva, a clínica deve atuar como um território de insurgência. Respeitar o sujeito é, paradoxalmente, trazer-lhe o incômodo necessário para que ele deixe de ser um espectador da própria vida.
Somente o que abala o automatismo e a submissão merece o nome de autonomia; afinal, a liberdade não é um estado de repouso ou um locus a ser atingido, mas o movimento vibrante de quem se recusa a passar pelo mundo sem deixar marcas de transformação.
Imagens: Masahisa Fukase
05/05/2026
“A vida é demasiadamente breve para que a façamos pequena”
Jaime Cubero, anarquista brasileiro, autodidata e personagem fundamental na história libertária no Brasil.
Para ele, a vida libertária traz a contundência da autoria de si e de sociabilidades antiautoritárias.
“O anarquismo é um modo de conceber a vida, e a vida, sejamos jovens ou velhos, velhos ou crianças, não é algo definitivo: é uma aposta que devemos jogar dia após dia.
Quando acordamos de manhã e pomos os pés no chão, devemos ter uma boa razão para nos levantarmos, se não, não faz diferença nenhuma sermos anarquistas ou não.
Podemos muito bem continuar na cama e dormir. E para termos uma boa razão, devemos saber o que queremos fazer; porque para o anarquismo, para o anarquista, não há qualquer diferença entre o que fazemos e o que pensamos; há sim uma contínua inversão de teoria em ação e de ação em teoria.
É isso que torna o anarquista diferente de qualquer pessoa que tenha outro conceito de vida e que cristaliza este conceito em teoria política.” Alfredo Bonanno
04/05/2026
O corpo é o nosso primeiro território de luta e manifestação política.
“O poder requer corpos tristes. O poder necessita de tristeza porque consegue dominá-la. A alegria, portanto, é resistência, porque ela não se rende. A alegria como potência de vida, nos leva a lugares onde a tristeza nunca nos levaria.” Gilles Deleuze
A alegria não é apenas um sentimento, é potência de resistência. Como nos lembra Deleuze, o poder precisa de corpos tristes para dominar, pois a tristeza paralisa e submete.
Libertar o corpo das couraças é um ato libertário que resgata a alegria como potência de vida e resistência.
Um corpo que se percebe e se expressa livremente recusa a submissão e ocupa o mundo com autonomia. Nossa revolução é somática, afim de transformar a dor em ação e a rigidez em liberdade.
A Somaterapia como prática libertária auxilia a liberar essas amarras corporais e emocionais, cultivando a alegria como força ativa.
Enquanto as práticas de poder operam para docilizar nossos movimentos e silenciar nossos afetos através da tristeza, a Soma resiste como ferramenta de insurgência.
29/04/2026
O corpo como unidade indivisível
“A vida do corpo é a vida das sensações e emoções. O corpo sente fome real, alegria real ao sol ou sob a neve, (...) cólera real, tristeza real, ternura real, calor real, paixão real, ódio real, pesar real. Todas as emoções pertecem ao corpo e são apenas reconhecidas pela mente”.
D. H. Lawrence, 1955.
A fragmentação entre corpo e mente, tão presente na cultura ocidental, reduz a existência a um simulacro, transformando a carne em mero objeto de controle e o pensamento em abstração alienada.
Esse dualismo asfixia nossa potência política, pois ignora que as práticas de liberdade nasce da integração sensível e da autonomia dos afetos.
Nesta perspectiva, a Soma não é uma terapia que propõe um exercício de introspecção passiva, mas uma tática de combate na vida. Ao liberar as tensões que o corpo armazena, acessamos uma subjetividade que recusa o adestramento e a repressão.
É através da carne e do afeto que desarmamos as estruturas de controle, transformando a consciência corporal em um território de resistência e autonomia.
Viver de forma libertária exige uma presença que o pensamento isolado não alcança. A ruptura com o dualismo mente/corpo nos devolve a capacidade de autorregulação e o desejo pelo coletivo, fazendo do corpo a principal ferramenta de emancipação. Não se trata apenas de terapia, mas de uma política da existência que se expresse em cada movimento de liberdade retomado.
28/04/2026
“Não me liberte, eu me encarrego disso.”
Frase que surge nos acontecimentos de maio de 68 é a luta por uma autonomia radical, uma recusa intransigente à tutela que transforma a liberdade em algo delegado por outrem.
Ao rejeitar o papel de objeto a ser salvo ou emancipado por estruturas externas, o indivíduo reafirma que as práticas de liberdade não são concessões políticas, mas um processo visceral e inegociável de autodeterminação, onde a ação direta e a ruptura com o status quo são meios necessários de reivindicar a própria existência.
No entanto, essa busca não ocorre isoladamente, revelando-se também como um processo profundamente social. A autonomia individual requer a construção de redes onde a liberdade de um se entrelaça com a dimensão coletiva.
Assim, ser livre deixa de ser um ato isolado para se tornar um arranjo social, no qual a autonomia de cada um constrói, coletivamente, sociabilidades mais horizontais.
27/04/2026
“É a sinceridade que liberta e não a verdade,
a ética é uma consequência do comportamento e não a sua reguladora,
é a ludicidade que nos desbloqueia e não a lucidez,
é a unidade na diversidade e não na semelhança que socializa a liberdade,
é a criatividade e não a produção que justifica e gratifica o trabalho,
é o tesão que dá solução às relações humanas e não o sacrifício,
é o amor que vale a pena e não a vida.”
Estas são, entre outras coisas, o que justifica e produz interesse nas pessoas que procuram a Soma.
24/04/2026
“É o amor, e não a vida, o contrário da morte.”
Essa frase, que surge no romance Cléo e Daniel, de Roberto Freire, sintetiza a importância que atribuímos, no processo terapêutico da Somaterapia, ao ato de amar como potência de vida.
Viver acontecimentos, situações e projetos que estejam implicados na criação de afetos é fruto de uma luta incessante na elaboração de uma escrita de si.
Pensamos aqui o amor não como a mera realização das relações amorosas, mas como algo que se amplia para os diferentes campos da nossa existência, para tornar-se produtor de sentidos.
O afeto não é apenas um sentimento, é uma forma de afetação: é permitir que o mundo nos atravesse e que nós, por nossa vez, deixemos uma marca singular nele.
Assim, vivenciar o amor nos diferentes campos da vida é o que, de fato, nos distingue da mera sobrevivência — este estado focado na manutenção biológica e na segurança básica — e nos direciona ao viver como um estado de expansão.